A palavra de ordem aqui é perseverança. Sim, ao se mencionar o nome da horda ETERNAL SACRIFICE, dificilmente outro substantivo abstrato consegue definir de forma tão precisa a essência de sua trajetória. Desde 1996, sob a liderança austera e ininterrupta de Magister Templi Lhorde Haadaas Naberius, a banda construiu um caminho marcado por absoluta coerência artística, mantendo-se fiel aos princípios mais ortodoxos do Black Metal, sem abrir mão de uma identidade própria sustentada por uma forte e constante atmosfera sinfônica. Foi justamente para compreender melhor essa caminhada marcada por resistência, convicção estética e dedicação inabalável que fomos conversar com o idealizador do projeto. Como de costume, ele demonstra possuir uma bagagem ampla e enriquecedora, o que resulta sempre em uma longa troca de ideias, repleta de referências, reflexões e conteúdo histórico, capazes de contextualizar não apenas a trajetória do ETERNAL SACRIFICE, mas também sua inserção e relevância dentro do próprio underground extremo.
The Ghost Writer Magazine: A ETERNAL SACRIFICE iniciou suas atividades na primeira metade dos anos 1990, e, no decorrer desta mesma década, lançou algumas demo tapes que se tornaram verdadeiras raridades do nosso underground. Particularmente, eu prefiro “Beautiful Leaves of Supreme Pagan Art (Opera Sexualis)”, de 1999, apenas para citar uma delas. Olhando para trás, como você avalia a participação da horda no cenário nos anos 1990? O que você poderia nos falar sobre estes primeiros artefatos?
Anton Naberius: Certamente, ter quase trinta anos de existência em um cenário que se modificou profundamente durante essas três décadas é um ato de resistência, ainda mais se tratando de um grupo de jovens vindos da periferia pobre da cidade, sem ocupar nenhum espaço de privilégio, sem poder econômico e construindo seus degraus a partir de atos ousados, imposições, posicionamentos firmes e de grande personalidade. É preciso que muitas pessoas compreendam que a desigualdade social do nosso país é perversa e truculenta; nossa resposta, no início, foi com esse mesmo furor. Nós estávamos nas trincheiras da resistência, nos lugares mais inóspitos, e isso nos deu toda sorte de autodefesa possível para chegarmos tão longe. Ser negro, pobre e de periferia na sociedade sectária que temos já é um tratado, quiçá dentro do Metal, que tem em suas fileiras camadas culturais que abrangem pessoas brancas, de um perfil determinado, construindo uma estética e um gosto pré-estabelecido… Sim, nós somos a própria ferida sangrando todos os dias e fazendo muitos humanos, raça de medíocres, se incomodarem com a nossa presença. Nossa participação sempre foi muito produtiva, efetiva; nunca ficamos de braços cruzados esperando sermos reconhecidos, nós sempre travamos nossas batalhas com as armas em punho, em riste. Nós sempre tivemos que custear tudo de que precisávamos para alcançar nossos objetivos e fomos ajudados por poucos também… somos gratos, mas, no bojo, nós abrimos nossa estrada com as próprias mãos e isso está marcado em nosso próprio nome. Quanto aos artefatos a que você se refere na pergunta, seria muito injusto para nós apontarmos este ou aquele; todos possuem histórias únicas e simbolizam cada momento que vivemos. Como disse acima, nós fomos construindo esse nosso caminho para chegarmos aqui e ainda estamos pavimentando essa estrada até ela acabar. Ainda sobre nossa participação, nós produzimos eventos, promovíamos encontros, nos reuníamos para conversar, trocar materiais, falar sobre a cena e tomamos muitas decisões; isso eu posso dizer que foi um momento muito esplendoroso, pois, de fato, posso falar que, lá no início, existia uma cena coesa, forte e extremamente radical. Não dava para qualquer um querer ingressar ali, mas, como tudo ligado aos seres humanos, foi chegando um momento em que surgiram as desavenças, as fofocas (das piores espécies) e tudo foi ruindo, se fragmentando, quando tudo deixou de ser coletivo e passou a ser individual, cada um por si.
The Ghost Writer Magazine: É sabido que a cena soteropolitana do Black Metal, na década de 1990, era extrema em diversos aspectos. As bandas e o público eram muito fechados entre eles, não permitindo a adesão de novos apoiadores, por exemplo. Como você avalia essa fase mais radical do cenário? Na época, lembro de tentar ir a vários eventos e não fui aceito.
