Você é fã de Metal Extremo? É brasileiro? Se ambas as respostas forem um sonoro “sim”, então certamente já ouviu falar nos baianos do HEADHUNTER D.C.. Nascido em Salvador, no final dos anos 1980, o grupo foi um dos principais responsáveis por balizar o Death Metal no nosso país, incluindo o Nordeste no mapa e unindo forças com os principais nomes que brotavam aos montes em Minas Gerais. Não por acaso, a lendária Cogumelo Records assinou com os caras e foi responsável pelos lançamentos dos seus dois primeiros registros discográficos, “Born…Suffer…Die” (1991) e “Punishment at Dawn” (1993), inserindo-os em um catálogo invejável que, dentre muitos, reunia lendas do gênero como Sarcófago, Sepultura, Mutilator, Chakal, Amen Corner e Sextrash. Fomos conversar com o vocalista Sérgio “Baloff” Borges, abordando temas que englobaram toda a sua carreira, rendendo uma pauta extensa que preferimos dividir em duas partes.
The Ghost Writer Magazine: Vamos começar literalmente pelo início da carreira do HEADHUNTER D.C.. Em 1989, o grupo lançou no cenário a clássica demo “Hell is Here”, que teve excelente aceitação por parte da mídia especializada e dos fãs. Mesmo que você não tenha feito parte da formação naquela época, como fã, o que você poderia nos dizer sobre o impacto que este material teve na sua vida e no underground nacional como um todo?
Sérgio “Baloff” Borges: Saudações em triplo seis, Eduardo & The Ghost Writer Magazine! É curioso e até engraçado falar daquela época em que eu ainda não fazia parte da formação da banda, porque, na verdade, é como se eu sempre tivesse feito realmente parte da mesma, tamanha era a minha proximidade e comprometimento com o HEADHUNTER D.C. já naquele período. Você sabe, eu testemunhei de perto o final do Túmulo e o início da banda que daria continuidade à sua curta existência; presenciei seus primeiros ensaios, seu primeiro show e, consequentemente, a sua primeira gravação em estúdio profissional – no caso, a gravação do jamais lançado 12″ EP “Noise”, que mais tarde se transformaria na demo em questão, “Hell is Here”. Eu era um misto de fã, roadie, fotógrafo e ainda ajudava a banda com as correspondências. Estive in loco em todas as sessões daquela gravação no Orion Studio, inclusive participei da famigerada “intro” da demo, com alguns berros rasgados junto com os caras da banda. Houve também uma segunda versão de “No Violence” (que fazia parte da tracklist do EP e não entrou na demo), na qual Iaçanã (baterista, ex-HEADHUNTER D.C.) ficava rufando na caixa enquanto eu atacava o crash sem piedade durante os poucos segundos da música, numa tentativa de soar como a bateria do Napalm Death no “The Peel Sessions”, de 88, o que acabou não dando muito certo, ficando, obviamente, o primeiro take como o definitivo (risos). Vale lembrar, também, que, apesar de todos os vocais terem sido gravados por Eduardo Falsão, meu nome já aparece no lineup oficial da banda no encarte da demo, pois, quando do lançamento da mesma, entre o finalzinho de 1989 e o início de 1990, Eduardo já havia deixado o grupo. Primeiramente, falando sobre o impacto que este material teve (e ainda tem) em minha vida, o que posso te dizer é que, por muito tempo, aquela advance tape disputou a vaga em meu tape deck junto com outras demos, advances de álbuns (hoje clássicos) da época e outras gravações em fita, como lives, ensaios e discos dos quais eu ainda não possuía os originais, entre eles bandas como Napalm Death, Putrefaction/Grave, Grotesque, Sadistic Intent, Sempiternal Deathreign, Asphyx, Imperator, Acheron (EUA/AUS), Rigor Mortis/Immolation, Revenant, My Dying Bride (era demo), Paradise Lost, Sinister, Morbid Angel, Incubus (Geórgia), Nausea (EUA/JAP), Terrorizer, Atavistic, Unseen Terror, Pactum (MEX), Blasfemia, Masacre, Nomenclature Diablerie, Dead Conspiracy, Morbid, Necrovore, Insulter, Mayhem (BRA/NOR), entre outras tantas, não apenas porque era um material que vi sendo escrito e gravado, mas porque era algo realmente fudido, daqui da nossa área e pioneiro até o osso. Pela falta de experiência tanto da banda quanto, principalmente, dos profissionais do estúdio com aquele tipo de música que eles não entendiam e fazia seus ouvidos sangrarem, a gravação não ficou com o peso e o punch que a mesma precisava, mas o que aqueles caras produziram ali naquele estúdio, com o mínimo de estrutura e tempo para gravação e mixagem, foi algo do além, a começar com a devastação gerada por Iaçanã na bateria (que tinha a metranca mais rápida do Brasil àquele período), até as palhetadas à velocidade da luz e os já intrincados solos de Zé Paulo (guitarrista, ex-HEADHUNTER D.C., então com apenas 15 anos de idade), algo raro dentro do estilo naquela época. O lançamento da demo caiu como uma bomba na cena nacional e ninguém acreditava que se tratava de uma banda da Bahia, que, até então, nunca tinha gerado algo tão violento em termos de Metal – sem mencionar que estamos, provavelmente, falando, entre outros aspectos, do primeiro registro profissional de uma banda de Metal Extremo do Norte/Nordeste. Não tenho números exatos, mas posso garantir que, se “Hell is Here” não atingiu 1.000 cópias vendidas e distribuídas naquela época, chegou bem perto – isso, em 1989/1990/1991, era um feito monumental, acreditem! A repercussão no underground foi muito boa, culminando na distribuição da mesma nos EUA pela Wild Rags e, posteriormente, no contrato com a Cogumelo Records, que gerou nossos dois primeiros álbuns. Com toda a dificuldade enfrentada naquele período, “Hell is Here” foi uma estreia incrível para uma banda de Death Metal que vinha do “berço do axé e do carnaval”. O resto é história…
The Ghost Writer Magazine: Dois anos se passaram do lançamento de “Hell is Here” e a banda finalmente assinou com a Cogumelo Records para o lançamento do debut “Born…Suffer…Die” (91). O LP ajudou a fincar de vez o nome do HEADHUNTER D.C. nos cenários nacional e estrangeiro. Agora, fazendo parte da formação que registrou a referida obra, como você analisa a situação do underground nacional daquele período? Conte-nos como se deu o processo de criação, produção e impacto deste lançamento.
Sérgio “Baloff” Borges: Com a saída de Eduardo Falsão no final de 1989, eu fui a escolha mais natural para substituí-lo, não apenas por ser a pessoa mais próxima à banda, que já conhecia as músicas e até as letras “de cor e salteado” e que até já arriscava alguns berros no microfone nos intervalos entre os ensaios divididos com o ThrashMassacre na casa de Iaçanã, mas até mesmo porque não havia muita opção por aqui naquela época (risos!). Antes de assumir o posto de vocalista no HEADHUNTER D.C., eu cheguei a cantar no ThrashMassacre, substituindo Paulo Brasil (ex-Zona Abissal, No Flag, atual Nigrae Lunam) durante alguns ensaios, e participei de um de seus últimos shows, cantando em duas músicas, e foi assim que fui admitido na banda, sem audição; minha tarefa era tirar o repertório completo da época, que, além das músicas da demo, também contava com “Terrorists”, da primeira leva de composições da banda e que nunca chegou a ser gravada oficialmente, “Death Vomit” e “Disunited”, que ficaram de fora da demo, mas fariam parte do debut, e a primeira composição pós-demo “Hell is Here”, “Am I Crazy?”, que chegou a ser executada por Falsão em seus últimos ensaios. Após isso, vieram as primeiras então novas músicas que já soavam mais brutais, pesadas e devidamente deathmetalizadas, a exemplo de “Decomposed”, “Winds of Death”, “Beneath the Hate” e “Why Wars?”, todas representando o novo ciclo pelo qual a banda estava passando. A adaptação com o grupo também foi algo bem natural e rápido para mim, o que me proporcionou a criação de um estilo