Acredito poder afirmar, sem exagero, que jamais havia ouvido outro artista oriundo da cidade paulista de Capivari. Aliás, se não fosse o surgimento do QUEIRON, impulsionado pelo debut “Impious Domination”, de 2002, talvez eu sequer soubesse da existência desse município. Curiosamente, de uma região marcada pelo clima interiorano e com cerca de cinquenta mil habitantes, emergiu um dos representantes mais relevantes do Metal Extremo produzido no país, algo que por si só já desperta atenção.
O QUEIRON deu seus primeiros passos na segunda metade da década de 1990, mas foi apenas nos anos seguintes que consolidou sua posição como um dos nomes mais respeitados do Death Metal nacional. Trilhando um caminho pavimentado por referências como o Krisiun, especialmente pela velocidade e agressividade vistas em álbuns como “Black Force Domain” (1995) e “Apocalyptic Revelation” (1998), os paulistas passaram a disponibilizar discos que se tornaram verdadeiras joias do segmento. Entre eles, destacam-se o já citado “Impious Domination” e o impiedoso “The Shepherd of Tophet”, de 2008.
Com o passar dos anos, ficou evidente que a escrita do QUEIRON passou por um processo consistente de amadurecimento. Essa evolução culmina em “Dwelling at Opposite Slime”, disponibilizado no território nacional pela incansável Mutilation Productions. O novo petardo veio à tona após um intervalo de sete anos em relação ao antecessor “Endless Potential of a Renegade Vanguard” e, mesmo sem reinventar a roda, acaba se firmando como um capítulo sólido dentro de sua trajetória no submundo extremo.
Com oito faixas, “Dwelling at Opposite Slime” pouco se afasta do que já havia sido apresentado anteriormente. O que se ouve é o mesmo Death Metal veloz, visceral e encorpado de outrora, agora enriquecido por arranjos e solos mais melodiosos nas seis cordas. Logo na abertura, “Manifest of Voluplous Segment” entrega essa faceta ao apostar em uma introdução instrumental mais longa, surpreendendo positivamente e deixando claro que o quarteto não estava totalmente disposto a permanecer em sua zona de conforto.
Na sequência, “Dwelling at Opposite Slime” e “Ineroxable Devourer of Sinful Trinity” mantêm o ritmo acelerado, sem concessões ou respiros. A progressão da tracklist é perceptível e funciona bem, embora em “Pallid Symbol of Defeat” surja um problema recorrente na mixagem. Os solos aparecem em volume excessivo, prejudicando a percepção das bases e da cozinha. Após ouvir o registro em diferentes equalizações e até em estúdio, a sensação permaneceu. Pode ter sido uma escolha consciente, mas, particularmente, não funcionou de forma satisfatória para mim.
“God Is Not Here Today” surge como outro ponto alto. Inspirada no clássico filme “O Exorcista” (1974), apresenta maior variação estrutural, ainda que o senso de urgência continue sendo o fio condutor. O encerramento se dá com “Feast of Flesh and Blood”, novamente valorizada por ótimos solos, embora o incômodo já citado acabe ofuscando um pouco de sua aura mais primitiva.
No balanço final, “Dwelling at Opposite Slime” se mostra uma excelente opção para apreciadores do Death Metal. Para quem já acompanha a trajetória do QUEIRON, não há motivos para frustração: a seriedade e o comprometimento com o Metal da Morte permanecem intactos, reforçando a relevância desse nome dentro do cenário extremo nacional.