Anton Naberius: Pode parecer paradoxal o que vou falar agora em relação ao que respondi na questão anterior, mas, de fato, nós não queríamos novos colaboradores; queríamos pessoas que mantivessem o estandarte hasteado e fossem firmes. Tínhamos verdadeira aversão aos falsos, aquelas pessoas que queriam estar ali por algum tipo de “status” ou visibilidade, ou por terem algum tipo de vantagem. Aquele momento era único, onde muita coisa só circulava ali dentro. Era um círculo fechado de verdade, que não precisava de merchandise, nem publicação, nem divulgação… não precisávamos disso, pois tudo chegava às pessoas que queríamos que chegasse. Até mesmo um evento em que nossas bandas tocassem, não nos interessava o dinheiro de quem não pertencesse àquele “círculo”, e esta pessoa nem era bem-vinda. Na maioria das vezes, nossa resposta era com a total falta de diálogo ou tolerância; era no braço mesmo, na pura violência, e isso mantinha muita gente afastada de nós. Em relação ao diálogo, isso não era para interesses alheios aos nossos; aqueles argumentos eram intrínsecos e só diziam respeito a nós mesmos. Quem estava de fora tirava sua própria conclusão; não era comum saber sobre o que dizíamos e o que queríamos expressar, e essa expressão não era pública, era extremamente restrita. Eu avalio que essa fase foi brilhante, condizia com nossas atitudes, com a evolução tecnológica da época, ou seja, notícias eram restritas, as músicas eram registros físicos e também escassos, e muitas coisas eram de uma limitação, como se isso bastasse apenas àqueles que ali estavam. Em outros casos, os acessos eram possíveis se tivéssemos como comprar e tivéssemos os contatos certos para adquirirmos. Anos 1990 só entende quem viveu; um jovem de hoje teria, ou tem, muita dificuldade de entender sobre tudo isso de que estou falando, assim como muitos da mesma época teriam dificuldade. Nós prezávamos pela integridade ideológica do negócio. Metal Extremo, nos anos 1990, era, de fato, um movimento, porque tinha regras (ainda que fossem regras morais), objetivos, manifestos, padrões estéticos, linguísticos e simbólicos, códigos que nos pertenciam e refletiam todo aquele nosso pensamento de jovens que tinham referência, que sabiam por que faziam qualquer coisa. Não serei hipócrita em dizer que no nosso meio havia pessoas que não eram dignas de estarem ali; basta tentar resgatar na memória quem ainda está por aqui até hoje e saberemos sobre o que estou falando, quando não desapareceram ou se converteram ainda na época. O real radicalismo dos anos 1990 era uma postura extremamente hostil, portanto não dava para pessoas flexíveis e de mente aberta estarem lá naquele espaço; nós não enxergávamos a vida como uma esfera.
The Ghost Writer Magazine: A violência que a cena do Black Metal na Bahia propagava era tema de muitos debates entre os bangers da época. Você também sempre foi um cara de opiniões muito fortes e que, muitas vezes, iam de encontro com alguns “pseudo satanistas”. Como você lidava com esse tipo de gente? Tem algum fato que tenha te marcado desse período?
Anton Naberius: A violência era mais que uma arma para muitos de nós, era um ato de resposta, era uma forma subconsciente de dizer chega de invadir nossos espaços como “vocês” bem querem, porque aqui vocês irão encontrar uma resistência pesada, que não vai baixar a cabeça para o seu dinheiro podre, nem para a sua aparência perfumada. Nós somos aquele pesadelo do qual você quer acordar antes de cair, e lá estava nosso estandarte coberto de sangue. O que eu sempre fui contra é que essa violência fosse gratuita e usada contra nós mesmos, e isso foi muito mal interpretado internamente. As pessoas não estavam dispostas a raciocinar, a pensar sobre o que estavam fazendo, e isso foi um dos motivos pelos quais eu consigo enxergar como fator de degradação daquilo que poderia ter sido coeso… foi o estopim da ruína do que poderia ter existido por mais tempo (me refiro especificamente a Salvador, não me considero capaz de generalizar e expandir isso além das nossas próprias fronteiras). Quando passei a declarar publicamente que era contra a violência gratuita nos eventos, por exemplo, passei a ser ainda mais perseguido e odiado por muitos e, repito, não era totalmente contra o uso da violência, nunca fui pacifista, só não era a favor do “fogo amigo”, porque seria contraditório pregar a união entre nós e, ao mesmo tempo, apoiar um banho de sangue nos shows, sendo que, na maioria ali presentes, éramos todos do “mesmo interesse”. Com relação aos falsos, sempre houve isso dentro do underground, principalmente no Black/Death Metal. A gente podia sentir quando um cara estava blefando, mas a gente pagava para ver, e era, na maioria das vezes, certo descobrirmos o falso entre nós. Nem sei quantas vezes eu já fui caluniado, quantas histórias foram inventadas com meu nome, presente em lugares em que nunca estive, ou mesmo parentes que esqueci sua existência me sabotarem por acreditarem que eu seria uma pessoa que não duraria no “Metal”. Aqui estou eu, e meu parente, onde está? Pois é, muitos acreditaram nele, muitos viraram a cara para mim por causa dele… mas eu estou aqui, honro muito mais as minhas convicções do que muitos aí que se acham isso ou aquilo… estou aqui e minha boca verte marimbondo.