razoavelmente próprio, ainda que, obviamente, eu estivesse sob diferentes influências e referências, inclusive do próprio Falsão em alguns aspectos, como sua visceralidade no modo de berrar, que sempre me chamou muito a atenção. Existe uma gravação de ensaio posterior àquela promo de 1990 – minha primeira gravação com a banda, a propósito – com algumas músicas que fariam parte do “Born…Suffer…Die”, que rodou pelo circuito de tape-trading na época, que pode ser considerada como uma pré-produção do álbum, na qual algo do meu estilo de cantar que se ouviria no full-length já estava sendo moldado, porém a “forja” definitiva se deu mesmo durante as gravações do mesmo – lembrando que meus primeiros shows com a banda também foram provas de fogo para que eu, aos poucos, adquirisse certa identidade como vocalista. Estamos falando de 1990–1991, a cena extrema ainda estava em desenvolvimento; portanto, apesar das inúmeras gamas de influências, ainda usufruíamos de um bom “espaço” para criarmos algo que fosse o mais próprio possível – daí o motivo de que a maioria das bandas de hoje não possui tanta identidade como as de 30, 35 anos atrás. Com o contrato com a Cogumelo assinado, rumamos para Belo Horizonte um dia após abrirmos o show do Sepultura aqui em Salvador, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, para um público de aproximadamente duas mil pessoas, para gravarmos nosso tão sonhado álbum de estreia no lendário estúdio João Guimarães – ou simplesmente “JG”. Tudo ainda era muito novo para a gente e, apesar de alguma experiência adquirida na gravação da demo, foi normal uma certa apreensão por estarmos entrando em um estúdio maior, com mais recursos e onde foram registrados alguns dos maiores clássicos do Metal brasileiro. No final, acho que fizemos um excelente trabalho, levando em conta as circunstâncias do momento, principalmente pelo pouquíssimo tempo disponível que tivemos no estúdio. Não havia como termos feito algo mais visceral, mais violentamente orgânico e com sangue nos olhos que aquilo naquela ocasião! Quando o disco saiu, em agosto de 1991, muito nariz ainda era torcido para o que era feito do lado de cá do país em termos de Metal, então ele surgiu mesmo para quebrar tabus e servir como um verdadeiro divisor de águas para a cena do Norte/Nordeste, sendo, orgulhosamente, o primeiro registro vinílico de Death Metal ou Black Metal de ambas as regiões. Não aceitem pseudo-pioneirismos nesse sentido, “Born…Suffer…Die” is the real deal! (risos). O impacto causado pelo lançamento do álbum na época, com grande repercussão entre público e mídia especializada dentro e fora do Brasil, reflete-se claramente nos dias atuais, quando o mesmo ainda é constantemente lembrado, mais de 30 anos depois, como referência em termos de Death Metal brasileiro e sul-americano. Sempre que falo sobre o “Born…Suffer…Die”, me vem à cabeça o quão fudidamente incrível foi aquele ano de 1991 para o Death Metal, com tantos lançamentos seminais para o gênero – talvez o ano em que mais álbuns hoje reconhecidamente clássicos do estilo foram lançados, e isso nos faz mais do que honrados e orgulhosos por fazermos parte desse “hall da morte”. Alguns títulos? “Cursed”, “Blessed Are the Sick”, “Mental Funeral”, “Like an Ever Flowing Stream”, “Human”, “Dawn of Possession”, “Warmaster”, “Effigy of the Forgotten”, “The Ten Commandments”, “The Rack”, “Soulside Journey”, “Testimony of the Ancient”, “Of Darkness…”, “From Beyond”, “World Without God”, “Into the Grave”, “Where No Life Dwells”, “Considered Dead”, a lista é quase infindável…
The Ghost Writer Magazine: Em 1993, com a banda saindo da Bahia para se radicar em Belo Horizonte, foi lançado o segundo álbum “Punishment at Dawn”. O que você pode nos dizer sobre esse período de mudanças no grupo, bem como o processo de produção e lançamento deste material?
