AD BACULUM: O Death/Black Metal diante da morte, da máquina e do caos
Postado em 01/10/2026


É uma grande honra para a The Ghost Writer Magazine receber Lord Hades, líder e principal articulador do projeto AD BACULUM, para uma conversa que atravessa diferentes capítulos de sua jornada no Metal Extremo. Em um momento especialmente significativo de sua carreira, o cara celebra o lançamento de “Necro Biomechanical Existence”, trabalho que amplia a identidade construída por ele durante muitos anos e que vem despertando atenção entre os apreciadores da música underground. Ao longo do encontro, Lord Hades comenta os conceitos, processos criativos e particularidades que cercam o novo registro, além de abordar os caminhos percorridos e as perspectivas para sua continuidade. O nosso bate papo, contudo, não se limitou ao presente: também revisitamos passagens marcantes de sua história no submundo, incluindo o período em que esteve à frente dos vocais do Mystifier, uma experiência fundamental para compreender sua contribuição à cena brasileira. Entre memórias, atualidades e reflexões sobre sua trajetória, Lord Hades oferece um panorama abrangente de sua caminhada e dos elementos que sustentam o AD BACULUM em sua fase atual.

The Ghost Writer Magazine: Você não faz ideia da enorme satisfação de recebê-lo aqui na redação, Lord Hades. Aproveito para agradecer-lhe, em nome da nossa equipe, pela contribuição que você tem dado à cena extrema brasileira, desde os seus tempos junto ao Mystifier. Como estão as coisas atualmente na sua vida pessoal e artística?

Lord Hades: Atualmente, estou morando no litoral norte da Bahia, especificamente na cidade de Camaçari. Tomei essa decisão depois da aposentadoria, porque queria ter mais contato com a natureza e sair da poluição humana e ambiental de Salvador. A questão da atividade artística, o ambiente no qual habito atualmente, dá muita tranquilidade para produzir letras e composições interessantes.

The Ghost Writer Magazine: Recebemos recentemente da Brazilian Ritual Records o último álbum do AD BACULUM, “Necro Biomechanical Existence”. Nele, pudemos conferir o Death/Black Metal que sempre esteve presente na sua trajetória, mas sem se escorar no que foi realizado por você com o Mystifier nos anos 1990. Como ele tem sido recebido até aqui?

Lord Hades: De fato, o álbum “Necro Biomechanical Existence” foi pensado para ter identidade própria. Ele está sendo muito bem recebido e avaliado até o momento, o que muito me orgulha!

The Ghost Writer Magazine: “Necro Biomechanical Existence” traz uma proposta lírica interessante, fugindo de diversos clichês tão comuns neste gênero. Adorei a forma como você abordou a transformação da vida em matéria degradada e mecanizada, na qual o ser humano deixa de ser uma criatura essencialmente orgânica e passa a funcionar como uma espécie de engrenagem de um sistema destinado à destruição. Você pode aprofundar, para os nossos leitores, o seu ponto de vista sobre esta linha de pensamento?

Lord Hades: O trabalho explora a morte, o niilismo e uma existência futurista, mecânica e tecnológica, retratando seres cruéis e inteligentes além da compreensão humana. Apresenta um conceito temático centrado em seres biomecânicos e civilizações antigas. O título do álbum e a lista de faixas sugerem uma narrativa ou conceito envolvendo: Temas necro: O prefixo “necro” refere-se à morte e aos mortos. Existência biomecânica: Refere-se a seres que são uma fusão de elementos biológicos e mecânicos, descritos como antigos, inteligentes e poderosos. Civilizações antigas: As letras e os títulos das canções sugerem a história de uma civilização do passado e dos seus habitantes biomecânicos potencialmente hostis. Eu, particularmente, acredito na teoria do “Grande Filtro”, segundo a qual civilizações tecnológicas acabam por se autodestruir, e o que restará serão sistemas automatizados e inteligências artificiais autorreplicantes espalhados pelo universo. A teoria do “Grande Filtro” é uma hipótese criada em 1996 pelo economista Robin Hanson que tenta responder ao “Paradoxo de Fermi”: se o universo é gigante e antigo, por que ainda não encontramos sinais de civilizações extraterrestres inteligentes? A ideia principal diz que, no caminho entre os primeiros passos da vida e uma civilização espacial avançada, existe uma barreira intransponível ou um obstáculo muito difícil. Quase nenhuma forma de vida consegue passar por esse filtro.

The Ghost Writer Magazine: Encontrei na obra uma evidente predileção estética do Black Metal helênico e referências que me remeteram prontamente ao Impaled Nazarene e sua atitude Hardcore/Punk, como nas ótimas “Dehumanization” e “Rooted Worm Parasite”. Estou correto na minha afirmativa? O quanto você é influenciado pela cena grega, a ponto de deixar isso tão explícito nas suas composições?