The Ghost Writer Magazine: O que eu respeito na sua trajetória é que você sempre foi um cara com muito conhecimento de causa. Sempre foi um idealista, que sempre buscou ler bastante para enriquecer a sua arte e o seu estilo de vida. Quais autores te influenciaram e influenciam para compor as letras da ETERNAL SACRIFICE
Anton Naberius: Na nossa sociedade, só se respeitam duas coisas: dinheiro e poder. Conhecimento é poder, dinheiro não tenho! Mas sou ávido pelo conhecimento, é algo que aprendi desde cedo, principalmente pensando no que explanei na primeira questão. Minha origem, como cidadão, é daqueles de 100×1 (cem para um); eu me vejo como esse um, que saiu da escola pública, ingressou na academia pública e conseguiu ultrapassar os limites do esperado por uma sociedade branca que construiu uma estrutura de massacre do povo negro no Brasil, que montou todo o seu esquema para nos deixar de fora desses espaços capitalistas de poder, porque, para eles, nós somos servis e temos de nos curvar diante deles para limpar seus sapatos. Posso me orgulhar de não necessitar passar por isso, mas, infelizmente, sei que muitos de nós passam e acham que são livres; não são, só mudaram os séculos e os termos, mas, desde que a burguesia ascendeu ao poder político e o capitalismo se instalou no Ocidente, o dinheiro e o conhecimento são os maiores poderes que a sociedade tem. Cada um deve saber lutar com as armas que tem, mas, antes, precisa de estratégia, de expertise para se sobressair. Não adianta uma espada de fio impecável se não sabe manusear, ou um lança-mísseis de última geração se não sabe qual botão apertar. A ETERNAL SACRIFICE é minha arma de expressão artística e fui, no decorrer do tempo, construindo minha própria forma de me comunicar. Não quero e nem sou doutrinador, e o que digo não é algo direto, de fácil entendimento; se quem lê não é iniciado, vai ter muita dificuldade, até porque eu refaço caminhos, eu divago no meu próprio empirismo para erigir minhas ideias, e assim se constrói algo próprio, feito com meus próprios pensamentos lúcidos, ainda que tudo esteja em uma esfera de subjetividade… Sempre fui muito discreto em citar autores, títulos, porque nunca tive essa abertura de caminhos e não sou altruísta, ou não fui tratado pela vida para ser um, então eu acho que cada um deve buscar seu conhecimento e pavimentar seus próprios caminhos… o mal só chega àqueles que realmente o conhecem.
The Ghost Writer Magazine: Em 2003, eis que finalmente é lançado o debut “Musickantiga… Prédicas do Vero Báratro (Cantata Lúgubre, the Revive Rapture of the Shadows Cult)”, através da Maniac Records. Lembro de ter adquirido o material no exato dia do lançamento e o ouvi por anos a fio. Até hoje, ele soa como um disco à frente do seu tempo e extremamente complexo, tanto para o estilo quanto para a época e o contexto nos quais foi disponibilizado. Como foi a fase da ETERNAL SACRIFICE neste período? Quais recordações você traz consigo acerca dos shows de suporte ao “Musickantiga…” ?
Anton Naberius: Foi justamente por uma mudança profunda na formação da ETERNAL SACRIFICE que decidi dar passos maiores e mais ousados com a banda na virada do século XX para o XXI. Em 1999, só mesmo eu era o componente original e fundador da horda e estava, ainda naquele momento, acompanhado de Charles (guitarra). Gravamos, então, uma promo com nossas novas músicas e saímos de dentro daquela bolha em que estávamos imersos e acreditávamos ser o momento de transmutar, de deixarmos de ser tão idealistas e sermos mais artistas. O idealismo ainda existe em mim, mas eu percebi que estávamos sem os mesmos pensamentos e tudo o que o real radicalismo representava estava se degradando. Gravamos a promo, lançamos, enviamos para muitos selos daqui e do exterior, tivemos uma repercussão assombrosa e daí foi o nosso divisor de águas: quem nos conhecia, muitos, torceram o nariz; outros que só nos conheciam de nome passaram a ter acesso à nossa música e muitos passaram a nos odiar ainda mais (risos gerais), e uma boa parcela passou a querer nos acompanhar, conhecer a banda etc. Nesse momento, nós aproveitamos o mesmo ensejo e gravamos o nosso álbum com essa formação que tínhamos em “Beautiful Leaves…”, porém o que poucos sabiam é que já tínhamos as músicas do primeiro e do segundo álbuns já compostas entre 1999 e 2000. Tínhamos pouca grana e muitas amizades; posso dizer que foi um álbum feito na base da amizade. Gravamos, fizemos toda a produção na base da permuta e esperamos quatro anos até que ele fosse lançado.
