YNYS WYDRYN: Na busca de novos caminhos e camadas para o Death Metal
Postado em 05/01/2023


O guitarrista e vocalista Dan Loureiro, mais conhecido na cena por integrar atualmente a Carnified e por já ter feito parte de formações anteriores de bandas como Behavior e Confiteor, finalmente conseguiu arrancar do papel o seu projeto solo, fundado no longínquo ano de 2002. Com o lançamento de “Malevolente Creation”, em 2018, o músico coroou sua trajetória, regada a muita perseverança e resiliência! Como nunca é tarde para corrigirmos um erro, mesmo com alguns anos de atraso, fomos conversar com Dan para destrincharmos um pouco mais desse seu projeto, que promete novos capítulos nos próximos anos…

The Ghost Writer Magazine: A YNYS WYDRYN iniciou as suas atividades em 2002, e de lá para cá muita coisa mudou, principalmente no seu direcionamento musical. Lá atrás, a banda seguia um caminho meio que similar aos alemães do Haggard, mas hoje temos aqui uma genuína banda de Death/Black Metal, com muitas orquestrações. Por qual razão você optou por tais mudanças?

Dan Loureiro: Olá, pessoal da The Ghost Writer Magazine. Acredito que tenha sido uma mudança meio que natural. Engraçado você citar o Haggard, pois foi a principal influência no início da YNYS WYDRYN. Acredito que essa mudança se deu devido ao tempo e à maturidade mesmo. Eu comecei a YNYS WYDRYN com 18/19 anos de idade, e as influências das coisas que ouço e toco atualmente levaram a essa mudança, nada proposital. Veja bem, eu costumo compor só com a guitarra, um amplificador, a seção aberta, e vou lapidando até termos uma composição que julguemos forte, e o que saiu na época do “Malevolent Creation” foi algo bem mais puxado para o Death/Black Metal. As músicas novas conservam essa essência, mas já têm coisas diferentes junto (risos).

The Ghost Writer Magazine: “Malevolente Creation”, seu primeiro álbum, foi lançado apenas em 2018. O que de fato ocorreu para acontecer tanta demora para a banda registrar algo em estúdio? O que também chama a atenção é que vocês partiram direto para o full-length, deixando outros formatos para trás.

Dan Loureiro: Bem, a banda foi bastante ativa durante alguns anos e depois, devido a problemas pessoais e mudanças de formação, restamos apenas eu e mais dois membros (na época utilizávamos até um violino ao vivo), e então decidi dar um tempo. Toquei em inúmeras outras bandas neste hiato, gravei algumas coisas, aprendi e cresci em todos os ramos que cercam um músico de Metal no Brasil e, em todo esse tempo, o vazio de não ter lançado músicas da YNYS WYDRYN me perseguia. Então senti que era o momento de trabalhar as composições e ver até onde eu iria e, para minha sorte, fui motivado e amparado por amigos maravilhosos, e acabou resultando no “Malevolent Creation”. Inicialmente, eu ia apenas testar as habilidades de produção, gravação e processo de produção que estávamos desenvolvendo no Revolusom Studio, e a “cobaia” seria eu mesmo. As músicas foram saindo e Marcão (Marcos Franco, produtor) começou a me dizer: “cara, você precisa fazer um álbum inteiro com isso. Vamos fazer tudo lá no Revolusom. Acabei fechando um acordo com o estúdio, daí o passo seguinte, também ao acaso, foi conseguir o apoio da Eternal Hatred Records para o lançamento. Com tudo mais estruturado, eu pirei e resolvi que ia ser full-length mesmo e foda-se (risos gerais). A banda merecia, depois de tanto tempo.

The Ghost Writer Magazine: O álbum foi registrado no Revolusom Studio, sob a condução do produtor Marcos Franco, que já assinou trabalhos de bandas como Escarnium e Malefactor. Como foi trabalhar ao lado de Marcos e como você avalia o resultado final do disco?

Dan Loureiro: Esta é uma pergunta muito suspeita, com uma resposta mais suspeita ainda (risos). Trabalhei no Revolusom por mais de quatro anos, aprendi tudo o que sei de áudio e produção com o Marcão. Para mim, trabalhar com ele é maravilhoso. Lá, o processo de produção é sempre de tirar o couro, então, se seu ego não é do tamanho do universo e você está aberto a aprender algo durante uma produção, o Revolusom é o melhor lugar do estado para você gravar. Se você permitir ele trabalhar, te produzir de verdade, jamais sairá do estúdio o mesmo músico que começou a gravação, pois ele tem sempre ideias que elevam sua música e te desafiam para caralho como músico. Para mim, isso é maravilhoso, então não podia estar mais em casa do que isso. Mas me lasquei muito em diversos riffs, e tiveram partes que levei um dia inteiro para gravar como ele queria. O resultado final é muito melhor do que eu esperava ou imaginava chegar com essas músicas. 666% de satisfação.

