Quando o “Black Album” do METALLICA chegou ao público, em 1991, eu ainda engatinhava na cena, tentando absorver o maior número possível de referências em um período pré-internet, marcado pela escassez quase absoluta de informação. O acesso era limitado, tudo exigia mais esforço; ainda assim, foi uma fase mágica, hoje amplamente romantizada por quem a viveu. Nesse contexto, apaixonei-me pelo quarteto norte-americano, até porque canções como “Nothing Else Matters” e “The Unforgiven” figuravam constantemente nas rádios. Gostando ou não, era impossível ignorá-las.
A partir desse primeiro impacto, passei a resgatar os álbuns anteriores e a me aprofundar na trajetória do METALLICA. Ter contato com registros como “Kill ’Em All” (1983), “Ride the Lightning” (1984) e “Master of Puppets” (1986) foi um privilégio sem precedentes. E, agregado a eles, obviamente, veio todo o legado do incomparável baixista Cliff Burton, vítima de um acidente com o ônibus da turnê, em 1986. Mergulhei de cabeça naquele microcosmo, sempre sedento por mais conteúdo relacionado aos caras.
Com a chegada de “Load” (1996) e “Reload” (1997), entretanto, a decepção falou mais alto, e acabei deixando a banda de lado para acompanhar novos nomes que despontavam naquele momento. A estratégia adotada — combinando uma mudança brusca no visual dos integrantes a um direcionamento musical mais acessível — me pareceu equivocada. Era clara a tentativa de expansão para dialogar com outras tribos, mas, pessoalmente, acredito que isso não funcionou. Ainda que ambos tragam bons momentos, a frustração acabou prevalecendo.
Voltei a prestar atenção quando “Death Magnetic” (2008) sinalizou um resgate do Thrash Metal de outrora. Mesmo assim, a sensação era de algo ainda pouco natural. Soava como se Hetfield e companhia estivessem reaprendendo a caminhar, tentando se afastar das amarras impostas pelo mercado fonográfico mainstream. Não foi um retorno totalmente orgânico, mas, sem dúvida, um movimento legítimo.
Com “72 Seasons”, o METALLICA mostra que está novamente no jogo. Desta vez, permiti-me absorver o disco da mesma maneira que fiz com os clássicos — e confesso que o material me conquistou logo nas primeiras audições. Caro leitor, a satisfação de voltar a me envolver emocionalmente com algo produzido por essa turma foi imensa. Pela primeira vez desde 1991, posso dizer que aplaudi de pé um conjunto de composições assinadas por James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammett.
“72 Seasons” representa um ponto de equilíbrio entre o METALLICA da fase inicial e a estética mais atual dos últimos LPs. A fusão do Thrash Metal com elementos do Rock contemporâneo sustenta um full-length que, se ainda não alcança o status de obra-prima, chega perigosamente perto. Essa impressão se confirma logo nos momentos iniciais, com as velozes e empolgantes “72 Seasons” e “Shadows Follow”.
Apesar de soar relevante, o título sofre com uma duração que pode afastar ouvintes mais jovens, já habituados à lógica das playlists. Hoje, nem todos têm disposição para ouvir álbuns completos; permanecer quase uma hora e vinte minutos diante de um único CD é um desafio real. Algumas canções, na minha avaliação, poderiam ser mais objetivas, com menos repetições de bases e refrães. Dentro desse raciocínio, “Lux Æterna”, com pouco mais de três minutos, encaixa-se perfeitamente no meu argumento e figura entre as mais eficazes — não por acaso.
Gravado e mixado entre maio de 2021 e novembro de 2022, no HQ Studio, na Califórnia, “72 Seasons” mantém o padrão elevado de produção que o METALLICA consolidou ao longo da carreira — com a exceção já conhecida de “St. Anger” (2003). O acabamento valoriza cada instrumento, permitindo identificar nuances sutis dos arranjos, algo evidente em “If Darkness Had a Son” — uma das minhas preferidas — e na dinâmica “Room of Mirrors”, que carrega referências claras à NWOBHM.
Este novo capítulo da caminhada do METALLICA ficará marcado como o ajuste definitivo de uma rota que se desviou a partir de “Load”. Acompanhar uma veterana do Metal reencontrando seu caminho artístico é, por si só, gratificante. Superado o obstáculo da extensão excessiva, “72 Seasons” tem todos os elementos para conquistar os fãs — assim como me arrebatou logo de início.