Sérgio “Baloff” Borges: “Punishment at Dawn” começou a ser escrito a partir da segunda metade de 1992, ainda com Iaçanã na banda. Naquela época, já tínhamos um segundo guitarrista na banda, Simon Matos (ex-Putrefaction, No Flag, Alcoholic Pigs), que entrou pouco tempo depois do lançamento do “Born…Suffer…Die”, quando sentimos a necessidade de uma segunda guitarra para dar mais peso às músicas, principalmente nas situações ao vivo. Lembro que chegamos a ensaiar e, se me recordo bem, tocar “Forgotten Existence” ao vivo com essa formação – essa que foi a primeira música desse novo material a ser escrita. Com a saída de Iaçanã e a entrada de Túlio Constantin (cuja escrita correta do sobrenome é “Costantin”, mas que acabou digitado errado no “Punishment at Dawn”, ficando assim até mesmo nos relançamentos em CD… ex-Túmulo de Ferro, Calvary Death), mergulhamos de cabeça nas novas composições, cujo processo foi até bem rápido, tendo quase que sua totalidade sido escrita por Ualson Martins (letras e músicas), enquanto que apenas duas faixas, “Hallucinations” e “Searching for Rottenness” (essa última, música e letra), foram compostas por Paulo Lisboa. No álbum, apenas uma letra é assinada por mim, em parceria com Beelzeebubth, do Mystifier, “Deadly Sins of the Soul”, a partir da qual eu passaria a ser o principal letrista da banda dali em diante. No início de 1993, resolvemos passar uma temporada em Belo Horizonte que duraria quase o ano inteiro, com o propósito de estarmos mais próximos da gravadora, gravarmos o novo álbum, fazermos shows pelo Sudeste, enfim, conquistarmos novos horizontes, espalhando nosso trabalho de forma mais abrangente. Chegamos a BH com o álbum praticamente todo escrito, mas alguns últimos arranjos foram criados após a nossa chegada, tendo o mesmo sido totalmente finalizado já na capital mineira – grandes memórias dos ensaios no Rone Stone Estúdio! Gravamos “Punishment at Dawn” em junho de 1993, desta vez no 108 Studio, sob engenharia de som de Tarso Senra, que também já era bastante conhecido pelos seus trabalhos com outras bandas mineiras, inclusive com o Sepultura. Dessa vez, tivemos um budget um pouco maior que no álbum anterior, o que nos rendeu algumas horas de estúdio a mais, mas que acabou não adiantando muita coisa devido a problemas técnicos na gravação da bateria, então, mais uma vez, tivemos que tirar sangue de pedra dentro do prazo que nos foi disponibilizado. No final das contas, ficamos bem satisfeitos com o resultado final do disco, apesar dos problemas já citados. Com um esquema promocional já mais abrangente por parte da gravadora, o álbum foi lançado em setembro, inclusive sendo distribuído oficialmente na Europa pelo selo holandês Black Water, rendendo uma ótima difusão do mesmo lá fora. Musicalmente falando, “Punishment at Dawn” soa mais maduro, mais denso, pesado e brutal que o debut, refletindo bastante nossas influências vindas do Death Metal europeu da época, via bandas como Unleashed, Dismember, Morgoth, Grave, Merciless, Carcass (“Symphonies…” era), mas ainda bebendo bastante na fonte dos mestres americanos Possessed, Death, Morbid Angel e Immolation – sem deixar de mencionar, é claro, outra grande influência nossa, brasileira e também pioneiríssima do Metal da Morte: o Sepultura do início. Esse, digamos, enriquecimento estrutural nas composições da banda se vê também nos textos mais introspectivos e ainda mais fincados nas tradições do Death Metal, lidando com diferentes aspectos da morte, distúrbios da mente humana desencadeando loucura, assassinatos e sacrifícios cerimoniais, até os posicionamentos anticristãos e antirreligiosos em geral que permeiam nossa arte até hoje. Em 2023, o álbum completará 30 anos de lançado e, desde já, estou em conversas com a Cogumelo para disponibilizarmos aos fãs um relançamento à altura de sua rica história.