The Ghost Writer Magazine: Após a excelente aceitação do seu primeiro álbum, não demorou muito para que, em 2004, novamente através da Maniac Records, fosse lançado o EP “Sonata Satanicka 666”. O material conta com cinco tracks e me soou como uma espécie de continuação natural de seu antecessor. Concorda com a minha afirmativa? Como se deu o processo de composição e produção deste material?
Anton Naberius: Com um pouco de atenção nos créditos dos encartes do primeiro álbum, do EP “Sonata Satanicka 666” e do segundo álbum, é possível perceber que os três materiais são de uma mesma história; eles estão interligados e só fazem sentido juntos. Só o terceiro álbum é uma nova história, e todo o material que eu componho para a ETERNAL SACRIFICE é conceitual a partir do primeiro álbum. O “Musickantiga…” foi composto em dois anos, de 1998 (quando entrou o baterista Frater) até o fim de 1999. Como falei na questão anterior, nós compusemos dois álbuns nesse período. Gravamos o álbum e nos vimos perdendo integrantes no meio da gravação e, por fim, restaram apenas eu e Frater Deo Sóror (baterista) na banda. Assim, decidimos continuar, independentemente daqueles que preferiram ir embora. Com muito sacrifício, bem a nossa cara isso, conseguimos que a Maniac lançasse o “Musickantiga…” em CD e foi um álbum que esgotou rapidamente, até porque foram prensadas quinhentas cópias, e não mil, como acordado, e isso nunca foi cumprido. Aliás, um dos sócios do selo, na época, chegou a me dizer que não iria fazer as outras quinhentas cópias porque achava que o álbum deveria se tornar “cult”!!! Oi? Bom, sei que foi assim: subindo a rampa aos poucos, fomos vendo que o selo tinha seus prediletos e que esses não éramos nós. Não vinha nenhum investimento em nossa direção; foi quando o selo nos ofereceu gravar o EP e que iriam dividir as despesas conosco… Bom, o EP saiu em 100 cópias em CD-R, com silk no disco e capa impressa em copiadora… confesso que isso me deu um nó por dentro, mas fiquei na espreita do que viria mais à frente, e veio, pois o EP foi relançado com uma produção decente e de respeito pela Blasphemy, no formato CD e K7. No nosso contrato firmado, dizia que o segundo álbum seria totalmente custeado pelo selo e que teríamos toda a atenção devida, merchandise, show de lançamento, suporte e muito mais. Esperamos, esperamos e isso nunca aconteceu, até que o selo fechou/faliu e, assim, ficamos sem lançar o segundo álbum, com ele todo composto há anos, e tudo parecia que a banda nem estava em atividade. Enquanto isso, nos apresentávamos aqui e ali, mudávamos de formação feito mudança de roupa e isso definitivamente estava me desagradando bastante. Ou seja, todo aquele esforço que fizemos para termos nossa obra lançada com dignidade foi escorrendo entre os nossos dedos. Apesar disso não me fazer desistir, sempre soube que não teria como alcançar o êxito sem trabalho.
The Ghost Writer Magazine: Um hiato de longos seis anos ocorreu até que o seu segundo álbum, “Iluminados por Thanatherous Aleph… Musickantiga (Macabre Operetta: the Magickal Revival of Books, Pacts and Holy Writings: Atto II)”, fosse lançado no país. Por qual razão existiu tanta demora para se concretizar este segundo opus? Eu acredito que esta fase foi a mais madura da horda, com suas composições muito melhor estruturadas. Como se deu o processo de composição deste álbum? Ele é, de fato, uma continuação direta do primeiro disco?
