A Suécia raramente decepciona, especialmente quando o assunto são as múltiplas ramificações do Metal Extremo. Foi nos anos 1990, em um contexto no qual a busca por novos artistas era bem mais trabalhosa, devido à inexistência da então futura e controversa internet, que tive o primeiro contato com o talentoso Andreas “Vintersorg” Hedlund. Sua passagem pelo Borknagar deixou marcas profundas em mim, mas foi à frente do VINTERSORG que ele conquistou definitivamente meu respeito e passou a ser acompanhado com atenção constante.
Ao todo, seis registros do Borknagar contaram com sua contribuição direta, atingindo um ponto alto em “Epic” (2004), obra na qual ele assinou a coautoria de quatro faixas. A trajetória solo, no entanto, só entrou no meu radar mais tarde, quando conheci o terceiro álbum, “Cosmic Genesis” (2000), que rapidamente se tornou presença obrigatória nas minhas audições do início dos anos 2000. É impossível esquecer a clássica “A Dialogue with the Stars” ou o refrão grudento da faixa-título. A partir daí, revisitei os trabalhos anteriores e passei a acompanhar atentamente tudo o que veio depois.
Outro aspecto que torna o VINTERSORG tão interessante está nos temas explorados por seu idealizador. Andreas transita sem receio por Paganismo, Astronomia, Ciência e Filosofia, utilizando esses campos como base para uma visão de mundo que coloca a reflexão no centro de sua expressão criativa. Contudo, nos últimos anos, a adoção do idioma sueco como base lírica tornou a imersão imediata um pouco mais desafiadora para parte do público. Em “Vattenkrafternas spel” (2025), disponibilizado no país pela Metal Army Records, essa característica segue presente.
A complexidade é o fio condutor de “Vattenkrafternas spel”. São nove faixas que passeiam por referências do Viking Metal, Black Metal e Folk Metal, além de nuances progressivas bem trabalhadas. Em termos diretos, trata-se de um disco denso e nada fácil de assimilar. Não acredito, inclusive, que alguém consiga formular uma opinião sólida após poucas audições. Para a elaboração deste texto, foram necessárias mais de dez revisitações completas e, ainda assim, ficou a sensação de que havia mais a ser descoberto.
Com quase uma hora de duração, letras em sueco e inúmeras camadas sonoras, o conteúdo pode afastar ouvintes menos pacientes. Por outro lado, quem acompanha o VINTERSORG já espera exatamente esse tipo de abordagem, o que indica que tudo segue dentro do planejamento do mentor do projeto. Meus destaques, portanto, são pontuais, já que a obra funciona como um bloco coeso. “Störtsjö” se apoia em aspectos mais etéreos do Black Metal e os adapta de forma eficiente à proposta. “Regnskuggans rike” entrega o refrão mais marcante do material, enquanto os violões que abrem “Kraftkällan” criam uma atmosfera serena antes da investida mais agressiva que vem em seguida, recurso muito bem explorado.
Encerrando o trabalho, “Ödsliga salar” evidencia a veia nórdica do Metal Extremo e cumpre bem o papel de desfecho. A faixa apresenta um refrão forte e não hesita em revelar passagens épicas e progressivas, resultando em um fechamento grandioso. Fica claro que estamos diante de um bom lançamento do VINTERSORG, mesmo que ele não ameace o status alcançado por obras como “Cosmic Genesis” e “Naturbål” (2014).