Lord Hades: A letra em questão, “Dehumanization”, refere-se à degradação da essência humana por meio da mecanização, da perda de controle biológico e da imersão em uma existência fria e tecnológica. A transição do orgânico para o tecnológico, onde o corpo e a mente são integrados a engrenagens e códigos, gerando uma distopia em que o ser humano deixa de ser uma criatura puramente biológica. Perda de Identidade e Apatia: O próprio termo “desumanização” (dehumanization) reflete um estado de aniquilação do ser, no qual sentimentos, individualidade e conexões humanas são substituídos pela frieza das máquinas. Niilismo e Destruição sempre foi característico do conceito da banda, desde o primeiro álbum; a música evoca uma atmosfera apocalíptica e decadente, tratando a evolução tecnológica como uma força violenta e inevitável que caminha lado a lado com a destruição da civilização. Já a faixa “Rooted Worm Parasite” (que se traduz livremente como “Verme Parasita Enraizado”) refere-se à aniquilação do Homo sapiens e ao horror biológico. O “verme parasita” evoca a ideia de uma infestação ou de uma força destrutiva e decrépita arraigada (enraizada) que consome o hospedeiro por dentro. É uma fusão sinistra entre elementos orgânicos corrompidos (como vermes e parasitas) com engrenagens e máquinas apocalípticas.

The Ghost Writer Magazine: Lunatic (Headhunter D.C., Morbid Perversion) assinou a produção e ainda atuou como baterista e em registros pontuais nas seis cordas. Quem está acompanhando a AD BACULUM atualmente? Como você avalia o resultado obtido por Lunatic, em ambas as funções?

Lord Hades: De fato, o Lunatic passou a ser uma opção natural, depois da última apresentação ao vivo da banda em Salvador e do álbum “The Birth of the Human Tragedy”, o qual incluía o Alex “Poisonous” (Poisonous, ex-Mystifier) na batera e o Fábio Inquisitor (ex-Crueldade) na guitarra. A banda se dispersou. Eu convidei o Lunatic para produzir em seu home studio e participar da execução das guitarras das faixas, culminando com a produção dos álbuns “The Kingdom Bellow”, de 2023, e do “Necro Biomechanical Existence”, de 2025. A partir daí, eu tomei a decisão de que seríamos apenas banda de estúdio e não mais realizaríamos apresentações ao vivo.

The Ghost Writer Magazine: “Dark Instrumental” soou um tanto quanto deslocada para mim, por não conter linhas vocais, tenho que admitir. Por qual razão você resolveu inserir uma track nestes moldes em “Necro Biomechanical Existence”?

Lord Hades: A faixa instrumental foi uma sequência natural, eu sempre gostei dessa forma e havia feito em trabalhos anteriores, como em “Lucifer Archangel and His Magnitude”, do álbum “Morbid End of Cannibalistic Cosmos” (2014).

The Ghost Writer Magazine: A mixagem do material deixou a sua voz um pouco mais alta, quando observamos os demais instrumentos. Esta escolha foi algo natural ou foi meticulosamente pensada? Existiu uma conversa com Lunatic sobre este tema durante o processo de produção?

Lord Hades: Sobre a frequência mais alta nos vocais nesse álbum, isso se deve ao fato de ele ser como um livro narrando uma história macabra, então a vocalização deveria estar bem evidente. Foi algo natural e fiquei extremamente satisfeito com o resultado obtido!

The Ghost Writer Magazine: A arte da capa de “Necro Biomechanical Existence” é provavelmente uma das melhores de toda a discografia do AD BACULUM, sem sombra de dúvidas. Ela foi composta pela empresa The Dark Side Art e acredito que reproduziu bem a sua ideia com tom cyberpunk. Por qual razão você decidiu trabalhar com esta equipe e como você avalia o resultado alcançado?

Lord Hades: Aqui no Brasil, você não encontra bons artistas plásticos. Quando conheci os trabalhos da The Dark Side Art, fiquei surpreso com a qualidade gráfica e criatividade. Então, desde o álbum “The Kingdom Below”, tenho adquirido as nossas capas com o Marcelo Almeida, que, por sinal, também tem uma banda excelente de Death Metal chamada Vermis Mortem.

The Ghost Writer Magazine: Desde 2011, o AD BACULUM vem apresentando recorrentes lançamentos e todos eles demonstram uma progressão qualitativa dentro do que se espera de você, Lord Hades. Aliás, você vem se revelando um workaholic de mão cheia. Como você se organiza para iniciar um novo processo de composição? Você tem uma agenda pré-definida ou apenas vai soltando o que é produzido?