The Ghost Writer Magazine: “Malevolente Creation” trouxe a participação do guitarrista Cristiano Trionfera (Inno, ex-Fleshgod Apocalypse) na faixa “Kérygma”. Como se deu o contato com o músico para ingressar no projeto, e como você avalia o seu trabalho no material?

Dan Loureiro: Eu tomei aulas de guitarra com o Cristiano quando ele ainda estava no Fleshgod Apocalypse. Ele abriu turmas para aulas no intervalo de uma turnê e eu me inscrevi, acabamos virando amigos mesmo. Ele é uma pessoa maravilhosa e foi um dos amigos que deu um puta apoio para este álbum, inclusive gravando este solo e divulgando o disco na Europa. Ele entendeu a composição, discutiu bastante os rumos que deveríamos tomar com a música, a alocação desse solo, e uma semana depois me mandou esse resultado foda. Eu adorei de cara, ele é um músico genial e, sem dúvida, uma grande influência para mim.

The Ghost Writer Magazine: Outra presença no disco é a do também guitarrista George Lessa (God Funeral, ex-Headhunter D.C.) em “Coward Knife”. Neste caso, como vocês já são amigos de muitos anos, acredito que tenha sido algo mais natural e pessoal, estou certo?

Dan Loureiro: Com o George foi mais natural ainda. Conheço ele há pelo menos uns 18 anos, pois tocamos juntos por muito tempo em uma banda cover aqui em Salvador, e nessa carreira ganhei um irmão. Uma coisa que pouca gente sabe é que o George já tocou na YNYS WYDRYN, quando tentamos resgatar a banda. Eu admiro muito tudo o que o George faz como músico, sempre com agressividade, melodia e muita personalidade. Até quando ele entrou na Headhunter D.C., que é uma banda já consagrada e com seu estilo definido, o George conseguiu imprimir sua personalidade. Quando perguntei se ele topava fazer o solo, ele só me disse: “me mande o som, diga o dia da gravação e bote a cerva para gelaaaaar” (muitos risos). Ele chegou ao estúdio com uma ideia na cabeça, tirou umas dúvidas sobre o que eu queria e gravou o solo de primeira. Depois fomos tomar umas (mais risos).

The Ghost Writer Magazine: “Gabriel’s Exclamation” e “The Mourning Star Complaint” são composições-chave da obra, na minha opinião. Nelas você arrisca e se sai muito bem, com linhas de voz mais melodiosas, tornando as faixas mais intimistas. Como se deu o processo de composição dessas duas, em específico?

Dan Loureiro: Eu sempre usei diversas vozes nas composições da YNYS WYDRYN, pois acho que não tem nenhuma música com uma técnica vocal só, e sempre foi assim. Eu sempre tive a intenção de trabalhar diferentes estilos de voz, nada mais justo do que puxar um pouco mais de mim mesmo em um projeto meu. “Gabriel’s…” é uma música que tomou corpo durante a composição. Eu queria uma música mais “balada”, mas não consigo fazer coisas sem palhetadas, então ficou isso que vocês ouvem. Ela é baseada em um diálogo que Gabriel tem com Deus na HQ “Constantine” (tem no filme também). A influência do diálogo levou às diferenças entre as vozes. “The Mourning Star Complaint” tem uma história mais engraçada. No começo, só tinha a parte mais Metal, mas eu estava encucado com o fato de ela estar “pequena”; aí saiu o violão e tudo mais, quando estávamos pensando no que fazer para aumentar ela, e acabou que ficou dessa forma. Uma coisa legal sobre elas é que ambas vieram de riffs feitos no violão.

The Ghost Writer Magazine: Ouvindo “Malevolent Creation”, ficou muito claro para mim a influência de bandas como SepticFlesh e Fleshgod Apocalypse nas estruturas, e o Dimmu Borgir nas orquestrações. Você concorda com tal afirmativa? Se sim, como vocês buscaram beber dessas fontes, sem usá-las como muletas para a construção da obra?

