Eu aprendi desde muito cedo que a competição por espaço pode ser algo predatório, ainda mais quando nos lembramos da hegemonia que o Angra exercia no mercado nacional, antes mesmo de a internet sequer existir nos anos 1990. Surgido em uma época na qual seus conterrâneos já ostentavam relativo prestígio no Japão, o WIZARDS foi conquistando território pelas beiradas com seu álbum homônimo em 1995, marcado por uma latente veia progressiva e pela voz vigorosa do então jovem cantor Christian Passos. A japonesa JVC Victor abraçou a causa, mas isso não foi suficiente para alçar o grupo ao estrelato, como muitos esperavam diante da sólida base de fãs que começava a se formar. Ao incorporar elementos de Power Metal e Hard Rock à sua sonoridade, o plantel encontrou diferentes caminhos para desenvolver sua identidade e, diante das dificuldades, resolveu dar um belo dedo do meio às tais adversidades, seguindo sua trajetória com uma sequência de belíssimos lançamentos. Entre eles está o recente single “Magic Moment”, que antecipa o próximo full-length, “Glorious”. A equipe da The Ghost Writer Magazine conversou com Christian para que ele pudesse nos detalhar diversos aspectos que permearam a longa trajetória do WIZARDS, além de abordar alguns pontos diretamente relacionados ao futuro da banda paulista.
The Ghost Writer Magazine: É com grande satisfação que iniciamos este bate-papo com você, Christian Passos. Muito obrigado pelo tempo cedido à equipe da The Ghost Writer Magazine. Como estão as coisas atualmente? O que você poderia nos relatar sobre as atividades do WIZARDS após o lançamento do excelente “Seven” (2022)?
Christian Passos: Eu que agradeço a vocês da The Ghost Writer Magazine por sempre apoiarem o WIZARDS e o Heavy Metal em geral! “Seven” foi muito bem recebido, e ficamos muito orgulhosos por mais um álbum que vai ficar marcado na nossa história. Nós fizemos alguns shows muito legais, destacando o Abril Pro Rock, no Recife, que gravamos e está disponível no YouTube. O show da volta aos palcos, depois de muitos anos, no Legend, em São Paulo, foi algo mágico, e o Metal Relics Fest, no Manifesto, também foi excelente! Nunca imaginávamos que iríamos voltar, mas valeu muito a pena, e a Metal Relics tem grande participação nisso.
The Ghost Writer Magazine: O lançamento do single “Magic Moment” pegou toda a nossa redação de surpresa. Esperamos sinceramente que ele marque o início de um novo álbum da banda. O que os fãs do WIZARDS podem esperar para este ano de 2026?
Christian Passos: “Magic Moment” foi uma grande surpresa para nós mesmos! Estávamos um pouco distantes do Power Metal com “Seven“, que é mais Hard/Metal, e acabamos desviando do caminho e fomos flertar novamente com o Power Metal. É uma música que empolgou nossos fãs e, literalmente, é o início do nosso novo álbum, chamado “Glorious”, que lançaremos ainda este ano.
The Ghost Writer Magazine: “Magic Moment” apresenta o WIZARDS em excelente forma e, particularmente, a faixa me remeteu bastante ao clássico “The Kingdom” (2002). Em outras palavras, a banda parece reforçar novamente sua veia voltada ao Power Metal Melódico. Essa percepção faz sentido para você?
Christian Passos: Faz muito sentido, sim! Temos algumas faixas de Power Metal no novo álbum! Para quem gosta de “The Kingdom”, haverá boas referências, mas o álbum também traz algumas músicas que remetem ao restante da nossa discografia.
The Ghost Writer Magazine: Consideramos excelente a escolha de Tito Falaschi para assinar a produção da canção. Como foi a experiência de trabalhar com ele? Como transcorreu todo o processo de gravação da faixa em estúdio?
Christian Passos: O Tito é um excelente músico, cantor, compositor e produtor! Nós nos entendemos muito bem, pois temos gostos parecidos. Damos muito valor ao feeling e às melodias bonitas, além de não darmos muita importância a encher as músicas com muitas demonstrações técnicas ou à tradicional encheção de linguiça! Então, na maioria das vezes, entramos sempre em acordo! Foi ótimo trabalhar com ele mais uma vez, e o recomendo muito para quem quer ter um trabalho de alto nível!
