Artista: Angra
País: Brasil
Álbum: Reaching Horizons
Gravadora: Independente
Licenciamento: Indisponível
Versão: Compact Disc
Ano de Lançamento: 1992
O ANGRA possui uma das formações brasileiras fundamentais para o desenvolvimento e profissionalização de toda uma cena, e isso é notório até para os mais desatentos. Goste você ou não do Power Metal de vertente folclórica proposto por esses músicos, sua importância para o segmento é incontestável. Se hoje nos orgulhamos de possuir uma “Cena do Metal Nacional” melhor estruturada, o quinteto tem significativa parcela de responsabilidade nesse procedimento.
Desde seu alicerce, o conjunto serviu para recolocar Andre Matos de volta ao jogo. Ex-vocalista do Viper e detentor de uma técnica de canto invejável, Matos havia se afastado dos palcos para dedicar-se à formação acadêmica em composição e regência — objetivo que se concretizaria anos depois.
Como já mencionado, a presença de Andre Matos gerou enorme expectativa e curiosidade entre fãs e imprensa. Ele gozava de prestígio no Brasil e nos mercados europeu e asiático, sobretudo após sua participação magistral em “Theatre of Fate” (1989), do já citado Viper. Desta forma, embora o ANGRA surgisse com identidade própria, era imperativo que buscasse sua afirmação como marca, esforçando-se para se sobressair à expressiva popularidade que seu frontman carregava.
De fato, quando me deparei com a demo tape “Reaching Horizons”, o projeto me foi apresentado como a nova empreitada do ex-membro do Viper. Inevitavelmente e em caráter de urgência, o ANGRA precisava se consolidar como banda — e não apenas como uma “cartada solo” de Andre. E, para o alívio de todos, o coletivo não demorou a se destacar, pois o time, além de competente, já contava com o guitarrista e compositor Rafael Bittencourt, que demonstrava estar à frente de seu tempo.
A demo “Reaching Horizons” foi registrada em julho de 1992, em uma mesa compacta de vinte e quatro canais, no extinto Guidon Studios. Originalmente, o material trazia seis canções distribuídas em uma velha fita K7: no lado A, “Evil Warning”, “Time” e a música-título; no lado B, “Carry On”, “Queen of the Night” e “Angels Cry”. Em seguida, seria relançada em CD na Europa, com bonus tracks interessantes, fotografias inéditas e uma proposta controversa quanto à disposição da tracklist. É justamente essa edição em compact disc que tomo como base para esta análise.
Andre Matos era a personalidade de maior projeção naquela equipe e tinha a companhia dos então desconhecidos Rafael Bittencourt (guitarra), Kiko Loureiro (guitarra), Luís Mariutti (baixo) e Marco Antunes (bateria). No entanto, engana-se quem pensa que Andre tenha sido o idealizador do conceito de incorporar elementos da MPB ao Power Metal de origem europeia. O responsável por esse amálgama — que tornaria o ANGRA uma referência desde sua gênese — atende pelo nome de Rafael Bittencourt, cuja expertise na escrita sempre foi notória. Vale lembrar que Rafael e Andre formaram-se juntos em 1995, na Faculdade de Artes Santa Marcelina, em São Paulo. Após poucas audições, tornou-se evidente para mim que a fusão entre as texturas eruditas trazidas por Matos, a técnica refinada de Kiko Loureiro e a visão singular de Rafael formaram o núcleo que permitiria ao grupo se destacar.
A produção de “Reaching Horizons” contou com a assinatura de Fernando Costa, dividida com Bittencourt e Matos, que acompanharam todo o processo de perto. Para os padrões da época, o resultado foi animador — superior a praticamente tudo o que era lançado no país. Em razão disso, como cartão de visitas de luxo para apresentar o ANGRA ao cenário musical, o propósito foi alcançado com louvor. Mas vamos ao que interessa: a partir daqui, trato exclusivamente das nove tracks do CD.
O disco abre com “Carry On”, integralmente de Andre e revelada aqui com inusitadas linhas vocais, principalmente no refrão. Os que conheceram a original primeiro certamente se surpreenderam. A sensação de estranhamento ao ouvir o álbum iniciar com esse tempero atípico é compreensível — atesto! Particularmente, opto pela primária e considero uma escolha discutível não ter relegado esta alternativa ao final do CD, como bonus track. Mas sigamos… vai saber.
“Queen of the Night” vem na sequência, trazendo uma pegada voltada ao Rock com nuances progressivas. É também nela que a orientação étnica do ANGRA desponta, culminando em um ótimo grand finale de Marco Antunes, que insere arranjos de Samba na estrutura. “Angels Cry” segue direção inclinada ao Power/Prog Metal, sendo a mais complexa e variada da obra. Nela, a veia erudita de Matos é evidenciada e ganha reforço na ornamentação de cordas bastante refinada construída por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt.
Outro ponto alto é a forma como os caras abordam as músicas comerciais — as chamadas “baladas”. Nesse aspecto, “Time” e “Reaching Horizons” cumprem exemplarmente seus papéis, com interpretações belíssimas de Andre Matos. Pessoalmente, prefiro o tom dramático da segunda, em contraste com a suavidade uniforme da primeira. São composições distintas, mas que, arrisco dizer, chegam até a se complementar.
“Reaching Horizons” ainda guarda algumas surpresas: a releitura em ritmo Speed Metal da improvável “Wuthering Heights”, de Kate Bush; a versão original de “Carry On”; a Power/Prog/Étnica “Evil Warning”; e a dispensável “Don’t Despair”, que poderia ter sido facilmente descartada por destoar das demais. Com um direcionamento pseudo–Rock ’n’ Roll pouco empolgante, é, de longe, a que menos honra o background criativo de Andre.
O pontapé inicial do ANGRA colocou o sarrafo lá para cima. Partindo dessa premissa, constatei um aprimoramento visível por parte da concorrência, que buscava se manter à altura do grupo paulista. Diante da recepção calorosa do público e da mídia especializada, observou-se um crescimento vertiginoso que culminou na sua consolidação no circuito internacional. Naquele momento histórico, surgia um companheiro para o Sepultura — sim, um companheiro! — na nobre missão de levar a nossa bandeira verde e amarela além-mar.
Formação:
Andre Matos (vocalista, tecladista)
Rafael Bittencourt (guitarrista)
Kiko Loureiro (guitarrista)
Luís Mariutti (contrabaixista)
Marco Antunes (baterista)
Tracklist:
01. Carry On (versão com refrão alternativo)
02. Queen of the Night
03. Angels Cry
04. Time
05. Evil Warning
06. Reaching Horizons
07. Carry On (versão original)
08. Don’t Despair
09. Wuthering Heights (Kate Bush, versão alternativa)