Anton Naberius: Como disse na questão anterior, os dois álbuns e o EP são uma mesma obra. Não à toa nos autorrotulamos como Opera Pagan Black Metal Art; tudo isso tem muito a ver com a construção intelectual que quis impregnar na banda, para que ela tivesse sua própria identidade. O segundo álbum foi outro investimento próprio, assim como todos os materiais que lançamos na nossa história. Nunca tivemos nenhum selo ou gravadora que investisse em nossas produções, e considero isso vergonhoso! Honestamente falando, acho que as bandas de Metal Extremo no Brasil não merecem passar por isso, e muito se discute sobre isso ou aquilo determinar que uma banda é underground ou mainstream; acho que, para uma banda ser mainstream, precisa de muito mais que um selo investir dignamente na banda do seu cast. Certamente, essa minha indagação esbarra em um processo deveras complexo, que é esse mundo dos negócios no Metal brasileiro. Estamos falando de uma sociedade mal gerida, desigual, racista e segregacionista; não dá para ter prosperidade em uma sociedade que se enquadra nos padrões capitalistas, mas que não distribui os processos educacionais de forma igualitária, que não propõe ações que dignifiquem esse povo e, claro, isso tudo vai se refletir em todos os campos. Seria muita covardia minha querer comparar o underground brasileiro com o europeu, por exemplo, mas quem conhece um pouco sabe muito bem que há um abismo que separa um do outro, a ponto de nós mesmos supervalorizarmos as bandas estrangeiras e menosprezarmos as bandas nacionais. Pagamos caro por um disco gringo sem reclamar, mas reclamamos quando o nosso amigo lança um CD e não nos deu um exemplar de presente… Isso tudo é reflexo de toda essa estrutura perversa em que estamos metidos, é essa lama que faz com que um selo/gravadora nacional fique a vida toda esperando que as bandas entreguem seus materiais prontos, gravados, mixados, masterizados, com foto tirada, encarte pronto… Tudo isso é bem cômodo, e colocar a culpa na economia do país também o é! Mas o que dizer desse país que não tem estrutura alguma para progredir? Quando, em 2009, gravamos o “Iluminados…”, nós tínhamos um equipamento melhor, nós também evoluímos um pouco mais como músicos; com certeza, tempo e experiência nos dão uma baita cancha, e isso foi primordial. Mas, como eu disse, esse material já estava composto. As pessoas têm a impressão de que nós amadurecemos muito porque a qualidade do segundo álbum, em relação ao primeiro, é gigantesca, e certos detalhes ficaram mais expostos, mais evidentes. Também tivemos mais tempo para fazer uma pré-produção, mais horas de estúdio do que tivemos com o primeiro álbum e, na prática, o equipamento usado para gravar também era superior; portanto, isso deu a impressão de que nós demos um grande salto de qualidade. Em estudo, sim, evoluímos muito, mas garanto que aqueles que frequentavam nossos shows já tinham essa percepção antes mesmo do segundo álbum sair. Todo o material foi idealizado por mim, e fui conseguindo apoio aqui e ali para tirar fotos da banda, para fazer a capa, da qual gosto muito também. Aliás, esse fator de ser uma capa pintada, como foi a do primeiro, sempre foi meu ideário dentro da banda; sempre admirei muito as bandas de Metal que lançaram material com essas características e era algo que eu sempre pensei para a ETERNAL SACRIFICE. Também consegui um amigo que fizesse a arte gráfica na época, mais uma produção feita com apoio de muitos amigos, e tudo fluiu.
The Ghost Writer Magazine: Os shows em suporte a “Iluminados por Thanatherous Aleph… Musickantiga (Macabre Operetta: the Magickal Revival of Books, Pacts and Holy Writings: Atto II)” duraram nada mais, nada menos, que oito anos. Como você avalia este período e como foram as aparições da banda desta fase?
Anton Naberius: Incrível como, toda vez que lançamos um álbum, sofremos grandes baixas de membros na banda; foi o que aconteceu no meio da gravação. Primeiro saiu o baixista, por motivos que não sei nem se ele é capaz de explicar, e nem quero saber também! Quando o álbum saiu, nos tornamos um trio: eu, Orias e Frater. E, por esse motivo, ficamos meio sem poder nos apresentar. Fizemos poucos shows quando o material saiu: um show de lançamento, produzido por nós mesmos, aqui em Salvador, e fomos convidados a tocar em um grande evento da época, em São Paulo, em 2012. Depois, ficamos muito oscilantes nas formações e isso nos prejudicou muito, porque passamos um bom tempo sem ensaiar, sem compor e, consequentemente, sem nos apresentar ao vivo. Considero essa uma fase muito ruim da banda, apesar de o álbum ter sido muito bem repercutido, mesmo sem nenhum merchandise sobre o disco; nenhuma camiseta foi feita desse material, por exemplo. Ficamos presos apenas ao CD em si e, mesmo assim, eu considero a procura por ele exitosa. Por outro lado, eu ainda acho que a vontade de aquisição de material nacional do brasileiro é muito baixa, não importa se tiver qualidade; sempre um material estrangeiro vai ser mais atrativo, mesmo custando o dobro, o triplo e, infelizmente, isso só demonstra que somos consumidores de uma cultura estereotipada, já formada com conceitos pré-estabelecidos, em que o material produzido aqui tem muita dificuldade de ser encaixado nesse quebra-cabeças. Então, esses oito anos foram anos de transformação profunda na banda e foi um momento que nos fez refletir bastante sobre o que queríamos e quem queríamos conosco também.