The Ghost Writer Magazine: A turnê de “Punishment at Dawn” rendeu um show antológico, que posteriormente recebeu versões em tape, lançada apenas na França, e, anos mais tarde, em CD, lançada pela Eternal Hatred Records. Quais lembranças você carrega desse show em específico?
Sérgio “Baloff” Borges: O Midnight Festival aconteceu no dia 09/06/1995, em Itabuna, Bahia, e foi um dos shows mais memoráveis que fizemos promovendo o “Punishment at Dawn”. O evento foi produzido por Thiago Nogueira, então baterista do Scrupulous e que, anos mais tarde, se tornaria baterista do HEADHUNTER D.C., e contou também com o Mordeth, de São Paulo, e o próprio Scrupulous como banda de abertura. Naquela ocasião, já havíamos passado por outra mudança de lineup, com André Moysés (ex-Sepulchral, Mercy Killing) e Alberto Alpire (ex-Kaddish, Obliteration) substituindo Tulio e Ualson, respectivamente. Nós vínhamos de dois ou três shows na cidade nos anos anteriores, então já tínhamos uma considerável base de fãs por lá. Como a estrutura do evento era muito boa para aquela época, resolvi deixar uma fita Basf virgem com o técnico de som e pedi para ele gravar o show diretamente da mesa, sem muitas expectativas. A gravação ficou até muito boa para os padrões da época e rodou bastante no circuito de tape-trading, até que, em 2001, meu amigo francês Hugues “Karnage” Vallot, do antológico Eternal Fire Zine, nos fez a proposta de lançamento em tape pelo seu Eternal Fire Tapes Series, limitadíssimo em apenas 100 cópias numeradas à mão, que se esgotaram em muito pouco tempo. Hoje, trata-se de um item raríssimo, muito disputado entre os fãs die hard da banda. Falando do show em si, uma das coisas que nos chamaram a atenção, além da já citada estrutura, foi o grande público presente naquela noite. Se me lembro bem, segundo a produção, foram entre 500 e 600 ingressos vendidos, com um público total de aproximadamente setecentas pessoas. Isso, em 1995, em um show de Death Metal underground em uma cidade do interior baiano, era um puta feito! Nosso set foi baseado nos dois álbuns lançados até aquele momento e incluiu também o cover de “Buried Alive”, do Venom. O público estava insano durante nossa apresentação, berrando e agitando o tempo todo, entre ele, nossos irmãos grindmaníacos do Second Face. Há ainda uma filmagem em VHS que, infelizmente, foi cortada no meio do set, provavelmente porque acabou a bateria da câmera ou algo assim. No final do show, corpos de maníacos bêbados jaziam pelo chão, entre latas de cerveja, garrafas de vinho e poças de vômito, nada mais usual… Em tempo: na versão em CD, via Eternal Hatred Records, há duas faixas a mais em relação à versão em cassete: “Am I Crazy (cut off)”, que aparece finalizada em fade out porque o lado A da fita acabou antes do fim da música (isso era sempre uma loteria… – risos!), e um solo providencial do baterista André Moysés, que acontecia enquanto eu vomitava atrás do palco… – maionese fudida!!!!!! (muitos risos!)
