GOD FUNERAL: O funeral de Deus sob a ótica do Death Metal
Postado em 05/01/2022


Quando falamos em Death Metal, não lembrar da Bahia pode se configurar como um erro crasso. Os nomes são vários, nascidos desde a longínqua década de 1980, com o Headhunter D.C. sendo o exemplo maior do segmento. Dentro deste âmbito está o GOD FUNERAL, que tem na figura do seu guitarrista George Lessa (ex-Keter, Headhunter D.C.) o nome mais representativo dentro do seu line-up. Com o lançamento do EP “Where Everyone is Equal”, vimos a necessidade de bater um papo com George, já que, com ele, a GOD FUNERAL promete andar a passos largos rumo ao topo da cena brasileira. Mas vamos parar de enrolação e passar a palavra para quem mais importa neste momento…

The Ghost Writer Magazine: O GOD FUNERAL começou as suas atividades no ano de 2017 em Salvador, Bahia. Como se deu o processo de criação deste projeto, e como foram os primeiros passos rumo à estreia ao vivo?

George Lessa: Primeiramente gostaria de agradecer pela oportunidade de estar falando um pouco a respeito da trajetória do GOD FUNERAL! Obrigado, irmão! Bem, o start para eu montar a banda se deu após alguns meses da minha saída do antigo projeto, no qual eu e Yury Duplat tocávamos. Fiquei alguns bons anos no Headhunter D.C., mas senti a necessidade de montar algo novo para eu poder compor e gravar minhas músicas, direcionando sonoridade e estética da maneira que eu desejava. De imediato, contactei Yury para montarmos o time e dar início aos trabalhos. Essa formação encontra-se sólida e cada vez mais participativa nas atividades da banda.

The Ghost Writer Magazine: Em 2018 a banda debutou com o lançamento do EP “Where Everyone is Equal”, que foi disponibilizado através da Blasphemy Productions no Brasil. Como se deu o processo de produção deste material e como foi a receptividade do público com relação a ele?

George Lessa: Cara, o maior incentivo que tivemos para a gravação do EP foi logo após postarmos, em uma rede social, o trecho de uma das primeiras faixas que estava sendo lapidada. Jimmi Sanchez, do selo mexicano Dark Recollections, me contactou após assistir ao vídeo e perguntou se já havia algum selo interessado em lançar o material. Naquele momento, não tínhamos nada pronto, mas obviamente falei que já tínhamos o disco pronto (risos). Isso ocorreu em novembro de 2017. O material foi composto, gravado e finalizado em fevereiro de 2018, se não me engano. A versão em CD foi lançada através dessa parceria com o selo mexicano e os selos brasileiros Headcrusher e Funeral Rites (capitaneado por Winston Pacheco). Enquanto estava desenrolando as composições e gravações, consegui fechar com o Oscar, da Blasphemy Productions, o lançamento no formato K7, o que foi muito valioso para nós, já estar divulgando o trabalho no máximo de formatos físicos que tínhamos acesso naquele momento. Esse material ecoa até hoje de forma muito boa. Todos os selos com os quais fiz trocas e que estavam envolvidos no lançamento comentaram a demanda relacionada a ele, que nos rendeu muitas entrevistas e reviews em zines impressos e em portais especializados. Penso em fazer uma nova tiragem futuramente.

The Ghost Writer Magazine: Além da faixa-título, fiquei perplexo com a rifferama imposta em “Macabre Mortuary”. Em ambas, na minha ótica, é perceptível fortes influências dos norte-americanos do Possessed e Incantation. Você concorda com esta afirmativa? Como funciona o processo de composição da banda?