The Ghost Writer Magazine: Um aspecto que sempre chamou atenção na discografia do WIZARDS é o dinamismo das composições, que raramente ultrapassam os três minutos e meio de duração. Essa característica surgiu naturalmente ao longo da trajetória da banda ou existe uma preocupação interna em manter esse formato de maneira mais rigorosa?
Christian Passos: Não existe essa preocupação! É mais uma predileção. Nosso primeiro CD tem músicas longas! É bem progressivo! Já em “Sound of Life”, quando fomos para o Hard/Metal, isso nos levou para outro caminho. Depois veio “The Kingdom”, que é bem mais Power Metal e já aumentou a duração das músicas. “The Black Knight” também, por ser mais sinfônico, seguiu essa tendência. Já em “Seven”, voltamos para o Hard/Metal, sendo mais sucintos e diretos! “Glorious” segue essa ideia certeira e direta ao ponto, mesmo sendo mais Power Metal!
The Ghost Writer Magazine: O WIZARDS sempre transitou pelo Power Metal, mas a sonoridade do grupo é tão diversificada que considero difícil encaixá-lo em um único segmento. Indo mais a fundo, percebo inclusive mais elementos de Hard Rock do que propriamente de um Power Metal tradicional. Você concorda com essa leitura? Caso precisasse definir o som do WIZARDS dentro de uma única proposta, como o descreveria e por quê?
Christian Passos: Realmente, você tem razão! Nós temos uma mistura grande de influências, o que faz com que mudemos conforme o álbum. O Power Metal, o Hard Rock, o Progressivo, o Heavy Metal clássico e o Metal Sinfônico fazem parte das nossas influências. É muito difícil definir o som do WIZARDS, o que talvez não seja bom, mercadologicamente falando, mas não pensamos muito nisso. Então, acabamos fazendo músicas de várias vertentes do Metal! Somos definidos como uma banda de Power Metal, então aceitamos isso sem problema, pois é um estilo que nos moldou desde o começo.
The Ghost Writer Magazine: A arte da capa de “Magic Moment” é belíssima, mas infelizmente não encontramos informações sobre sua autoria. Quem foi o responsável pela imagem e qual conceito vocês buscaram transmitir através dela?
Christian Passos: Eu criei a ideia da capa desse single, com nós representados pelo Mago, entregando uma nova magia — a música — através de sua bola de cristal aos nossos fãs! Não há momento mais mágico do que este para nós! Quem nos ajudou nos singles e na capa do novo álbum foi o nosso artista Alcides Burn, que já trabalha com a gente desde “The Black Knight”.
The Ghost Writer Magazine: Sinceramente, gostaria de ver o WIZARDS mais ativo nos palcos, mas isso ainda não tem acontecido com frequência. Os fãs podem esperar mais apresentações dessa nova formação?
Christian Passos: Sim! Parece que está próxima a nossa volta aos palcos! Estamos trabalhando nisso e devemos ter novidades em breve! Seria muito bom ter um novo contato ao vivo com nossos fãs!
The Ghost Writer Magazine: Particularmente, seria uma grande satisfação reencontrar a banda pelos palcos do Brasil. No passado, ainda durante os anos 1990, o WIZARDS era frequentemente apontado como a principal banda brasileira capaz de rivalizar com a hegemonia do Angra dentro do Power Metal nacional. Acompanhei o surgimento de vocês de perto e fiquei bastante surpreso quando aquela ascensão internacional esperada, especialmente no Japão, acabou não acontecendo da maneira imaginada. Olhando para trás, como você analisa aquele período hoje?
Christian Passos: Nós realizamos alguns sonhos! Lançamos nossos CDs no Japão e na Europa e fomos muito bem com nosso primeiro álbum internacionalmente! No segundo CD, tivemos músicas nas rádios, fizemos muitos programas de TV e muitos shows! Mas você tem razão! Poderíamos ter ido muito mais longe! Foram vários motivos! Não tivemos bons empresários. Tínhamos uma imagem diferente do que o Heavy Metal pedia na época. Nossa gestão precisaria ter sido profissional! Pensávamos só em fazer música, shows e nos divertir, mas não é assim que funciona! Uma banda, para crescer e se manter, tem que ser tratada como uma empresa!
