Artista: Soulfly
País: Estados Unidos
Álbum: Chama
Gravadora: Nuclear Blast Records
Licenciamento: Shinigami Records
Versão: Compact Disc
Ano de Lançamento: 2025
Podemos acusar Max Cavalera de tudo, menos afirmar que o cara é preguiçoso. À frente de diversos projetos no decorrer dos últimos anos, como Killer Be Killed, Go Ahead and Die, Nailbomb, além da sua atual prioridade em revisitar os seus tempos de Sepultura com o Cavalera, ao lado do seu irmão Iggor, o músico ainda arrumou tempo para se dedicar ao SOULFLY, nos apresentando o seu décimo terceiro capítulo da saga, intitulado “Chama”. Mas a pergunta que fica é: será que ele conseguiu superar o meu preferido da sua discografia, o clássico “Dark Ages” (2005)? É o que vamos ver a seguir…
O novo material contou com a produção de seu filho e baterista da banda, Zyon Cavalera, o que permitiu que Max se concentrasse apenas nas músicas. E, pelo resultado obtido em “Chama”, eu sinceramente acredito que esta decisão tenha sido a melhor escolha para o momento. Tanto que a roupagem sombria se tornou a tônica, inserida em um ecossistema musical que dialoga com o Industrial e com o lado mais groovado do Modern Metal. Sim, aqui temos o dedo de Zyon Cavalera em praticamente tudo, inclusive nas muitas passagens que contêm os grooves que o seu coroa tanto ama. Um belo acerto, até porque o rapaz sabe como o pai compõe e respeita a linguagem!
Para enriquecer o conteúdo encontrado em “Chama”, Max usou da sua força política e credibilidade para trazer para si um timaço de artistas que fazem parte do seu universo artístico. O guitarrista Dino Cazares, do Fear Factory, emprestou o seu talento para a pesada “No Pain = No Power”, e o mesmo podemos dizer sobre Todd Jones (Nails), em “Nihilist”, além do virtuoso Michael Amott (Arch Enemy), com uma ótima passagem em “Ghenna”. E as surpresas não param por aí, já que os vocalistas Ben Cook (No Warning) e Gabe Franco (Unto Others) fizeram um dueto arrasador em “No Pain = No Power”, agregando valor ao registro — isso sem contar as intervenções de Igor Amadeus Cavalera no baixo e as contribuições de Mike DeLeon, com riffs e solos, ao longo do álbum. Está bom ou quer mais, caro leitor?
Outro ponto importante na obra é que ela se trata de um ambicioso produto conceitual. A narrativa acompanha um jovem que luta para sobreviver nas favelas do Brasil. Em meio ao caos ao seu redor, ele desperta uma faísca em busca de algo maior e parte rumo à selva amazônica, embarcando em uma jornada de reconexão espiritual com tribos nativas. Ou seja, temos aqui um compositor bastante inspirado e que não foge das suas raízes brasileiras para passar a sua mensagem. Mesmo com tantos anos morando nos Estados Unidos, constatar que Max mantém a cultura do seu país natal viva na musicalidade do SOULFLY é algo animador.
Apesar de vários atrativos, “Chama” me deixou um gosto agridoce na boca, já que é um full-length extremamente curto. Se contarmos apenas as composições propriamente ditas, teremos algo em torno de 25 minutos de duração, o que considero muito pouco para um trabalho assinado por Max. A sensação de que falta algo ao título é latente, já que as faixas aqui reveladas, de fato, se mostraram insuficientes durante a minha experiência. “Storm the Gates” é um belo exemplo, já que a sua intensidade, proveniente dos já mencionados grooves, me remeteu imediatamente ao debut de 1998. Um verdadeiro soco no estômago dos mais céticos e que merecia ser acompanhada por pelo menos mais três outras na mesma toada!
“Nihilist” é bem pujante e ganhou ainda mais força por conta de Todd Jones (Nails), que ajudou a torná-la mais variada do que sua antecessora. O direcionamento para o Industrial ficou bem às claras nela, e a tal roupagem moderna revelou contornos de maior protagonismo no decorrer da bolachinha com as chegadas de “Favela/Dystopia” e “Black Hole Scum”. A primeira, inclusive, é a que mais gostei dentre todas, principalmente por ostentar uma das melhores bases do CD. Me senti instigado ao headbanging durante a sua execução, por conta do seu teor nostálgico, que me levou a rememorar, inclusive, alguns dos melhores resultados do compositor com o Sepultura. A nervosa “Ghenna” merece também destaque neste texto, já que nela temos o contraste da barulheira dissonante do Industrial com um belo e melodioso solo de Michael Amott. Interessante, para dizer o mínimo, e impossível não nos lembrarmos do Ministry dos anos 1990.
É uma pena que o álbum não ofereça mais canções. Pela primeira vez, é possível dizer que o SOULFLY entrega menos do que poderia. Entretanto, “Chama” agrada por ser um fonograma intenso, forte e direto. Só não precisava ser tão direto assim, não é verdade?! Quando você menos espera, ele acaba e temos que retornar para a introdução “Indigenous Inquisition”, com o seu providencial apelo aos rituais indígenas das tribos da Amazônia, como já explorado à exaustão desde o celebrado “Roots” (1996). Para quem conhece o SOULFLY de outras eras, não encontrará grandes surpresas.
Formação:
Max Cavalera (vocalista, guitarrista, baixista)
Zyon Cavalera (baterista, percussionista)
Tracklist:
01. Indigenous Inquisition
02. Storm the Gates
03. Nihilist
04. No Pain = No Power
05. Ghenna
06. Black Hole Scum
07. Favela/Dystopia
08. Always Was, Always Will Be…
09. Soulfly XIII
10. Chama
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