Os primeiros passos da VULTHUM se deram em 2019, na cidade paulista de Mogi das Cruzes, quando dois membros do Mythological Cold Towers optaram por se aventurar no Black Metal, deixando um pouco de lado o Doom Metal que os projetou na cena. O guitarrista Shammash e o vocalista Samej já trabalham juntos há muitos anos; talvez por isso, mesmo partindo para um estilo tão extremo, tenham lançado álbuns bem estruturados e lapidados, como é o caso de “The Tyrant Tale” (2025). Disponibilizado pela Drakkar Productions (South American Division) no Brasil, o trabalho traz consigo um tema intrigante, texturas primitivas e tudo isso envolto no que existe de melhor da segunda onda do Black Metal, surgida nos anos 1990. Fomos atendidos por Shammash, que não poupou palavras para descrever o quão satisfeito está com esta nova etapa da sua carreira.
The Ghost Writer Magazine: Como vai Shammash?! É uma enorme satisfação tê-lo no nosso portal para um bate-papo sobre a VULTHUM, que acabou de lançar o seu segundo álbum “The Tyrant Tale” pela Drakkar Productions (South American Division). Como o disco vem sendo recebido até o momento?
Shammash: Saudações. É um prazer participar desta conversa. O lançamento de “The Tyrant Tale” tem despertado reações intensas e profundas. Não é um álbum feito para todos — e nem deveria ser. Ele exige entrega, introspecção e um olhar além do véu. Aqueles que se permitem atravessar suas muralhas compreendem o espírito que o habita: uma jornada de tirania, miséria e glória profana. Até agora, as respostas têm sido sinceras e poderosas, vindas de quem entende a essência obscura do VULTHUM.
The Ghost Writer Magazine: Bem diferente da proposta artística do Mythological Cold Towers, a VULTHUM segue um direcionamento voltado para o Black Metal, com estética bem próxima do que foi difundido pela segunda onda do estilo, nos idos anos 1990. Por qual razão vocês resolveram seguir por este caminho?
Shammash: O VULTHUM nasceu da necessidade de preservar a chama original do Black Metal — aquela que arde fria, distante e impiedosa. Não há intenção de reinventar o que já é perfeito em sua essência, mas, sim, de dar continuidade a uma tradição que nos formou espiritualmente. A proposta não é nostalgia, e sim reverência. O som e a estética da segunda onda representam um portal, uma linguagem pura de escuridão e transcendência, e foi por esse caminho que escolhemos caminhar — não por conveniência, mas por devoção.
The Ghost Writer Magazine: “The Tyrant Tale” é um material que vai direto ao ponto, com pouco mais de trinta minutos de duração. Como se deu o seu processo de composição? Existiu alguma diferença nesse sentido, se compararmos com o debut “Shadowvoid” (2021)?
Shammash: Sim, houve diferenças notáveis. “The Tyrant Tale” nasceu de forma mais coesa e instintiva. Cada música foi concebida como parte de um único ciclo, sustentada por uma atmosfera de opressão e grandiosidade sombria. Não havia espaço para excessos — apenas o essencial, o que realmente servia à narrativa. Enquanto “Shadowvoid” refletia a gênese do VULTHUM, ainda envolto em experimentações e visões distintas, “The Tyrant Tale” representa a consolidação da essência. A composição foi mais direta, porém mais madura, guiada pela própria história do álbum. As músicas fluíram naturalmente, como se já existissem em algum plano obscuro, aguardando apenas serem reveladas.
The Ghost Writer Magazine: A proposta da capa de “The Tyrant Tale”, composta por Rodrigo Bueno, se aproximou bastante dos principais títulos do Hellhammer, concorda?! Foi justamente este o objetivo, já que “Shadowvoid” também segue pelo mesmo caminho?
Shammash: De certa forma, sim. A ideia nunca foi reproduzir algo, mas capturar o mesmo espírito bruto e primitivo que habitava aquelas antigas obras. A arte de “The Tyrant Tale” segue essa linha por essência — não por imitação, mas por afinidade espiritual. Rodrigo Bueno compreendeu perfeitamente o conceito: um retorno à forma mais crua e simbólica da escuridão, como nos primórdios. A capa de “Shadowvoid” já trazia esse diálogo com o passado, e “The Tyrant Tale” mantém essa coerência visual, como se ambos os álbuns fossem capítulos de uma mesma escritura profana. É uma estética que comunica sem adornos, direta, quase ritualística — algo que sempre nos atraiu.
The Ghost Writer Magazine: “The Tyrant Tale” foi registrado em estúdios no Brasil e em Portugal, sob a condução do produtor Eric Cavalcante. Como se deu esse processo e como foi trabalhar ao lado de Eric?