George Lessa: Curiosamente, “Macabre Mortuary” foi a primeira música composta para o GOD FUNERAL. Esse riff foi composto por mim e Alex Rocha (Poisonous, ex-Impetuous Rage). Acho que essa faixa representa bem os moldes do Death Metal old school que viemos a praticar durante o desenvolvimento da banda. Com certeza, Possessed e Incantation são bandas que fazem parte da minha formação musical, porém acredito que temos grande influência do Death Metal europeu também na nossa sonoridade. Com relação ao processo de composição, até o momento, eu e Yury criamos os riffs e todos da banda participam na criação das letras. Isso não é uma regra, mas, até então, tem acontecido dessa maneira. Acredito que é importante a participação de todos nesse processo, para que todos se sintam participativos e parte daquilo, criando uma identidade no trabalho.

The Ghost Writer Magazine: Apesar de relativamente novo na cena, o GOD FUNERAL realizou diversos shows no estado da Bahia. O que você pode nos falar sobre estes eventos em suporte a “Where Everyone is Equal”?

George Lessa: Cara, fizemos shows na capital e em algumas cidades do interior da Bahia. Chegamos a tocar em Aracaju (SE) também, e eu vinha tentando marcar algo fora do eixo do estado, só que veio a pandemia e acabou com todo esse planejamento. Tocamos em duas edições do Palco do Rock, evento que reúne milhares de pessoas durante o período de carnaval, no Dopesmoke Festival e em eventos de menor porte, mas não menos importantes para a propagação da nossa música.

The Ghost Writer Magazine: “Necrohitman”, faixa inédita que saiu como single em 2019, foi o passo seguinte na carreira da banda. Por qual razão vocês continuaram apostando no formato de single, e não partiram para um full-length propriamente dito?

George Lessa: Acredito que é válido trabalhar dessa maneira, manter a banda apresentando faixas novas enquanto o full de fato não é lançado. Vários fatores estão envolvidos até que se consiga lançar um disco, mas isso não impede que a banda mantenha uma constância nas apresentações de novos sons. Com as plataformas digitais dando esse suporte, é um caminho para que a banda não fique estagnada. Admito que, durante um bom tempo, tinha um “ranço” com esses serviços, mas temos que nos adaptar à realidade, obviamente sem abandonar as raízes. Todos os materiais que o GOD FUNERAL lançar terão algum formato físico disponível.

The Ghost Writer Magazine: Em 2021 a banda retorna os movimentos em sua discografia, com o lançamento do single “Archetypes of Damnation”. O que vocês podem falar a respeito desta composição? Por sinal, o videoclipe para ela ficou matador! Como se deu o processo de desenvolvimento deste trabalho?

George Lessa: A pandemia acabou nos atrapalhando bastante no processo para o lançamento do debut. Com isso, optamos por lançar essa faixa, que é a música-título desse material. Dessa forma, apresentamos um cartão de visita, mostrando o que as pessoas devem esperar desse disco. Continuamos tocando um Death Metal rude, pouco polido, mas com atmosfera, clima podre e que soa maligno, principais características que me fascinam nessa vertente do Metal. O videoclipe foi filmado por Joaquim Fauro (Against The Media) e toda a edição e pós-produção foram feitas pelo nosso outro guitarrista, Yury Duplat. O quadro de Jesus que foi queimado no vídeo foi roubado por Caio, nosso vocalista (risos gerais). Era de um parente dele, acabou virando cinzas e ajudou bastante na composição do produto final.

The Ghost Writer Magazine: Mudando um pouco o foco desta entrevista, queria tocar em um ponto que pode ser um pouco incômodo. Você foi guitarrista do Headhunter D.C. na fase do álbum “…in Unholy Mourning…”, mas, em 2021, optou por deixar o grupo. O que de fato ocorreu para você tomar essa decisão? Você ainda mantém contato com os membros do Headhunter D.C.?