The Ghost Writer Magazine: “…And the Sky Turns to Black… (the dark age has come)” foi lançado sete anos mais tarde que o seu predecessor. Por qual razão existiu tamanha demora para o HEADHUNTER D.C. lançar um novo trabalho no cenário? Lembro de ter assistido a vários shows desta turnê, e acredito que, até então, este tenha sido o ápice criativo da banda. Quais os pontos mais marcantes desta fase? Você também corrobora que este disco tenha sido o mais bem produzido até aqui
Sérgio “Baloff” Borges: Essa, na verdade, é uma pergunta bastante recorrente em nossas entrevistas, assim como é sobre o hiato entre o “…And the Sky Turns to Black… (the dark age has come)” e o “God’s Spreading Cancer…”, entre este e o “…In Unholy Mourning…” e assim também será sobre mais essa longa demora entre o “…In Unholy Mourning…” e o próximo álbum, e isso é algo de que não podemos fugir, pois é algo real, ainda que independa totalmente de minha vontade. No caso do “…And the Sky…”, nem foi tanto pelas mudanças de formação que, obviamente, implicam em um certo atraso no desenvolvimento de uma banda e na produção de seus materiais (lembrem-se de que, entre o “Punishment…” e o “…And the Sky…”, trocamos de baixista e baterista duas vezes e uma vez de guitarrista), mas principalmente pelo longo impasse que enfrentamos com a Cogumelo sobre o lançamento do terceiro álbum de nosso contrato com o selo, o que, como todos sabem, acabou não acontecendo. Apesar dos longos sete anos entre um lançamento e outro, nos mantivemos extremamente ativos na cena, principalmente em termos de shows pelo Brasil. Nesse ínterim, participamos do tributo ao Dorsal Atlântica, “Omnisciens”, e lançamos uma promo de três faixas simplesmente intitulada “Promo Tape ’96”, que serviu como uma forma de mostrarmos à cena algo de nosso material atual e o que todos poderiam esperar de nossa próxima oferenda de brutalidade profana. Essa promo acabou servindo também como uma espécie de pré-produção do álbum seguinte, ainda que apenas duas de suas músicas, a faixa-título e “Falling in Perdition”, viessem a fazer parte da tracklist do “…And the Sky…” – a outra faixa, “Contemplation (to the fire)”, só estaria em nosso quarto álbum, “God’s Spreading Cancer…”. Eu concordo plenamente que, até então, esse foi o ápice da banda em termos de criatividade. Lembro-me do dia em que fui à casa de Paulo Lisboa e ele me mostrou os riffs da música “…And the Sky Turns to Black…”, que ele acabara de compor, e eu fiquei simplesmente maravilhado. Ainda era o esqueleto da música, mas tudo soava tão mais brutal, grotesco, obscuro, opressivo, mas, ao mesmo tempo, elegantemente mórbido do que tudo o que já tínhamos feito até então. Ao ouvir aqueles riffs, eu sabia que tinha que escrever algo à altura daquela cerimônia negra de rifferamas bestiais (falei agora à la Rock Brigade antiga… – risos!), para que a música servisse de moldura para a letra e vice-versa, e assim foi feito durante todo o processo de composição do álbum. O mesmo aconteceu quando Paulo me mostrou o esboço de “Conflicts of the Dark and Light” pela primeira vez. Tive uma espécie de êxtase letárgico quando ouvi aquelas estruturas taciturnas, um sentimento tão down que acabei voltando para casa meio deprimido… (muitos risos!). Recentemente, respondi a uma entrevista que virá no booklet que acompanhará a vindoura versão do álbum em vinil preto, via Crypts of Eternity Prods., do Peru, onde falo que parecia que eu e Paulo Lisboa estávamos em um mútuo estado de profunda morbidez pessoal quando compusemos o “…And the Sky…”, aliado a muita birita e frequentes sessões de total headbanging, então acho que esse “casamento obscuro” foi muito bem-sucedido. A gravação do álbum também foi essencial nesse processo para alcançarmos a vibe e a ambiência que queríamos com aquele material. De fato, entramos no estúdio Periferia (um dos melhores daqui naquela época, no qual, inclusive, também foi gravado o “The World is so Good…” do Mystifier) com o objetivo de gravarmos nosso álbum mais pesado até então, e assim o foi – o fato de ter sido o nosso primeiro álbum com a afinação em dó já foi um ponto positivo para atingirmos esse objetivo, sem mencionar que abusamos, propositalmente, dos graves dessa vez. Trata-se de um álbum muito bem gravado, mas no qual, “para variar”, acabamos tendo alguns pequenos problemas técnicos, dessa vez com a mixagem, o que acabou se tornando uma vantagem para nós, já que, muito provavelmente, se tivéssemos alcançado uma gravação mais cristalina, com certeza não teríamos a “sujeira” necessária para que o álbum soasse como ele é, e aí o clima mórbido e soturno que tanto queríamos estaria comprometido. Bom para a gente!
