Quando, em 2019, foi anunciado o surgimento do VULTHUM, até então um projeto idealizado pelos músicos Samej (responsável pelos vocais) e Shammash (guitarrista), ambos oriundos do Mythological Cold Towers, o underground rapidamente se cercou das mais otimistas expectativas. Não era para menos: a dupla havia se consolidado como referência no Doom Metal mundial, sempre associada a lançamentos consistentes, tendo em “Sphere of Nebaddon: The Dawn of a Dying Tyffereth” (1996) seu marco mais emblemático.
Foi em 2021, no entanto, que todos fomos pegos de surpresa com a chegada do debut “Shadowvoid”, acompanhado de um inevitável sentimento de perplexidade. O motivo? Tratava-se de um registro assumidamente voltado ao Black Metal. A comunidade banger ficou, de fato, desconcertada — lembro bem disso —, sobretudo porque a expectativa natural era algo alinhado ao espectro sonoro do Mythological Cold Towers, e não exatamente o seu oposto. Superado o impacto inicial, a obra se sustentou com personalidade, pavimentando o caminho para um segundo lançamento que se impôs diante de uma base de fãs recém-conquistada.
Assim nasceu “The Tyrant Tale”, em 2025, dando continuidade direta à proposta estabelecida em “Shadowvoid”. O que temos aqui é, novamente, um Black Metal fortemente ancorado na estética da segunda onda do estilo, dialogando sem receio com referências como Darkthrone, Immortal e Emperor em seus primórdios. A edição física voltou a ficar sob responsabilidade da divisão sul-americana da Drakkar Productions, apostando em um acabamento simples, coerente com o caráter monocromático e cru da sonoridade apresentada.
Com pouco mais de meia hora de duração, “The Tyrant Tale” funciona como uma extensão natural de seu antecessor. A qualidade da gravação segue fiel ao que o estilo historicamente propõe: um áudio inteligível, porém longe de qualquer polimento excessivo. “Hordes From Nocturnal Gates” deixa isso claro logo de cara e, além da velocidade esperada, apresenta uma passagem mais contemplativa, que remete diretamente aos momentos mais inspirados do Mythological Cold Towers.
“Upon the Shores of Eternity” surge inicialmente cadenciada e convidativa ao headbanging, mas logo acelera de forma impetuosa, credenciando-se como um dos grandes destaques do repertório. A variação de ideias é, sem dúvida, um dos pontos centrais do trabalho, afastando qualquer sensação de uniformidade excessiva. Seria injusto afirmar que tudo soa igual, especialmente diante da presença de “Through the Halls of Despair”, uma vinheta acústica com claro viés latino, que adiciona contraste e respiro ao material.
Os riffs mais marcantes aparecem em “Hate, Fire and Fog”, dentro dessa alternância entre velocidade e cadência que permeia toda a experiência. Pessoalmente, figura entre minhas favoritas, ao lado de “Whispers in the Castle”, cuja aura gélida remete imediatamente a clássicos noruegueses dos anos 1990. Aliás, é impossível não lembrar da trinca formada por “A Blaze in the Northern Sky” (1992), “Under a Funeral Moon” (1993) e “Transilvanian Hunger” (1994) ao término de sua execução.
O encerramento vem com uma homenagem direta e assumida ao Darkthrone: “Skals av Satans Sol”, originalmente presente em “Transilvanian Hunger”. A interpretação dos brasileiros é tão fiel que certamente arrancaria um sorriso orgulhoso de Fenriz e Nocturno Culto. Diante de tantos acertos, o único ponto negativo perceptível está na curta minutagem. Faltaram, ao menos, dez minutos de conteúdo, mas, como nem tudo são flores, só resta nos contentar com o que foi entregue.