Shammash: Foi um processo dividido por distâncias geográficas, mas unido por uma mesma visão. Parte das gravações aconteceu no Brasil, sob a supervisão direta de Eric Cavalcante, que já havia produzido “Shadowvoid” e compreende profundamente a essência do VULTHUM. Outras sessões ocorreram em Portugal, com o apoio técnico de Victor Próspero, mantendo a mesma atmosfera e coesão sonora. Trabalhar com Eric é sempre um exercício de confiança e precisão. Ele entende que o som do VULTHUM não deve soar limpo nem moderno demais — há uma alma antiga que precisa permanecer intacta. Sua produção é cirúrgica, mas respeitosa. Ele molda o caos sem diluir sua força.
The Ghost Writer Magazine: O conceito de “The Tyrant Tale” é bem interessante, por ser ambientado na Idade Média e focado em um personagem central que tem uma postura tirânica quanto ao povo que governa. Você poderia nos explanar o tema com maior riqueza de detalhes?
Shammash: “The Tyrant Tale” é uma alegoria sobre poder, decadência e ruína espiritual. A narrativa se passa em um tempo distante, mas o seu significado é atemporal. O tirano descrito nas letras é mais do que um homem — ele é a personificação da soberba e da vontade de domínio absoluto. Seu castelo representa o isolamento da alma corrompida, um templo de desespero onde a razão e a piedade foram banidas. Cada faixa revela um fragmento dessa ascensão e queda. Há sangue, fé distorcida, lamentos e glória profana. No fim, o tirano se confunde com o próprio caos que criou, aprisionado por suas próprias sombras. Não há redenção, apenas o eco de uma existência consumida pela tirania. É uma história que fala da humanidade, sob o disfarce de uma fábula medieval.
The Ghost Writer Magazine: A faixa “Hordes From Nocturnal Gates” é muito forte e a que mais remete aos primórdios do Black Metal dos anos 1990. Por qual razão ela foi escolhida para abrir o full-length?
Shammash: Ela carrega o espírito do álbum em sua forma mais pura. Desde o primeiro riff, “Hordes From Nocturnal Gates” anuncia o que está por vir — a marcha das sombras, o peso da tirania e a atmosfera medieval que permeia toda a obra. Era inevitável que fosse a primeira. A música tem essa energia primitiva, quase bélica, que conecta diretamente às origens do Black Metal dos anos 1990. Ao mesmo tempo, traz a identidade do VULTHUM: fria, melódica e ritualística. Ela abre o portal. Depois dela, tudo dentro de “The Tyrant Tale” se revela como uma descida inevitável aos domínios do tirano.
The Ghost Writer Magazine: “Through the Halls of Despair” é uma faixa bem atípica, composta pelo convidado Bruno Augusto ao violão e que tem um contexto que engloba um evidente viés latino. Qual o seu objetivo ao inseri-la em um álbum de Black Metal?
Shammash: A presença de “Through the Halls of Despair” foi essencial para ampliar a dimensão do álbum. Ela representa o silêncio entre dois abismos — um momento de reflexão dentro da tirania. A sonoridade acústica e o toque latino que Bruno Augusto trouxe não quebram o conceito do Black Metal, mas o aprofundam. Queríamos mostrar que a escuridão também pode habitar a melancolia, não apenas a fúria. Essa faixa funciona como uma passagem espiritual, uma pausa carregada de sombras, onde o ouvinte sente o peso da ruína antes que a tormenta retorne. Dentro do contexto de “The Tyrant Tale”, ela é o suspiro final da humanidade antes do colapso completo.
The Ghost Writer Magazine: Héctor Nehtron, da banda mexicana Exaversum, foi o ilustre convidado na faixa “Ad Thronum Tyranni”. Como se deu o contato para a colaboração de Héctor e por qual razão resolveram incluí-lo no álbum?
Shammash: O contato com Héctor surgiu de forma natural, movido por afinidade artística e respeito mútuo. Sempre admirei sua capacidade de traduzir atmosferas sombrias através da música orquestral, algo que dialoga profundamente com o universo do VULTHUM. Quando a ideia de “Ad Thronum Tyranni” tomou forma, sabíamos que precisávamos de uma abordagem que transcendesse o formato tradicional — algo que soasse como o clímax de uma tragédia. Héctor compreendeu o conceito imediatamente. Sua composição elevou a faixa a um nível quase litúrgico, grandioso e sepulcral. A presença dele encerra o álbum com uma aura de fatalidade, como se os portões do castelo finalmente se fechassem para sempre. Foi uma colaboração marcada por entendimento e devoção à mesma escuridão.
The Ghost Writer Magazine: Foi uma grata surpresa para este redator quando constatei a presença de “Skals Av Satans Sol”, do Darkthrone. A versão ficou matadora, mas por qual razão resolveram inseri-la na tracklist do álbum?
Shammash: “Skals Av Satans Sol” sempre foi uma música que nos acompanhou desde o início, uma faixa que representa a essência crua e primitiva do Black Metal norueguês. Inseri-la em “The Tyrant Tale” não foi apenas uma homenagem, mas também uma ponte entre eras e influências — um lembrete de onde viemos e do que nos inspira. A versão que gravamos preserva a brutalidade original, mas com o nosso toque, como se o espírito do VULTHUM atravessasse aquela paisagem gélida. É uma conexão direta com a tradição, um sussurro de respeito aos mestres, encaixando-se naturalmente dentro da narrativa sombria e tirânica do álbum.
