Conheci o CROWNE por meio de um amigo de longa data, que me apresentou a iniciativa como uma espécie de supergrupo, capitaneado pelo baixista John Levén (Europe, ex-Yngwie Malmsteen). Ele, por si só, já carrega um background sólido e extremamente respeitável, mas o projeto ganha ainda mais peso com a presença do vocalista Alexander Strandell (Art Nation), que vem se consolidando como uma das vozes mais interessantes da nova geração do Heavy, Hard e Power Metal na Europa.
Minhas expectativas eram altas, mas sofreram um leve abalo quando me deparei com a arte gráfica de “Kings in the North”, seu primeiro álbum completo. A imagem de uma coroa ao centro, atingida por um raio e inserida em um ambiente ártico, remete diretamente à estética popularizada por “Game of Thrones” (HBO, exibida entre 17 de abril de 2011 e 19 de maio de 2019). A impressão inicial, infelizmente, é de um visual bastante previsível, clichê, pouco inspirado e aquém do nível técnico que se espera de músicos desse calibre.
Ainda assim, resolvi seguir adiante, confiando nas recomendações positivas do meu colega jornalista, e coloquei o CD para rodar. Para minha surpresa, toda aquela primeira percepção negativa caiu rapidamente por terra: “Kings in the North” revelou-se um dos discos mais empolgantes de Hard e Heavy Metal surgidos nos últimos tempos, com alto poder de envolvimento e uma fluidez que prende do início ao fim.
Embora o material flerte em vários momentos com o Power Metal, sua base estrutural permanece firmemente fincada no Heavy Metal, com inúmeras nuances e influências vindas do Hard Rock. Boa parte dessa identidade mais melódica e acessível vem justamente de John Levén e de Alexander Strandell, além do guitarrista e compositor Jona Tee (Autumn’s Child, H.E.A.T.). Com um time desse porte, seria difícil imaginar um desfecho diferente: todos dominam esse gênero há muitos anos, o que se reflete na segurança, no entrosamento e na naturalidade das ideias apresentadas.
O LP funciona como uma verdadeira coleção de potenciais hits, que vai da faixa-título a destaques como “Perceval”, “Sharoline”, “Unbreakable”, “Mad World” e a belíssima balada “Save Me from Myself”. A sensação é de que todas as canções foram pensadas para causar impacto imediato, sustentadas por interpretações extremamente inspiradas de Alexander Strandell. Vale, inclusive, buscar a outra empreitada do cantor, a Art Nation, para compreender melhor sua trajetória e a versatilidade que ele vem demonstrando ao longo da carreira.
O grande trunfo do quarteto está na capacidade de criar um amálgama muito consistente entre o Heavy Metal escandinavo e o Hard Rock característico da fase oitentista do Europe. A semelhança é tão marcante que, em diversos trechos de “Set Me Free” e “Make a Stand”, cheguei a esperar, quase instintivamente, a entrada de Joey Tempest para conduzir a música. Ainda assim, é importante destacar que, apesar desse evidente parentesco estético, a obra consegue sustentar uma identidade própria e não soa como simples emulação.
Uma das principais lições que “Kings in the North” me deixou foi a de não julgar um livro pela capa. Estou completamente envolvido com este full-length e sigo retornando a ele desde o primeiro contato. Sem exagero, trata-se de um disco altamente recomendável para quem aprecia Hard e Heavy Metal e nomes como Europe, em sua fase clássica, e Dynazty. É um lançamento que entrega conteúdo de alto nível e demonstra, com clareza, que o CROWNE tem potencial real para se firmar como um franco atirador dentro desse nicho.