TECNOLOGIA: A Resistência das Mídias Físicas e o Lugar do Heavy Metal na Era Digital
Postado em 11/09/2026


Se tem uma coisa que eu aprendi em todos estes anos que faço parte da indústria musical, é que não podemos nunca ir em rota de colisão com os inevitáveis avanços tecnológicos que vão surgindo no decorrer da nossa trajetória. Como um fã inveterado, até os dias de hoje, de produtos físicos, me vi em pleno processo de depressão quando o CD chegou ao mercado para, supostamente, deixar o nosso bom e velho LP obsoleto. Felizmente, o futuro próximo se mostrou de outra maneira, concedendo espaço para ambos, com públicos que, apesar de parecidos em essência, tinham uma lista enorme de particularidades.

Com críticas de todos os lados em uma espécie de “guerrinha velada”, quando nos referimos aos defensores ferrenhos do CD e LP, só comparável ao que comumente acompanhamos no futebol, ainda estávamos sem ter a real noção do que vinha pela frente com o aparecimento da internet e todo o seu pacote que ofereceria as mais diversas facilidades para os consumidores, primeiramente com a pirataria desenfreada dos tais arquivos no formato MP3, até chegarmos ao ápice dos serviços de streaming, que possibilitam que o ouvinte sequer precise fazer qualquer tipo de download para seu smartphone ou computador.

Ou seja, analisando o recorte temporal que compreendeu a segunda metade dos anos 1990, quando o dito compact disc alcançou o seu mais alto nível de popularidade, podemos afirmar que, mesmo com a resistência dos entusiastas dos LPs, tínhamos uma cena repleta de produtos palpáveis e que nos davam real noção de que éramos parte de uma cena, detentores legais das cópias físicas, excetuando-se, obviamente, qualquer participação com relação aos direitos autorais das obras. Então, não teve como não se frustrar com a digitalização de absolutamente tudo, ainda que a democratização que acompanhou o tsunami tenha trazido diversos benefícios.

Estamos em 2026, quando este texto está sendo produzido, e o quadro atual aponta para uma nova expansão dos produtos físicos, incluindo os já mencionados CDs e LPs, acrescentando-se aí as fitas cassete, que também possuem todo um charme vintage. Quem não teve a mesma sorte foram os audiovisuais, como os antigos tijolos VHS e os não tão velhos DVD e Blu-ray, principalmente por conta do monopólio intocável que o YouTube solidificou desde quando foi inaugurado em 2005. Ainda que pontuados tais comportamentos, um tanto quanto inesperados, por parte dos entusiastas do Heavy Metal, tal gráfico ascendente não pode ser considerado como uma mudança drástica, a ponto de brigar de igual para igual com o status quo. O momento é animador, porém bem longe do que deveria ser considerado o ideal.

Eu, na verdade, defendo a tese de que o segmento do Heavy Metal luta bravamente nesta trincheira, contra o desaparecimento por completo das mídias físicas, preservando assim um comportamento cultural extremamente importante e que deve ser reconhecido. Então, sim, para o nosso bom e velho Metal, há um dado particularmente interessante: os formatos físicos não desapareceram; eles se especializaram. O mercado deixou de depender deles como principal meio de consumo, mas LPs e CDs passaram a ter um peso com imensa carga emocional entre os headbangers que respiram o gênero desde a hora que acordam pela manhã.

A Alemanha, que desde a gênese do estilo é um dos mercados mais importantes para o Heavy Metal, em 2024, respondeu por 31% do faturamento dos CDs e por 49% do faturamento dos LPs no seu mercado interno de música física — as maiores participações entre as categorias de repertório. No streaming, entretanto, essa mesma categoria representou 13% do faturamento. O dado fica ainda mais interessante quando se observa a evolução. Em 2015, Rock/Hard Rock/Heavy Metal representava 22% do faturamento dos CDs naquele país. Em 2020, passou para 27% e chegou a 31% em 2025. Ou seja, mesmo com a retração geral do CD, o gênero ganhou participação dentro da realidade mercadológica que permaneceu.

Nos Estados Unidos, entretanto, o cenário do vinil é mais positivo. Em 2024, as vendas de LPs chegaram a 44 milhões de unidades, contra 33 milhões de CDs, fazendo dele o formato físico mais vendido pelo terceiro ano consecutivo. A receita do LP cresceu 7%, chegando a US$ 1,4 bilhão, enquanto os CDs movimentaram US$ 541 milhões, com crescimento de 1%. E, em escala global, o bolachão apresentou crescimento de 4,6% em 2024, seu 18º ano consecutivo de expansão, enquanto as receitas de CDs caíram 6,1%. Mas e o Brasil, como estamos neste sentido? Será que o panorama por aqui é positivo?

O cenário brasileiro em 2026 é bastante instigante: a mídia física deixou de ser o centro do mercado fonográfico, mas voltou a apresentar crescimento, sobretudo por causa do vinil. O dado oficial mais recente consolidado é o relatório da Pro-Música Brasil referente a 2024; ainda não há, em setembro de 2026, um relatório anual de 2026 fechado. Em 2024, o mercado brasileiro de produtos físicos movimentou R$ 21 milhões, alta de 31,5% em relação a 2023 e o maior valor registrado desde 2017. E este quadro, que não deixa de ser animador, tem a contribuição massiva do nicho da música pesada.

O ressurgimento da mídia física tupiniquim não significa uma volta ao modelo de mercado dos anos 1980/1990. A realidade atual é muito menor e mais segmentada, com o domínio de consumo sendo conduzido pelo streaming, enquanto o formato material funciona cada vez mais como produto de valor agregado. E eu não vejo mal algum nisso, contanto que os formatos coexistam, para abastecer os mais diversos perfis de consumidores. Sou defensor da máxima de que, para algo novo nascer e florescer, o anterior não tenha necessariamente que morrer. E o desafio é conscientizar a nova geração que já nasceu na era do digital, para que não se perca o lado mais romântico e especial do ato de se curtir música.

Acredito que a comunidade que compreende os maníacos do Heavy Metal é um dos principais focos de resistência para a manutenção das mídias físicas e, de uma maneira inteligente, inclusive. Ao não estar preso a um sentimento nocivo de negação, aproveitando os benefícios do formato digital, e sem negligenciar a sua coleção de CDs, LPs e cassetes, o fã colabora para um processo de amadurecimento que apenas tende a ser benéfico para a atual indústria como um todo. A demanda que existe está mais do que provada, basta apenas a boa vontade de quem faz a engrenagem girar, de querer que ela continue girando.

 
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