The Ghost Writer Magazine: Em 2018 foi lançado “Ad Tertivm Librvm Nigrvm”, seu terceiro álbum. Este material manteve a assinatura da banda, porém achei ele maior (produção mais robusta) e melhor finalizado do que os seus predecessores (mixagem e masterização). Na sua ótica, o que a experiência na cena lhe trouxe para evoluir tanto neste quesito?
Anton Naberius: O nosso terceiro álbum foi o reflexo das transformações que mencionei na questão anterior. Foi um álbum que teve um processo longo de composição, praticamente dois anos. Começamos a compor as músicas e ensaiávamos em três, aqueles três que citei acima… Nesse processo, chegamos a trabalhar com um baixista que havia sido indicado por um amigo, mas esse mesmo baixista não conseguiu se manter na banda, faltava muito nos ensaios e não podia permanecer sem compromisso. Nesse meio-tempo, houve o retorno de nosso antigo guitarrista Charles e isso acelerou muito o nosso processo de composição do terceiro álbum, e foi quando passamos a ter um volume maior de encontros e ensaios até entrarmos em estúdio para gravar. Tínhamos composto tudo apenas para as cordas e chamaríamos um amigo para gravar o teclado e criar esses arranjos em estúdio mesmo, mas, em cima da hora, o Kastiphas entrou em contato conosco e conversou sobre seu desejo em retornar à banda e as coisas fluíram muito bem. Ele participou dos ensaios finais, aqueles ajustes para encaixar alguns arranjos, e acabou calhando perfeitamente, inclusive uma das músicas ainda era da época em que ele estava na banda, quando saiu no auge do segundo álbum. Para o processo gráfico, eu fui resgatar alguns critérios estéticos que usávamos nos anos 1990, acho que deixamos muito dessa essência um tanto de lado e fomos lá buscar aquelas referências de identidade visual, principalmente para as fotos. A capa, eu já estava vendo um artista que vinha chamando muito a minha atenção nas redes sociais e já o conhecia da própria cena, o Márcio Menezes, e de alguns trabalhos que vi, mas não sabia que eram de autoria dele. Então, encomendei com ele a capa e adquiri algumas gravuras que calharam com o tema do disco, e, na arte gráfica, o mestre Alan Luvarth, que, desde esse álbum, passou a fazer toda a arte gráfica da banda e da Diabolism também. Com tudo isso, eu consegui uma aliança com a Hammer of Damnation, que lançou o álbum, fez uma puta promoção do material, que considero a melhor até hoje entre todos os selos pelos quais passamos. Acho que nunca fomos tão respeitados e admirados ao mesmo tempo por um selo. Ele nos deu todo o suporte para lançar o material e ele saiu de catálogo rapidamente.
The Ghost Writer Magazine: No ano de 2020, o álbum comemorativo de 26 anos de atividades foi lançado em um formato mega luxuoso. Intitulado “Demongorgon – A History of Rites, Skulls, Serpents and Fire”, ele traz duas músicas revisitadas da era das suas demos, assim como algumas releituras de antigas hordas como Arkhõn Tõn Daimoniõn, Blessed In Fire, Mystical Fire, Mortius, Sabbat, Bathory, entre outras. Quais os critérios para a escolha das faixas contidas neste CD? Confesso que fiquei impressionado com o resultado obtido no produto físico. A concepção deste formato foi totalmente sua?
Anton Naberius: Essa ideia é muito antiga, mais antiga que as composições do “Musickantiga…”. No Metal, temos uma cultura muito autoral. Confesso que tenho pouca memória de bandas que lancem discos com músicas compostas por outros músicos autores ou outras bandas mesmo; em geral, é uma música no final do álbum e pronto. É raro uma banda lançar um disco inteiro com regravações ou mesmo gravações originais com autorias fora da banda. Ainda nos anos 1990, eu queria selecionar músicas das principais bandas que admirava na época para poder gravar com a ETERNAL SACRIFICE. Era meio loucura, talvez, mas eu queria gravar uma música de cada banda foda daquela época aqui de Salvador e nunca consegui realizar. No mesmo set de gravação do “Ad Tertivm…”, nós gravamos músicas para o Sabbat, um tributo que saiu apenas com bandas nacionais, e depois uma música para um tributo brasileiro ao Bathory, oficial, feito pela Hammer of Damnation. Isso me deu um insight: vou realizar minha loucura agora. Lancei a ideia e todos abraçaram na banda, fiz uma lista e alguns trouxeram opiniões, algumas faíscas rolaram, mas, no fim, deu certo e gravamos o “Demongorgon”. Para coroar a minha loucura, eu propus que fosse lançado um DVD de nosso show aqui em Salvador, que foi filmado e tinha boa qualidade, estava editado e tal… então o Luiz prontamente se dispôs e fizemos um álbum duplo, com regravações de músicas nossas, de bandas que deram muitos passos conosco durante o tempo e bandas que foram influências pessoais. Mais uma vez, caprichamos muito na arte gráfica e na produção e, para a capa, usamos fotografias que eu mesmo fiz.
