Com mais de 3 décadas de atividades ininterruptas, o ROTTING CHRIST é uma daquelas bandas que realmente dispensam apresentações. Mesmo o admirador mais casual de Metal Extremo conhece e respeita o nome como um dos mais representativos do Black Metal europeu. Desde o lançamento de “Thy Mighty Contract”, em 1993 — seu marcante LP de estreia —, Sakis Tolis vem conduzindo uma sequência de trabalhos que, com frequência, impactam diretamente a cena. Com “Pro Xristou”, esse histórico de relevância se mantém.
“Pro Xristou”, o décimo quarto registro de estúdio do time, foi gravado no Deva Sounds Studios, em Atenas, na Grécia, e teve sua pós-produção realizada na Suécia, mais precisamente no Fascination Street Studios. O desfecho não poderia ser mais positivo: novamente, o disco apresenta o elevado padrão técnico que consagrou o ROTTING CHRIST ao longo da carreira. Com Sakis à frente de todas as etapas do processo de gravação, temos, outra vez, um material coeso, sólido e envolvente do início ao fim.
A arte da capa é, literalmente, uma verdadeira obra artística. A imagem, intitulada “Destruição”, integra a série de pinturas “O Curso do Império”, de Thomas Cole (1801–1848). Para alguns, pode parecer uma solução cômoda recorrer a uma tela de domínio público para ilustrar um novo full-length, mas, pessoalmente, acredito que a escolha tenha sido motivada pela forte conexão simbólica com as letras. Aliás, todo o conteúdo do longplay é profundamente interligado e, conhecendo o cuidado quase artesanal desses gregos, fica evidente que nada foi decidido por acaso.
No campo musical, aquilo que para mim surge como um ponto altamente positivo pode, para parte do público, representar o principal motivo de desinteresse. “Pro Xristou” entrega exatamente o que se espera do ROTTING CHRIST, sem experimentalismos ou desvios estéticos, sustentando estruturas cadenciadas, passagens narradas, melodias marcantes e riffs inconfundíveis, claramente associados a registros como “A Dead Poem” (1997) e “Sleep of the Angels” (1999). Em outras palavras, não há novidades relevantes, e tudo permanece fiel à fórmula consolidada nos anos 1990. A bolachinha soa repetitiva? Sim, em vários aspectos. Ainda assim, confesso que prefiro esse momento à fase em que o quarteto optou por desenvolver suas temáticas líricas em grego, como ocorreu no mediano “Rituals” (2016).
Na prática, gostei bastante de “Pro Xristou”, sobretudo porque eu buscava justamente reencontrar um ROTTING CHRIST conectado à sua fase mais inspirada, e Sakis entrega exatamente isso. Faixas como “Like Father, Like Son” e “La Lettera del Diavolo” me transportaram imediatamente para outra época, quando os caras ainda integravam o respeitado catálogo da Century Media Records. É impossível não lembrar da lendária “Out of the Dark Tour” (1996), que reuniu nomes como Moonspell, The Gathering, Sentenced, Samael e Crematory — um verdadeiro retrato de um período absolutamente especial do Metal europeu.
“Pix Lax Dax” é outra das minhas prediletas. Com corais muito bem encaixados, riffs que carregam a assinatura inconfundível de Tolis e linhas vocais capazes de arrancar um sorriso até do banger mais sisudo, a faixa acabou se tornando presença obrigatória na atual turnê. Não por acaso, se estivesse posicionada no meio da tracklist de “A Dead Poem”, o ouvinte mais desatento dificilmente perceberia qualquer diferença, tamanha a proximidade estética. Mais uma vez, admito que apreciei essa familiaridade justamente pela previsibilidade, ainda que compreenda perfeitamente as críticas direcionadas a esse aspecto.
Como admirador de longa data — e não apenas sob a ótica jornalística —, encerro minha audição de “Pro Xristou” plenamente satisfeito. Após as experiências realizadas em alguns registros anteriores, esse retorno à sonoridade clássica do ROTTING CHRIST soa, para mim, como um verdadeiro presente. Estarei na sua passagem pelo Brasil, em 2025, e espero conferir ao vivo pelo menos 4 faixas deste CD, que já se tornou o meu preferido da discografia desde “A Dead Poem”.