Lord Hades: Minhas inspirações líricas são do horror cósmico e das contradições trágicas da civilização humana. Eu até tenho dito que executamos um “Black Metal Metafísico”, já que tenho muito interesse nessa área de estudo, na qual, no entanto, os maiores cientistas das partículas quânticas ainda não têm as respostas para tudo que engloba esse segmento científico específico. Gosto de explorar o humor negro e o ambiente distópico cyberpunk em algumas faixas.

The Ghost Writer Magazine: Em 2015, vocês participaram do festival Brazilian Ritual Fourth Attack em São Paulo, ao lado de nomes como Morbosidad, Bellicum Bestialis e Necroholocaust. Quais as principais lembranças que você guarda daquela noite em especial?

Lord Hades: O Live in Brazilian Ritual Fourth Attack foi uma boa apresentação, o ambiente underground passou-me a impressão de que ainda estava na década de oitenta.

The Ghost Writer Magazine: Ainda falando sobre o Brazilian Ritual Fourth Attack, ele rendeu o único álbum ao vivo da sua discografia até aqui. Particularmente, gostei muito da captação do material, diante das dificuldades que temos no país quando lembramos da massiva falta de estrutura de que ainda dispomos no nosso país. O que você pode nos falar sobre este artefato em específico?

Lord Hades: A captação sonora para o álbum não foi tão boa, mas eu mesmo fiz os cortes e a edição. No final das contas, ele acabou suprindo as nossas necessidades.

The Ghost Writer Magazine: Impossível conversar com você e não rememorarmos o seu período no Mystifier. Olhando para trás, como você se sente com a repercussão que “Wicca” e “Göetia” ostentam até hoje na cena? Você poderia dividir lembranças conosco deste recorte temporal, englobando os processos de composição e gravação de ambas as obras?

Lord Hades: Os primórdios da época do Mystifier foram muito caóticos, pois era uma época em que Salvador estava infestada de punks e carecas nacionalistas, então houve muitas brigas, lesões corporais e prisões. O point era na loja Maniac, localizada no centro da cidade, na qual houve confrontos com esses imbecis ideológicos. Era uma época de muitos excessos, abuso de drogas e álcool, na qual, ao final, os rolês sempre acabavam de forma negativa. A vida é feita de fases, é natural que tudo isso tenha acontecido. Até tivemos experiências com o mundo sobrenatural, o que foi muito impressionante. Até mesmo um crânio que havia subtraído de uma sepultura, a coisa veio me cobrar sua devolução, não foi bem o falecido, foi o dono imaterial do cemitério. Eu devolvi o objeto, e minha saúde foi prontamente restabelecida. Apesar de eu ser ateu agnóstico, sei que existem forças em uma outra dimensão que estão além da nossa compreensão. “Deixe que os mortos enterrem seus mortos!”

The Ghost Writer Magazine: A cena de Salvador sempre foi conhecida por casos de violência em eventos ligados ao Metal Extremo. Como você se posicionou no passado e como continua se posicionando com a AD BACULUM, diante de uma realidade que até melhorou, mas que ainda está bem longe de ser a ideal para que os fãs possam apreciar os seus artistas com segurança?

Lord Hades: A violência nos eventos sempre foi um ponto negativo. Fora as gangues ideológicas, com as quais tínhamos rivalidade, outro problema eram os “macacos dos bairros”, ou seja: os habitantes de bairros periféricos que, por ignorância, não entendiam a proposta do nosso som e eram sempre hostis e agressivos. Era muito perigoso tocar em alguns bairros, eram verdadeiros vespeiros habitados pelas piores escórias humanas. Não tenho nenhuma empatia para com essa massa de gente alienada e ignorante. Eles que se fodam!

The Ghost Writer Magazine: Infelizmente, estamos chegando ao final da nossa entrevista, Lord Hades. Reiteramos os nossos mais sinceros agradecimentos e esperamos ter mais novidades em breve. Se alguma informação anexa for útil para tornar esta pauta mais completa, fique à vontade para as suas considerações finais…

Lord Hades: Eu agradeço a entrevista e estou informando que o nosso próximo artefato já foi concluído. Ontem mesmo, já enviei todo o material para o selo Brazilian Ritual Records, que em breve irá lançar 300 cópias do EP de 2026. O título é: “The Mystical Source of Carnal Desires”. Dessa vez, contei com Renato Corpse na bateria. Ele também gravou o primeiro álbum do AD BACULUM em 2011, o “Blackness Doctrine”. Nesse disco, ele executou as faixas de forma brilhante, pois é um excelente baterista. Recrutei também meu amigo dos primeiros álbuns para executar as linhas de guitarra, o Fábio Inquisitor. A capa também será um destaque, mais uma vez foi idealizada pelo Marcelo Almeida, e mostra a entidade da região do Oriente Médio “Pazuzu”, com o pênis ereto em meio a um ritual sangrento, com figuras humanas sinistras ao redor. Lembra um pouco a arte da capa do Death “Scream Bloody Gore”.

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Categoria/Category: Entrevistas

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