The Ghost Writer Magazine: “Demongorgon – A History of Rites, Skulls, Serpents and Fire” traz ainda um DVD contendo o álbum “Ad Tertivm Librvm Nigrvm” na íntegra, gravado ao vivo no Bahnhof Club, em Salvador/BA, na noite de 10 de novembro de 2018. Quais memórias mais marcantes você tem desta experiência? Eu, particularmente, gostei bastante da captação de áudio e vídeo.
Anton Naberius: Tenho boas memórias e algumas frustrações! A boa memória fica para o fato de termos reunido, nesse evento, nomes tão importantes para o Metal negro nacional, como para a existência e a persistência da nossa carreira. Termos conseguido reunir aquelas bandas e aquelas pessoas foi, sim, memorável. Acho que fazia alguns anos que não via o antigo Idearium (Bahnhof Club) tão cheio e com tanta gente que estava sentindo falta de ver. O lado da frustração foi sobre tudo o que eu planejei para aquela noite não ter se concretizado plenamente. A minha ideia era de uma imersão completa em uma reprodução meticulosa de um ritual profano e, para isso, eu tinha feito uma grande encomenda com estandartes, pano de fundo, esculturas, velas, só que, na hora de montar esse cenário, tivemos algumas dificuldades: primeiro, o espaço era muito limitado e não caberia a metade do que havíamos levado; depois, nós conseguimos duas pessoas para nos ajudar a montar o palco e os caras estavam tão perdidos que mal conseguiram fazer as coisas, e eu é que acabei montando a maior parte de tudo, pronto para tocar. Certamente, se tivéssemos a estrutura desejada ou a estrutura ideal, nós faríamos uma apresentação de uma banda de Metal negro em Salvador jamais vista. Pense em uma cerimônia sinistra… pensou? Pois é, o vídeo passa essa atmosfera, mas, certamente, com todo o cenário que nós preparamos para aquela noite, esse vídeo iria transpor todos os limites… quem sabe um dia.
The Ghost Writer Magazine: “Esbat: Sacrificivm Ignis Calix Sangvinis”, mais um lançamento comemorativo da horda, é um trabalho ao vivo que foi gravado em um festival em Fortaleza, no longínquo ano 2000. Na ocasião, vocês dividiram o palco com as bandas Govanon, Hecate, Pentáculo Místico e NightBreath. Por qual razão este material ficou engavetado por mais de 20 anos? O que te levou a querer lançá-lo neste momento da trajetória da banda?
Anton Naberius: Esbat foi um show gravado em 2000 nesse evento que você citou. Aliás, esse evento era para ter sido gravado por uma equipe profissional de filmagem que, segundo a produção, deu o bolo neles. Fico aqui imaginando como seria esse vídeo hoje, porque esse dia nunca mais vai sair da memória de quem lá estava presente ao final do nosso show… e quem for de lá e quiser contar sob seu ponto de vista… (risos). Não aconteceu de ter sido filmado, mas foi captado o áudio do show, com um equipamento muito avançado naquela época, que se chamava MD. Então, nossa apresentação foi gravada em áudio e ganhamos essa captura de maneira integral; esse “ao vivo” era para circular entre nós da banda apenas, mas teve uma época em que vazou e alguém conseguiu e tal… Por que ele nunca foi lançado antes? Como eu disse, o show foi em 2000, o nosso primeiro álbum só saiu em 2004 e o segundo em 2010. Nesse show, nós tocamos músicas que fazem parte da ópera “Musickantiga” e não faria sentido lançar um live com músicas que estariam nesses álbuns. Então, preferi guardar para lançar mais tarde, e ficou guardado por 20 anos. Por essas e outras, acabou que foi lançado em um momento interessante, quando o evento completou 20 anos e a banda já tinha lançado os álbuns com as músicas, e o live não seria mais um tipo de spoiler.
The Ghost Writer Magazine: Recentemente, vocês anunciaram o título e a arte gráfica do seu novo álbum, “Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister”. O que você pode nos adiantar sobre este material? Quando ele será lançado?
