OPINIÃO: o legado sombrio do black metal norueguês
Postado em 01/10/2026


Lançado originalmente no circuito de festivais em 2008 e chegando aos cinemas em 2009, “Until the Light Takes Us”, dirigido por Aaron Aites e Audrey Ewell, parte de um dos capítulos mais controversos da história da música extrema: a formação da segunda onda do Black Metal norueguês no início dos anos 1990. Com 93 minutos de duração, o documentário evita a estrutura tradicional de uma investigação jornalística cronológica e prefere construir um retrato subjetivo a partir de personagens como Gylve “Fenriz” Nagell, Varg Vikernes, Jan Axel “Hellhammer” Blomberg, Abbath, Demonaz, Frost, Bård “Faust” Eithun e outros envolvidos direta ou indiretamente naquele ambiente. Os diretores passaram dois anos na Noruega e optaram por deixar os protagonistas falarem sem a presença constante de narradores ou especialistas, uma escolha que ajuda a preservar a atmosfera de isolamento do movimento, mas também cria uma das principais limitações da obra: muitas afirmações controversas permanecem sem contraponto imediato.

O mérito inicial de “Until the Light Takes Us” está justamente em não reduzir aquela geração a uma sucessão de manchetes sobre incêndios, assassinatos e suicídios. O filme procura compreender por que um grupo relativamente pequeno de jovens músicos desenvolveu uma estética tão radical em um país frequentemente associado à estabilidade social, ao alto padrão de vida e a uma forte estrutura institucional. Nesse contexto, o Black Metal surgiu como uma reação artística e cultural contra aquilo que alguns de seus integrantes percebiam como homogeneização da sociedade, cristianização da história norueguesa e avanço da cultura comercial. A fala de Fenriz e, sobretudo, as reflexões de Vikernes apresentam duas interpretações diferentes dessa revolta: uma mais artística e individualista, outra vinculada à identidade cultural, ao paganismo e a uma rejeição muito mais ampla da sociedade contemporânea.

Essa dimensão cultural é indispensável para compreender a importância dos incêndios de igrejas. A destruição de templos cristãos não pode ser tratada simplesmente como uma extensão da estética satânica presente em capas e letras. Fantoft, incendiada em 1992, tornou-se o símbolo mais conhecido de um conflito que envolvia memória, religião e identidade histórica. A própria pesquisa arqueológica sobre o episódio classifica a destruição da igreja como um ataque ao patrimônio cultural, lembrando que a construção remontava ao período medieval. O incêndio, portanto, atingiu simultaneamente uma instituição religiosa e um objeto material da história norueguesa. A associação posterior da imagem das ruínas com “Aske”, do Burzum, ampliou ainda mais essa transformação do crime em símbolo cultural.

É justamente nesse ponto que a história do Black Metal ultrapassa os limites da música. A onda de incêndios, que atingiu dezenas de igrejas na Noruega, obrigou sociedade, imprensa, autoridades e instituições responsáveis pelo patrimônio a confrontarem uma forma de violência que misturava expressão artística, provocação ideológica e criminalidade. O próprio Store norske leksikon registra que aproximadamente um terço de cerca de cinquenta incêndios de igrejas ocorridos naquele período pode ser relacionado a fãs ou integrantes do ambiente do Black Metal. A cena deixou, assim, de ser apenas uma comunidade musical subterrânea e passou a interferir concretamente na relação do país com seu patrimônio religioso e medieval. O episódio também demonstra como uma manifestação originalmente pequena pode produzir consequências muito maiores quando transforma símbolos coletivos em alvos de contestação.

O impacto econômico surgiu de maneira paradoxal. Aquilo que os primeiros integrantes pretendiam manter distante do mercado acabou se convertendo em um dos produtos culturais noruegueses mais reconhecidos internacionalmente. Mayhem, Darkthrone, Burzum, Emperor, Immortal, Satyricon e Ulver, entre outros, passaram de uma esfera subterrânea para um circuito global de discos, festivais, merchandising, imprensa especializada e turismo. Estudos sobre o chamado “blackpacking” identificaram posteriormente a existência de visitantes interessados em conhecer lugares relacionados à história do movimento, incluindo a região de Fantoft, além do crescimento de festivais e atividades turísticas associadas ao gênero. A contradição é evidente: uma cultura que nasceu parcialmente da rejeição à mercantilização passou a gerar valor econômico justamente por causa de sua história de isolamento, transgressão e violência.