George Lessa: Foram 12 anos de dedicação ao Headhunter D.C.. Gravei o “…in Unholy Mourning…”, o “Death Kurwa!”, material gravado ao vivo em Varsóvia (Polônia), durante a tour europeia de 2013, e também participei do registro de alguns tributos dos quais a banda participou durante essa fase. Tenho consciência de que dei o meu melhor durante esse período. Fiz parte da formação da banda que mais fez shows e tours, o que de fato é motivo de satisfação e orgulho para mim! Essa é parte da minha história, que levarei sempre comigo. No entanto, ciclos devem ser encerrados para que deem espaço para novos surgirem. Estou em um momento em que priorizo o crescimento em outros setores da minha vida, principalmente o profissional, que é o que propicia eu poder tocar em bandas. Sabemos que o Heavy Metal não dá dinheiro e que raríssimos músicos conseguem viver disso aqui no Brasil. Minha saída foi sem brigas e comunicada da melhor maneira possível. Nos reunimos e apresentei para todos as motivações. Mantenho contato com os membros do Headhunter D.C., inclusive nunca deixei de ter contato com Paulo Lisboa, fundador da banda. Nenhuma ruptura é fácil, mas se faz necessária em dados momentos. No GOD FUNERAL consigo adaptar melhor os horários e, em consenso com os demais membros, vamos tocando o barco.

The Ghost Writer Magazine: Na última vez que fui à Bahia, pude notar que a cena atual está carecendo de novas casas para abrigar shows, e boa parcela do público voltado para o Black Metal continua com atitudes extremistas, que extrapolam o real sentido de ser headbanger. Como o GOD FUNERAL se encaixa neste contexto? Como você avalia o atual momento que vive o underground soteropolitano?

George Lessa: Sempre procurei focar na arte, na música e, principalmente, em criar algo subversivo, sem me preocupar com o que os que se acham mais Metal que os outros vão pensar. Minha caminhada fala por si só, não preciso provar nada a esse tipo de criatura. Assim que as coisas melhorarem um pouco, afinal ainda estamos em uma pandemia, voltaremos a produzir eventos e tentar movimentar o cenário, agregando bandas locais e de fora da cidade/estado. Acredito que esse tipo de movimentação sempre me ajudou, não só no GOD FUNERAL, mas também em outras bandas pelas quais passei. A Bahia tem um cast matador quando pensamos em Death Metal. Muita banda produzindo material de altíssimo nível, conseguindo lançar por bons selos e levando a bandeira do Metal baiano para fora do estado. A maior dificuldade por aqui sempre foi opções de casas de shows com uma boa estrutura de palco, sonorização, iluminação e, no momento atual, isso piorou de maneira drástica, pois o que já era pouco se tornou quase nada. O importante é que as bandas não se rendem a essas dificuldades e continuam suas atividades da maneira que dá, e foda-se!

The Ghost Writer Magazine: Imagino que, após um EP e dois singles extremamente bem-sucedidos, a banda esteja finalmente planejando o lançamento do seu primeiro álbum. Isso de fato está nos planos de vocês? Quais os próximos passos do GOD FUNERAL para o ano de 2022?

George Lessa: Sim! Voltamos a ensaiar as faixas do debut álbum, inclusive! Estamos organizando novamente a rotina de ensaios para que, o mais breve possível, as gravações ocorram. A Blasphemy Productions deverá ser a responsável pelo lançamento em CD e K7 do material. Provavelmente, em abril/maio, vamos lançar um álbum ao vivo, gravado durante nossa apresentação no Dopesmoke Festival 2021. O show foi mixado e masterizado pelo mago Jera Cravo e vai ser disponibilizado nas plataformas digitais pela Dopesmoke Productions. Enquanto isso, vou tentar viabilizar o lançamento desse material em algum formato físico também. Contamos novamente com o talento do Márcio Blasphemator para a concepção da capa do que virá a ser o nosso primeiro registro ao vivo.

The Ghost Writer Magazine: George, obrigado pelo tempo cedido à equipe da The Ghost Writer Magazine. O espaço agora é seu para suas considerações finais.

George Lessa: Irmão, mais uma vez agradeço o espaço concedido a nós do GOD FUNERAL!!! Trabalhos como esse são fundamentais para fazer a engrenagem girar. Obrigado a todos que dedicaram um pouco do seu tempo para ler a entrevista!!! Nos vemos na estrada! Abraços!!!

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Categoria/Category: Entrevistas

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