The Ghost Writer Magazine: Durante a trajetória do grupo, até chegarmos em “…And the Sky Turns to Black… (the dark age has come)”, houve várias trocas de formação. Aliás, apenas você, Sérgio Baloff (vocalista), e Paulo Lisboa (guitarrista) permaneceram firmes no projeto. A que você atribui tantas trocas de músicos no seu lineup? Qual a relação que você mantém com os antigos membros do HEADHUNTER D.C.?
Sérgio “Baloff” Borges: É muito difícil entender a mente humana. Quero dizer, um dia o cara entra na banda com sangue nos olhos, superinteressado, determinado, querendo produzir, somar, e, no outro, perde totalmente o interesse, o foco, passa a fazer as coisas com má vontade, inércia, até que um dia diz, do nada, que vai sair – isso quando a banda não toma essa iniciativa antes. Certa vez, um amigo me falou que “a camisa da banda pesa” em algumas pessoas, que nem todo mundo é capaz de aguentar o peso da responsabilidade de se tocar em uma banda como o HEADHUNTER D.C., o que eu até concordo em parte, já que nem todo mundo está realmente habilitado para tocar em uma banda sempre capaz de alçar voos mais altos – e nem estou falando da qualidade da banda e do talento do músico aqui –, e isso independe da relação de responsabilidade com família, casamento, filhos e/ou com seus outros compromissos profissionais, e é por isso, também, que muita banda de qualidade tende a encerrar precocemente suas atividades ou se limita a desenvolver seu trabalho apenas dentro de suas fronteiras – geograficamente falando mesmo. Eu já fui taxado algumas vezes, a exemplo de outros “líderes” de bandas (odeio essa palavra, mas a usarei aqui por encaixar-se no contexto), de “difícil na convivência”, “cabeça-dura”, “ditador” (mesmo que não diretamente a mim) e até “egoísta”, como se alguém que está sempre primando pelo bem comum de um grupo, e não dele individualmente, pudesse ser chamado assim. Nada mais injusto. Hoje eu sei bem o que caras como Chuck Schuldiner (ex-Death) e John McEntee (Incantation), para citar apenas dois, passaram e ainda passam por lutarem por uma causa e quererem sempre o melhor para as suas respectivas bandas, o que me leva a reiterar aqui que é mesmo muito complicado compreender a cabeça e o comportamento humano, e ainda mais difícil lidar com o mesmo; portanto, algumas pessoas precisam aprender a assumir sua incapacidade com relação a certas coisas, ao invés de estarem sempre querendo justificá-la criando bodes expiatórios para suas falhas. Ninguém é obrigado a tocar em uma banda na qual não se tem prazer em tocar, ou cujas metas, modo de trabalho, música ou até mesmo ideologia não o agradam, então, nesse caso, é melhor mesmo partir para outra e não atrasar o desenvolvimento do trabalho dessa banda. Isso não quer dizer que todas as trocas de formação no HEADHUNTER D.C. se deram exclusivamente por esses motivos; em alguns casos, realmente houve fatores de cunho pessoal que os impediram de continuar conosco, enquanto que, em outros, realmente não havia mais clima para as suas permanências, e, em outros ainda, até hoje não sabemos exatamente o motivo… (risos!) Felizmente, eu tenho um ótimo relacionamento com a maioria dos ex-membros da banda, ainda que eu não tenha mais tanta frequência no contato com alguns, enquanto que, com outros, o contato não acontece por decisão deles próprios, mas, para mim, está tudo bem, sempre. “Quando um não quer…”.
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