The Ghost Writer Magazine: Quando “Sound of Life” foi lançado, em 1996, fiquei extremamente surpreso, pois o álbum apresentava diferenças marcantes em relação ao trabalho anterior. Inclusive, havia elementos mais acessíveis e melódicos nas composições, algo que causou certa estranheza em parte dos fãs na época. Você se recorda dos motivos que levaram o WIZARDS a seguir por um caminho tão particular naquele disco?
Christian Passos: Sim! Nós tínhamos uma percepção errada de que, com nosso primeiro CD, venderíamos muito e já faríamos um grande sucesso. Quando vieram os resultados, que foram ótimos para uma banda estreante, nos decepcionamos um pouco, equivocadamente, pois os japoneses falaram para nós que nossos números eram ótimos! Comecei a fazer algumas músicas mais diretas e acessíveis, como você disse. Para o Brasil, foi perfeito, pois deu muito certo e realizamos vários sonhos. Mas, no Japão, não funcionou tão bem, pois eles tinham gostado muito do primeiro álbum e estranharam um pouco a mudança.
The Ghost Writer Magazine: Christian, aqui vai uma pergunta mais pessoal. Quais cuidados você mantém com a sua voz para, após tantos anos, ainda manter um desempenho vocal em nível tão elevado, especialmente executando linhas vocais tão exigentes? Fiquei bastante impressionado ao perceber pouquíssimas diferenças entre o Christian de 2026 e aquele dos anos 1990.
Christian Passos: Não tenho muitos cuidados com a voz, mas também não abuso dela! Minha voz está bem preservada, pois eu não fiz muitas turnês como outros cantores que sofreram com turnês longas. Não fumo e bebo pouco! O pior, para mim, é a alimentação, pois como muitas coisas que não ajudam na hora de cantar ou que podem contribuir para o refluxo, como café, refrigerante, queijo e chocolate. Preciso dar uma segurada nisso! Mas minha voz mudou um pouco, sim! Está mais grave e encorpada, porém aqueles agudos estratosféricos da época de jovem ficaram no passado! E também dei uma cansada dos gritos de gralha (risos gerais)! Estou cantando com mais classe e menos desespero (mais risos). E muito obrigado pelos elogios!
The Ghost Writer Magazine: Sou um grande admirador do trabalho do guitarrista Léo Mancini (Spektra, ex-Shaman), e é muito gratificante ver que ele permanece ao seu lado desde “The Black Knight” (2010). Como é compartilhar o processo criativo com um músico tão talentoso e competente? De que maneira você resumiria esses 16 anos de parceria com Mancini?
Christian Passos: O Léo é genial! Muita técnica e muito bom gosto! Além de ser um cara muito legal! Foi o cara perfeito para substituir outro gênio, que era o Kadu! O sonho seria juntar os dois na banda! Aí seria covardia (risos)! O Léo, além de tocar as músicas antigas com perfeição, trouxe um estilo diferente para os novos CDs! Isso motiva, por ser uma experiência tão boa quanto a que tínhamos com o Kadu, porém diferente! Estamos muito felizes em ter um cara tão talentoso e gente boa como o Léo no WIZARDS!
The Ghost Writer Magazine: Como você enxerga o atual mercado fonográfico brasileiro? Sinceramente, você acredita que ainda existe espaço para bandas que proponham uma sonoridade semelhante à do WIZARDS?
Christian Passos: Sinceramente? Não (risos). Mas a música é cíclica e está sempre mudando, e o WIZARDS também! Quem sabe um dia o som que o WIZARDS estiver fazendo bata com o que o mercado quer.
The Ghost Writer Magazine: Christian, foi uma enorme satisfação poder realizar esta conversa com você. Ouvir um músico com a sua bagagem e trajetória é sempre algo enriquecedor para qualquer admirador de Heavy Metal. Em nome de toda a equipe da The Ghost Writer Magazine, agradecemos imensamente pela atenção e disponibilidade. Para encerrarmos, deixamos este espaço aberto para as suas considerações.
Christian Passos: Eu que agradeço demais os elogios e o apoio de vocês! Fico muito feliz que acompanham e gostam do WIZARDS! Muito obrigado a vocês, aos nossos fãs e a todo o seu público, que convido a conhecer o nosso som!
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