REPRESENTATIVIDADE: Vozes, riffs, atitude e a presença feminina no Heavy Metal brasileiro
Postado em 30/09/2026


A presença feminina no Heavy Metal brasileiro já não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou restrito a determinadas vertentes. Ao longo das últimas décadas, mulheres passaram a ocupar microfones, guitarras, baixos e baterias, além de assumirem funções relacionadas à composição, produção, ensino e organização de eventos. Do Thrash ao Death Metal, passando pelo Gothic, Power, Crossover e outras ramificações, essa participação ajudou a ampliar o próprio panorama da música pesada nacional. Mais do que uma questão de representatividade, trata-se de uma transformação que pode ser acompanhada por histórias concretas de artistas e bandas que construíram suas trajetórias dentro e fora do país.

Um dos capítulos mais conhecidos dessa história foi escrito pela Nervosa, formada em São Paulo, em 2010, por Prika Amaral e Fernanda Terra, com a proposta de criar uma banda de Thrash Metal exclusivamente feminina. Em entrevista ao Whiplash.Net, Prika recordou que as duas conversaram sobre referências como Slayer, Sepultura, Motörhead, Ratos de Porão e Pantera antes mesmo de a formação estar completa. Segundo ela, passaram aproximadamente um ano e meio procurando uma vocalista e uma baixista até a chegada de Fernanda Lira, cuja voz ajudou a completar a identidade que buscavam.

A trajetória da Nervosa também revela como a competência musical precisou caminhar ao lado da resistência às cobranças existentes dentro da própria cena. Em entrevista à Revista Freak, Prika Amaral afirmou que a cobrança sobre uma mulher no palco era maior e relatou que a banda chegou a enfrentar páginas de redes sociais contrárias ao seu trabalho. Ao mesmo tempo, a guitarrista observou que a experiência internacional contribuiu para ampliar o respeito conquistado pelo grupo. A história da banda, portanto, ultrapassa a formação exclusivamente feminina: ela envolve profissionalização, circulação no exterior e a construção gradual de uma identidade que passou a ser reconhecida pelo próprio público do Metal.

Fernanda Lira também deixou um registro importante sobre os primeiros anos da banda. Em uma entrevista realizada por mulheres da cena pesada de Recife, a cantora e baixista afirmou que ela e Prika abriram mão de trabalho, faculdade, convivência familiar e relacionamentos para seguir o projeto. Na mesma conversa, destacou que, no início, a aceitação foi difícil justamente porque um trio de Thrash Metal formado apenas por mulheres ainda era algo novo naquele contexto. Anos depois, avaliou que a situação havia mudado à medida que o público reconhecia a paixão e a dedicação colocadas no trabalho.

A própria história de Fernanda demonstra como uma trajetória pode atravessar diferentes subgêneros sem perder sua identidade. Depois da Nervosa, ela fundou a Crypta ao lado de Luana Dametto, inicialmente como um projeto voltado ao Death Metal. Em diversas oportunidades, Lira explicou que o novo grupo permitia direcionar para esse direcionamento de ideias que não necessariamente se encaixavam na proposta Thrash da antiga banda. Curiosamente, o nome Crypta surgiu durante um dia de folga em uma turnê na República Tcheca, quando Fernanda e Luana visitaram uma cripta transformada em ossuário e perceberam que a palavra tinha a atmosfera que procuravam.

A Crypta ampliou ainda mais a presença feminina brasileira no Metal Extremo ao reunir diferentes instrumentistas em uma formação que ganhou projeção fora do país. Tainá Bergamaschi, por exemplo, assumiu a guitarra e falou sobre sua trajetória no Metal Extremo em entrevista ao Cultura em Peso, enquanto Luana Dametto consolidou sua atuação como baterista. A proposta também mostrou que a participação feminina não precisa estar vinculada a uma única função: composição, técnica instrumental, vocais e identidade conceitual podem ser desenvolvidos simultaneamente por artistas que ocupam posições centrais dentro de uma banda.

Outro caso importante é o da Sinaya, criada em São Paulo por Mylena Mônaco em 2010. A banda percorreu diferentes caminhos dentro do Metal Extremo e chegou a apresentar uma formação totalmente feminina. A guitarrista Renata Petrelli defende que cada integrante trazia referências distintas, reunindo Thrash, Death, Doom, Grunge e Metal Melódico. A formação também acumulou experiências internacionais, incluindo participação no Lima Metal Fest, no Peru, além de apresentações ao lado de nomes como Exodus e Abbath.

A trajetória da Sinaya ainda oferece uma curiosidade que ajuda a compreender a amplitude dessa atuação. Mylena Mônaco passou a ministrar aulas de vocal extremo e relatou ter buscado formação específica em fonoaudiologia e outras áreas para fundamentar o ensino das técnicas. Ela explica que procurou escolas brasileiras dedicadas exclusivamente ao vocal extremo e não encontrou uma estrutura que correspondesse ao que pretendia desenvolver. A iniciativa transformou uma habilidade artística em uma atividade de formação de novos vocalistas, aproximando prática musical, estudo técnico e transmissão de conhecimento.

No Thrash e Crossover, a Eskröta representa outra vertente dessa participação. Surgida em Rio Claro, no interior paulista, a banda construiu uma identidade marcada por letras em português e temas relacionados a feminismo, violência e injustiças sociais. Yasmin Amaral, vocalista e guitarrista, explicou que a composição “Homem é Assim Mesmo” questiona a naturalização de comportamentos abusivos e a sobrecarga colocada sobre as mulheres. A proposta demonstra como a presença feminina pode estar relacionada não apenas à ocupação dos palcos, mas também à escolha dos temas, à construção das letras e à maneira como determinadas experiências são transformadas em música.

Essa diversidade também aparece em projetos que transitam pelo Heavy Metal Tradicional e por vertentes mais melódicas. A vocalista Aline Happ, da Lyria, por exemplo, abordou em entrevista à Roadie Crew as dificuldades de construir uma carreira musical no Brasil e ressaltou que essas dificuldades não são exclusivas das mulheres. Para ela, o caminho exige dedicação, estudo do instrumento e compreensão do próprio mercado. A declaração é significativa porque desloca a discussão da simples presença feminina para uma questão mais ampla: a necessidade de profissionalização para que artistas de diferentes gêneros possam transformar talento em carreira sustentável.

O cenário brasileiro contemporâneo, portanto, apresenta uma participação feminina que se manifesta em múltiplas frentes e não depende de uma única estética. Nervosa, Crypta, Sinaya, Eskröta, Lyria e tantas outras formações mostram caminhos distintos, seja pela velocidade do Thrash, pela brutalidade do Death Metal, pelo peso do Crossover ou por abordagens mais melódicas. Há ainda instrumentistas, compositoras, produtoras, professoras e profissionais de bastidores que contribuem para a manutenção dessa estrutura. A história dessas artistas demonstra que a presença das mulheres no Heavy Metal nacional não é apenas uma tendência passageira: é parte da própria transformação da cena, construída por diferentes gerações que continuam ampliando os limites de quem pode criar, tocar, produzir e ocupar espaços dentro da música pesada.

 
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