Dan Loureiro: Concordo, só adicionaria mais bandas nessa parte da orquestra, como os próprios SepticFlesh e Fleshgod Apocalypse atualmente, trilhas sonoras de filmes de terror etc. Como você já apontou, a YNYS WYDRYN nasceu da influência do Haggard, portanto a banda não pode existir sem orquestras. Mesmo com essa necessidade, as músicas são feitas inicialmente na guitarra, pois, para mim, boas músicas precisam de bons riffs. Outra coisa é que, como eu sou vocalista de origem e aprendi a tocar guitarra por causa da banda, eu já componho os riffs pensando em voz, na maioria das vezes. Depois da música organizada é que vêm as orquestras, nunca ao contrário.

The Ghost Writer Magazine: Um ponto alto na carreira da YNYS WYDRYN foi a sua participação em um tributo internacional ao Sepultura, com a faixa “Ostia”. Como se deu a presença de vocês neste projeto, e por qual razão escolheram essa música em específico?

Dan Loureiro: Já estávamos com contrato firmado para lançar o “Malevolent Creation” pela Eternal Hatred Records, e aí veio essa notícia da empresa organizar um tributo ao Sepultura. O Sepultura é uma grande influência, então não poderíamos deixar de participar. Escolhemos “Ostia” por ser uma música de que gostamos bastante e, quando soubemos que seria apenas a fase Derrick, saímos ouvindo todas as composições e achamos que essa faixa estava pronta para virar uma música da YNYS WYDRYN (muitos risos). Espero que as pessoas tenham gostado do resultado final, a intenção era fazer o Sepultura soar como YNYS WYDRYN.

The Ghost Writer Magazine: Após o lançamento de “Malevolente Creation”, a banda realizou apenas um show, e parece que hoje a sua formação encontra-se estabilizada. Como foi tocar para mais de 6.000 pessoas no Carnaval de Salvador e quais são os músicos que os acompanha atualmente?

Dan Loureiro: Bem, como eu falei, as coisas foram tomando proporções que não esperava. Comecei a compor para voltar a estudar e resgatar a banda, o estúdio, a gravadora, tudo foi vindo muito natural e inesperadamente. E só tenho a agradecer a todos os meus irmãos. Depois do CD pronto, alguns amigos e minha esposa falaram muito comigo e a banda acabou sendo montada em uma aposta. Abriram-se as inscrições para o Palco do Rock Festival e minha esposa e alguns amigos mais próximos apertaram a minha mente com essa ideia de voltar a tocar ao vivo. E eu sempre dizia: “porra, ninguém vai querer colar na banda. Dá muito trabalho tocar essas músicas ao vivo”. Aí minha esposa falou: “duvido que você não monte essa banda em um dia”. Resolvi arriscar e liguei para Márcio Jordanne, pois era o único batera que vinha à minha cabeça para tocar perfeitamente as músicas ao vivo (ele é um animal na batera e uma pessoa maravilhosa) e, para minha surpresa, ele topou de cara. Aí liguei para o Daniel, já tinha gravado ele no Revolusom com duas bandas diferentes, e ele é um músico excepcional, faz backing vocal e é uma pessoa super bacana. Ele topou na hora também. Só faltava um segundo guitarra, mas essa era a parte mais fácil, já que sempre posso contar com meu irmão e mestre dos timbres, Álvaro Moinhos. Só tivemos tempo de fazer cinco ensaios, mas parecia que já tocávamos juntos havia décadas, pois tudo fluiu bem e a apresentação foi matadora. A experiência no PDR é sempre foda. Nem sei em quantos eu toquei ao longo desses anos, e é sempre matador. A banda que tocou no PDR está junta até o presente momento, e estamos muito felizes com essa formação.

The Ghost Writer Magazine: Dan, você sempre foi muito proativo na cena local de Salvador, tendo registrado os primeiros álbuns de bandas como a Confiteor e Behavior, além de hoje integrar o Carnified. Como foi trabalhar com esses grupos e em qual escala de prioridade a YNYS WYDRYN está na sua atual agenda?