The Ghost Writer Magazine: Jack Ferrante foi o baterista contratado para gravar todas as partes do instrumento encontradas em “The Tyrant Tale”. Como está hoje a situação do músico com relação ao VULTHUM? Existe alguma possibilidade de ele ser efetivado no posto?
Shammash: Jack permanece um aliado fundamental do VULTHUM. Sua precisão e intensidade são peças-chave na construção do som da banda, e ele entende profundamente a dinâmica que buscamos. No entanto, sua participação segue sendo pontual, ligada à produção dos álbuns e à execução das baterias em estúdio. Não há, por enquanto, qualquer decisão sobre efetivação. O VULTHUM não apressa definições: cada membro deve se encaixar não apenas tecnicamente, mas também espiritualmente na tessitura da banda. Jack sabe disso, e seu vínculo com a banda segue sólido, ainda que temporário.
The Ghost Writer Magazine: Não tem muito tempo que foi veiculada uma matéria sensacionalista na grande mídia brasileira, sobre a inserção de ideologias totalitaristas dentro do Black Metal. Como você enxerga tal realidade e, principalmente, encara a quantidade crescente de bandas do dito NS Black Metal no país?
Shammash: A banalização de ideologias dentro do Black Metal é um fenômeno que sempre gerou distorções. O VULTHUM nunca se alinhou a doutrinas políticas ou totalitaristas; nossa escuridão é estética e espiritual, não ideológica. O Black Metal verdadeiro é sobre introspecção, desafio à mediocridade e confronto com as sombras internas, não sobre propagandas externas. Quanto ao crescimento do NS Black Metal, é um reflexo preocupante da superficialidade que permeia parte da cena. Muitas vezes, confundem provocação com compromisso real. Mas a essência do estilo não se corrompe por isso. Cabe a bandas como a nossa manter a integridade do Black Metal, preservando sua atmosfera sombria e sua função de espelho da existência humana, longe de ideologias passageiras.
The Ghost Writer Magazine: O Black Metal sempre foi um segmento muito marginalizado, devido à sua proposta extrema e anticomercial. Inclusive, em diversas cidades do Brasil, os mais variados eventos eram cercados por relatos de violência e animosidades entre público e bandas. Como esquecer, por exemplo, as polêmicas envolvendo hordas como Mysteriis e Nocturnal Worshipper, no Rio de Janeiro?! Enfim, como você avalia a atual conjuntura deste microcosmo da cena underground nacional?
Shammash: O Black Metal sempre existiu à margem porque nasceu para isso. É uma expressão que rejeita convenções, confortos e o falso senso de pertencimento. O que ocorreu no passado — os conflitos, as animosidades — faz parte de um contexto em que a intensidade e o ego se misturavam com a paixão pela arte. Houve excessos, sem dúvida, mas também havia verdade. Hoje o cenário é distinto. A marginalidade ainda existe, mas é mais simbólica do que física. As fronteiras se tornaram digitais, e o ruído vem de outros lugares. Há mais exposição, mas menos essência. Ainda assim, nas profundezas, persistem bandas que mantêm o fogo aceso, longe das luzes e das tendências. Esse é o verdadeiro subterrâneo — silencioso, mas indestrutível.
The Ghost Writer Magazine: Nos desculpe, Shammash, mas é impossível conversar com você e não rememorar o Mythological Cold Towers. Como anda a banda atualmente? Os fãs podem esperar um novo álbum em breve?!
Shammash: O Mythological Cold Towers segue vivo, ainda que envolto em longos períodos de silêncio. Temos material praticamente finalizado, mas o tempo se tornou um elemento essencial nesse processo. Cada som precisa amadurecer até atingir o ponto certo de densidade e atmosfera. O novo álbum está próximo e representa uma continuação natural da jornada que iniciamos há décadas — fria, melancólica e monumental. Não há pressa. As torres erguidas pelo Mythological permanecem firmes, aguardando o momento certo para que o nevoeiro se dissipe e a nova obra seja revelada.
The Ghost Writer Magazine: Gostaria de reiterar o nosso agradecimento, em nome de toda a equipe da The Ghost Writer Magazine. Longa vida ao VULTHUM e esperamos por uma turnê abrangente em suporte ao “The Tyrant Tale”. É chegado o momento das suas considerações finais…
Shammash: Agradeço profundamente o espaço e o interesse da The Ghost Writer Magazine. O VULTHUM existe para dar forma ao que habita o silêncio — ao frio, à tragédia e à contemplação do abismo. “The Tyrant Tale” é mais do que um álbum; é um espelho erguido diante da decadência humana. Seguiremos caminhando entre sombras, mantendo viva a chama que queima distante de qualquer luz. Que o nome VULTHUM ecoe como um presságio — e que aqueles que compreendem a linguagem da noite permaneçam conosco na eternidade do gelo.
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