Anton Naberius: Esse é o projeto mais arrojado de nossa história. Será um álbum duplo, com requintes de crueldade. Esse material é a consolidação sobre o resgate que estamos fazendo sobre a nossa própria história, sobre um perfil que tínhamos muito firme nos anos 1990, mas que talvez não conseguíamos concretizar por inexperiência ou pouca técnica instrumental, ou mais um emaranhado de questões que faziam com que não conseguíssemos transpor aquilo que queríamos do jeito que queríamos. Não se trata de falta de essência, mas, às vezes, voltar o olhar para dentro nos dá mais certeza do que somos do que ficarmos buscando faróis quando a luz está dentro de nós mesmos; o Lúcifer acende de dentro. Então, foi com essa essência que compusemos o “Inclinavit Se…”. É um álbum extremamente sentimental e sinistro, que trata do tema com uma narrativa poética e cinematográfica ao mesmo tempo, pretensiosamente lord byroniana, eu diria! E temos uma produção gráfica totalmente opulenta, belíssima, criada pelo artista Rubens Azoth, da qual já soltamos um aperitivo, e que vai trazer todo o contexto muito bem cuidado pelas gravadoras Black Hearts e Blasphemy Productions. Não há uma data firmada para ser lançado, mas os planos são que saia ainda no primeiro semestre. Estamos na fase de finalização da arte gráfica e vai sair em três formatos: um box set especial para colecionadores, em quantidade limitada, CD duplo e cassete duplo, todos com produções luxuosas. É só aguardar os detalhes. Além disso, existem planos de camisetas exclusivas e outras coisas que farão um diferencial no material.
The Ghost Writer Magazine: Tivemos acesso ao single “The Mass (The Black Consecration of Five Glories Cult)”, que serve como prévia de “Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister”. O que me deixou aliviado é que o tom mais “operístico” da banda está mantido, assim como seu direcionamento musical e estrutural. Por qual razão escolheram esta faixa para ser o primeiro single do vindouro CD?
Anton Naberius: Como venho dizendo em toda a entrevista, certamente nós temos como personalidade estarmos sempre voltados para dentro, pois assim entendemos que somos mais verdadeiros, mais espontâneos e nossas verdades exalam sem esforço. Aliás, sermos reconhecidos sonoramente foi um dos nossos principais desafios e acho que esse desafio nós vencemos, pois acredito que somos imediatamente identificados e posso acreditar que somos referência no estilo de Metal negro que fazemos, sem aqui querer soar como soberbo, mas falsa modéstia, para mim, é coisa de cultura cristã… execramos o cristianismo, vomitamos sobre seus símbolos ou sobre seus preceitos morais, fodam-se! “The Mass” é uma faixa emblemática, acho um hino perfeito para mostrar àqueles ávidos pela via da mão esquerda o que a sua arte tem a lhes oferecer. Infelizmente, a maioria das pessoas que dizem gostar de Metal Extremo está ansiando por velocidade e dicotomia. ETERNAL SACRIFICE entregará a vocês cinzas e não chamas, ruínas e não erupções, entregará morte e não iminência de morte, entregará fumaça e não tochas incandescentes… ETERNAL SACRIFICE entrega uma arte de mão esquerda profunda, opulenta, sem superficialidade de malabarismos instrumentais, performances atléticas… nós trazemos escuridão, abismos, cadafalsos… é isso que terão. Então, nossa música nunca estará no mainstream, porque não fazemos músicas para as massas, não fazemos arte para vocês que são fantoches, vocês que não sabem nem por que abrem um encarte de um álbum ou o que aquela entidade está proliferando. Nós fazemos arte sinistra para nossos pares, aqueles que sabem que irão encontrar o sangue, a dor, o sofrimento, o pesadelo bem ali, impregnando seu ar, tirando seu fôlego e não fazendo espetáculos circenses. Somente aqueles que vigiam em delírio os mistérios das artes negras fundam o caminho que Ele passeia!
The Ghost Writer Magazine: Magister Lhorde Haadaas Naberius, obrigado pelo tempo cedido à equipe da The Ghost Writer Magazine. O espaço agora é seu para as suas considerações finais.
Anton Naberius: Agradeço pelo imenso espaço cedido, confesso que isso é realmente muito raro hoje em dia. Também prefiro a liberdade para incomodar aqueles que não estão preparados para ler verdades nuas e cruas e estão à espera de conformidades padronizadas, dizeres cheios de felicidade e perfeições, alienações… aqui é uma entidade sombria, esconsa, estranha, medonha, que, ao ver-lhe ferido, tende a abrir ainda mais essa chaga que sangra… não existimos para trazer cura, existimos para trazer dor, sofrimento, caos, loucura, morte… Na nossa trilha, só cabem ossos com fragmentos de carne morta, nosso ambiente propício é aquele entorpecido, onde os humanos se veem em desespero, ajoelhados diante de seu deus de madeira e inclinados diante do altar do Diabo… Salve Sagra Herege Satanás! Salve!
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