Dan Loureiro: Eu comecei a tocar muito cedo, aos 14 anos. Tive inúmeras bandas autorais e covers. A Confiteor foi a experiência mais intensa e profissional que tive na vida. Era foda, porque só tinha músicos muito mais experientes, e posso dizer, em um nível muito maior que o meu, então era aprendizado todo dia. Tocamos em diversos lugares e compusemos para caralho e, no meu ponto de vista, foi a banda que me mostrou o que eu precisava fazer para ser um vocalista e instrumentista de Metal profissional (até hoje estou tentando colocar os ensinamentos em prática, risos). É provável que venham surpresas por aí sobre a Confiteor. Com relação à Carnified, é algo muito peculiar. Eu sempre fui fã da banda, sei todas as músicas decoradas, e ser chamado para essa retomada foi algo mágico. Tocar e gerenciar uma banda junto com o Marcão (guitarrista) e o Vick (baterista) é um grande aprendizado e uma honra estar com eles mantendo esse legado do Metal da Bahia. Tudo flui fácil, todos são criativos, dispostos e extremamente dedicados a tudo o que envolve a banda, então, pela primeira vez, depois de tantos anos, estou em uma banda dos sonhos, em que todos dão 333% em tudo o que podem para que o projeto ande. Isso é algo que eu nunca tinha experienciado, e essa é a força motriz da Carnified. Preparem-se, porque este ano, mesmo com tantos problemas individuais, vamos trazer novidades bem legais e inesperadas, além de músicas novas. Com relação à minha agenda, hoje meu foco musical se alterna entre Carnified e YNYS WYDRYN. Hoje estou focado em finalizar as músicas novas da Carnified e resolver algumas questões referentes às novidades que falei acima, mas ambas têm a mesma importância e a minha dedicação.

The Ghost Writer Magazine: Após quatro longos anos do lançamento de “Malevolente Creation”, quais são os próximos planos, a curto, médio e longo prazos, da YNYS WYDRYN?

Dan Loureiro: A curto prazo, vamos lançar um EP com algumas músicas novas, elas já estão quase prontas e estão animais demais. Pela primeira vez em décadas, tive alguém compondo comigo para a YNYS WYDRYN, o que era normal na primeira formação, já que Filipe (FD) havia composto todas as músicas antigas comigo. Desta vez, é nosso batera, Márcio, que está trazendo novas composições. Ele é foda em tudo quanto é instrumento e compõe para caralho. Vamos ter parcerias e surpresas para este lançamento. A longo prazo, é lançar o segundo disco e meter o pé na estrada, além de colocar em prática algumas maluquices que a minha cabeça insiste em inventar (risos).

The Ghost Writer Magazine: Uma das características da cena de Salvador é que boa parte do público do Metal Extremo sempre se comportou de forma muito radical, ideologicamente falando. Tendo em vista que a YNYS WYDRYN traz consigo muitos elementos mais modernos no seu som, como a banda lida com esse tipo de realidade? Vocês já sofreram algum tipo de preconceito por essa parcela mais ortodoxa dos fãs?

Dan Loureiro: Velho, esta não é a primeira vez que me perguntam isso. Honestamente, pela minha frente, até agora, não (risos). Não lido com essa realidade (mais risos). Eu não penso em moderno ou old school, ouço só o que gosto e não o que me ditam. Eu sou headbanger, ninguém me diz o que ouvir, tocar ou fazer. Na YNYS WYDRYN, ou em qualquer banda que eu toque, eu realmente estou cagando e andando para fórmulas ou se alguém vai ficar magoadinho porque eu enfiei um breakdown em uma música ou porque soei extremo demais depois de algo “moderno” que nego faz há 30 anos. Se alguém se incomoda com isso na banda, de boa, não ouça. Vamos fazer o que nos deixa felizes e o que podemos fazer bem, o resto não me interessa. Portanto, zero problemas com isso (risos gerais). Eu ouço muita coisa, sou produtor musical no Revolusom Online e não pretendo limitar minha criatividade e minha diversão por conta da imbecilidade de poucos. Toco o que gosto, e foda-se.

The Ghost Writer Magazine: Obrigado pela entrevista, Dan Loureiro. Esperamos receber mais notícias da YNYS WYDRYN para muito breve. Fica aqui o espaço para as suas considerações finais…

Dan Loureiro: Eu não poderia deixar de agradecer a vocês pelo espaço e por todo o apoio que vem sendo dado à YNYS WYDRYN, de coração, muito obrigado. Também não poderia deixar de agradecer meu irmão de empresa e banda, meu Andy Sneap da Bahia, Marcos Franco, pelo trabalho fenomenal que sempre fez com meus projetos. Agradecer aos meus irmãos de banda que colaram na empreitada e estão brocando, e a todos que estão dando apoio à YNYS WYDRYN. Acreditem, estamos muito mais longe do que imaginei que um projeto chegaria e vamos continuar em frente. Este ano saem músicas novas e muitas novidades na área. Grande abraço a todos.

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