Nunca vou esquecer o meu primeiro contato com o TESTAMENT. Eu ainda cursava o antigo ginásio e, em meio a alguma aula enfadonha de física, reparei que um velho amigo carregava um LP com uma arte de capa sombria, exibindo cinco figuras encapuzadas sob um céu enegrecido. Mesmo sem saber exatamente do que se tratava, aquilo me deixou imediatamente fascinado. Só mais tarde percebi que “Souls of Black” (1990) se tornaria um dos registros mais presentes da minha vida. A partir dali, já inserido na realidade dos anos 1990, sem internet e suas facilidades, fui adquirindo a discografia aos poucos, sempre com dificuldade. Eram tempos duros para um colecionador, mas, ao mesmo tempo, carregados de um romantismo que hoje faz falta.
Com essa lembrança pessoal em mente, nem preciso dizer o quanto fiquei satisfeito ao receber este novo álbum dos caras em 2025. “Para Bellum” chegou ao público pela Nuclear Blast Records e ganhou licença no Brasil via Shinigami Records, que entregou um produto impecável, sem dever nada aos padrões europeus e norte-americanos. Foi dentro desse contexto positivo que iniciei a audição, já esperando algo que não se limitasse a repetir fórmulas seguras.
“Para Bellum” foi registrado em diferentes estúdios, com destaque para o californiano Trident Studios, onde todas as sessões de bateria foram gravadas sob a condução de Chris Dovas. Já os processos de mixagem e masterização ficaram a cargo da equipe do Fascination Street Studios, em Örebro, na Suécia, garantindo a clareza sonora necessária. O resultado é um som encorpado, bem definido, que mantém o TESTAMENT como referência quando o assunto é Thrash Metal. Nesse ponto, não há qualquer dúvida.
Lembra quando mencionei que a trupe liderada por Chuck Billy nunca se acomoda totalmente? Pois bem, logo nos primeiros momentos da abertura, “For the Love of Pain”, o ouvinte percebe uma conexão direta entre o Thrash Metal tradicional e riffs bastante próximos do Black Metal. Não é exagero. Os músicos conseguiram fundir dois subgêneros aparentemente distantes, alcançando um resultado surpreendente. Essa ousadia foi suficiente para derrubar qualquer receio que eu pudesse ter em relação ao álbum.
Na sequência, “Infanticide A.I.” surge flertando abertamente com o Death Metal, amparada por arranjos elegantes de Alex Skolnick dentro de uma construção primorosa idealizada por Eric Peterson. “Shadow People” vem mais contida, reduzindo a velocidade, antes da moderna “High Noon”. Já “Witch Hunt” volta a dialogar com a velha escola do Death Metal. A diversidade de referências aqui é evidente e funciona a favor do conjunto.
A balada “Meant to Be”, mesmo envolta na polêmica sobre a participação cancelada de Floor Jansen (Nightwish, ex-After Forever), se destaca como um dos momentos mais marcantes do registro. Ela tem tudo para figurar ao lado de clássicos como “Return to Serenity” e “The Ballad”. Vale reforçar que a ausência de Floor chama atenção, pois a canção parece ter sido pensada para ela, inclusive permitindo imaginar sua voz em vários trechos. Uma pena que a colaboração, dada como certa pela mídia especializada, não tenha se concretizado.
“Havana Syndrome” apresenta o lado mais melódico do TESTAMENT, trazendo consigo o melhor refrão do álbum e, possivelmente, o solo mais inspirado de Skolnick. O encerramento fica por conta da faixa-título, que aposta em um direcionamento mais experimental e pode dividir opiniões. Confesso que precisei de algumas audições para compreender certas bases e escolhas, mas esse desafio faz parte quando se está diante de um full-length tão rico.
Ao concluir este texto, sigo ouvindo “Para Bellum”, tentando captar novos detalhes escondidos em suas camadas. A cada nova experiência com ele, fico mais imerso na proposta e entendo melhor as intenções por trás de cada composição. Posso afirmar, sem receio, que este novo ataque do TESTAMENT não é linear, transitando por caminhos variados, por vezes tortuosos, mas que convergem para um mesmo ponto. Tudo soa coeso, com as faixas conectadas entre si, provando que o quinteto envelheceu bem e segue relevante dentro da cena.