O ano era 2019, e a humanidade estava para viver um dos maiores dramas da sua história. Os primeiros casos de COVID-19 foram identificados em dezembro, na cidade de Wuhan, China, mas foi apenas em 11 de março de 2020 que a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a situação como pandemia global. Muita coisa precisou ser adaptada à nova situação para que o problema fosse solucionado com o menor número possível de perdas de vidas, e uma das medidas foi o isolamento social quase integral.
Com as limitações impostas pelas novas regras sanitárias, uma delas afetou diretamente o mercado cultural como o conhecemos, forçando produtores de eventos a paralisar integralmente as suas atividades, deixando, assim, a totalidade dos seus artistas sem a sua principal fonte de renda: as apresentações ao vivo. O cenário era desolador e caótico, mas, diante desse quadro, alguma alternativa precisava ser criada para a monetização de toda uma classe, além de tentar suprir a carência das pessoas que estavam literalmente presas em suas residências. Foi então que o formato de “lives” transmitidas pelas redes sociais foi criado e espalhado pelos quatro cantos do planeta.
Não existe um consenso na internet sobre qual foi a primeira live musical veiculada, porque muitos músicos independentes começaram a fazer transmissões caseiras logo no início do isolamento, em março de 2020. Entretanto, no Brasil, podemos afirmar que o personagem mais associado ao início do fenômeno das grandes lives é o cantor sertanejo Gusttavo Lima. Sua transmissão “Buteco em Casa”, realizada em 28 de março de 2020, é frequentemente apontada como a live que popularizou o formato no país durante a pandemia. Alguém precisava dar o pontapé inicial no nosso país, não é verdade?
No que se refere ao Metal, não podemos deixar de registrar que o Metallica lançou a série “Metallica Mondays” em março de 2020, transmitindo shows completos gratuitamente no YouTube durante a quarentena. Acredito que tenha sido a partir daí que, dentro da nossa esfera, as portas se abriram para essa nova oportunidade surgida, que teve continuidade com vários nomes de peso seguindo o mesmo padrão estético e que ajudaram a manter o mercado sobrevivendo, ainda que por meio de aparelhos de uma UTI.
Outro protagonista dentro dessa equação foi o Trivium, que ajudou de maneira contundente na popularização da ferramenta no Metal, especialmente por meio das constantes aparições de Matt Heafy na Twitch e do evento “A Light or a Distant Mirror”, em julho de 2020. Já na parte mais extrema do estilo, precisamos citar a polonesa Behemoth, que registrou “In Absentia Dei”, uma transmissão cinematográfica gravada em uma igreja abandonada no seu país natal, considerada uma das lives mais ambiciosas visualmente do período. Ou seja, o leque de opções se abria, mesmo com a falta de calor humano que apenas eventos presenciais podem nos oferecer.
No Brasil, alguns exemplos foram importantes para a fundamentação dessa tendência, mas nada supera o que o projeto “SepulQuarta”, do Sepultura, conseguiu. O produto reuniu entrevistas, jams e performances remotas com músicos do mundo inteiro. Tornou-se uma das iniciativas brasileiras mais relevantes do Metal no período pandêmico, resultando, inclusive, em um álbum especial que contou com ícones da importância de Dee Snider (Twisted Sister), Scott Ian (Anthrax), David Ellefson (Megadeth), Myles Kennedy (Alter Bridge), do saudoso Phil Campbell (Motörhead), Alex Skolnick (Testament) e muitos outros.
Como o já mencionado “SepulQuarta”, da turma do guitarrista Andreas Kisser, diversos materiais acabaram sendo disponibilizados com os mais variados conteúdos extraídos dessas lives. Um verdadeiro novo mercado nasceu, algo similar ao efeito causado por uma flor de lótus em seu habitat natural. A britânica Paradise Lost é um excelente exemplo com o seu CD/DVD “At the Mill”, ao entregar uma experiência audiovisual densa, marcante e que reuniu, em um único pacote, alguns dos principais clássicos da sua longeva carreira. E não menos importante foi a finlandesa Nightwish com o seu “An Evening With Nightwish In A Virtual World”! Inserida em uma das roupagens mais ambiciosas do Metal durante a pandemia de COVID-19, a iniciativa marcou oficialmente o início da turnê do álbum “Human. :II: Nature”, ao criar um ambiente virtual chamado “The Islanders Arms”, que nada mais era do que uma espécie de taverna fantástica construída em 3D dentro de um universo digital interativo. Realmente, lindo de ver!
O caráter beneficente das lives é algo que também precisa ser explicitado, já que o número de desempregados aumentou exponencialmente desde o início da pandemia. A sensação de urgência foi o estopim para que as transmissões direcionassem os seus respectivos alcances em renda para os mais necessitados de auxílio. E, novamente, o Metallica tomou a dianteira, encabeçando a turma dos mais relevantes canais de arrecadação com a sua “Helping Hands Concert & Auction”, que angariou mais de US$ 1,3 milhão para a fundação All Within My Hands. Gigantesco, para dizer o mínimo.
O Metal como um todo, e não apenas gigantes como Metallica e Sepultura, também encontrou uma nova forma de ativismo cultural. Durante a crise pandêmica, muitas lives deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a funcionar como campanhas solidárias, apoio a equipes técnicas, arrecadação para hospitais, suporte a road crews e pequenos venues, além do financiamento coletivo da própria cena underground para a manutenção da sua sobrevivência. Inclusive, não foram poucas as pesquisas acadêmicas que apontaram que as transmissões fortaleceram o senso de comunidade e estimularam campanhas de apoio mútuo entre músicos e fãs.
Argumentos não faltam para fundamentar que o surgimento da cultura de lives tenha sido de vital importância para a sobrevivência não apenas de um cenário musical alternativo, mas também de famílias inteiras que precisavam de assistência básica prioritária. Felizmente, em 2026, todo o mal causado pela COVID-19 já está sob controle, ainda que algumas cicatrizes teimem em produzir lembranças dos que aqui ficaram. Mas e o Heavy Metal? Como passou a ser visto pela sociedade? Esta não é uma das perguntas mais fáceis de serem respondidas, mas quem estava no front sabe da sua contribuição para a vida de milhares de pessoas.
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