O documentário percebe essa contradição, embora não a explore com a profundidade que poderia. Fenriz aparece como uma espécie de testemunha de um movimento que perdeu sua condição de segredo. A presença de Bjarne Melgaard e de manifestações artísticas inspiradas no Black Metal reforça a transformação daquele imaginário em linguagem artística consumível por públicos que não participaram da cena original. O problema é que a obra poderia ter desenvolvido melhor o contraste entre autenticidade e mercado. Críticos observaram justamente que o filme identifica a comercialização, mas não aprofunda suficientemente o processo pelo qual uma subcultura construída em oposição à cultura dominante passou a ser absorvida por galerias, moda, festivais e indústria fonográfica.

Outro aspecto fundamental é a relação entre mídia e construção de identidade. A imprensa norueguesa teve papel decisivo na transformação de acontecimentos inicialmente restritos a um pequeno círculo de músicos em um fenômeno nacional e, posteriormente, internacional. O vocabulário do satanismo, da violência e do extremismo oferecia à imprensa uma narrativa facilmente assimilável, enquanto a realidade ideológica daquele ambiente era consideravelmente mais fragmentada. Havia anticristianismo, paganismo, nacionalismo, niilismo, individualismo, teatralidade e, em determinados casos, posições políticas extremas que não podem ser colocadas sob uma única definição. Estudos acadêmicos sobre a segunda onda norueguesa mostram justamente como a imprensa ajudou a enquadrar a cena sob a ideia genérica de “mal”, enquanto os próprios participantes apresentavam motivações muito diferentes.

Nesse aspecto, “Until the Light Takes Us” estabelece um diálogo inevitável com “Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground”, de Michael Moynihan e Didrik Søderlind. Publicado originalmente nos anos 1990 e posteriormente ampliado, o livro tornou-se uma das obras mais conhecidas sobre o período por reunir entrevistas, documentos judiciais, relatos de primeira mão e informações sobre os incêndios, o suicídio de Dead, o assassinato de Euronymous e a formação do chamado Inner Circle. Enquanto “Lords of Chaos” se aproxima de uma investigação documental mais convencional, o filme privilegia atmosfera, depoimentos e memória pessoal. As duas obras, entretanto, também demonstram como a história do Black Metal permanece marcada pela disputa entre versões dos próprios envolvidos, registros jornalísticos e interpretações posteriores.

Outra referência indispensável é “Black Metal: Evolution of the Cult”, de Dayal Patterson, especialmente em sua edição ampliada e definitiva. Diferentemente do documentário, Patterson procura inserir a segunda onda norueguesa dentro de uma genealogia muito mais extensa, relacionando suas origens a Venom, Bathory, Mercyful Fate, Hellhammer, Celtic Frost, Sarcófago e outras manifestações anteriores. Essa perspectiva é importante porque impede que a Noruega seja tratada como o ponto de nascimento absoluto do gênero. O país foi decisivo para a consolidação de uma estética e de uma identidade específicas, mas aquela geração também reinterpretou elementos que já circulavam internacionalmente. Com mais de uma centena de entrevistas ao longo de suas diferentes edições, a obra de Patterson funciona como contraponto documental à abordagem mais impressionista de Aites e Ewell.

A maior força de “Until the Light Takes Us”, portanto, está também em sua maior fragilidade. A película entende que o Black Metal não pode ser explicado apenas pelos crimes, mas acaba dedicando pouco espaço à própria música: há relativamente poucas apresentações, trechos reduzidos das gravações e uma trilha sonora que frequentemente privilegia atmosferas eletrônicas e ambientais em vez de permitir que o gênero se manifeste plenamente. Essa escolha pode ser interpretada como uma tentativa de fazer um filme sobre a cultura, e não simplesmente sobre a música, mas deixa uma lacuna considerável. Críticas publicadas à época apontaram que um espectador desconhecedor do gênero dificilmente compreenderia, somente através do documentário, por que trabalhos do Mayhem, Darkthrone, Emperor, Immortal, Satyricon ou Burzum adquiriram tamanha importância artística.

Ainda assim, o valor histórico da produção permanece significativo porque ela registra um momento em que os protagonistas já observavam o próprio passado com uma mistura de ressentimento, nostalgia e desconforto diante da transformação da cena em fenômeno internacional. A trajetória do Black Metal norueguês revela, nesse sentido, uma ironia difícil de ignorar: uma cultura criada para escapar da sociedade acabou modificando a maneira como parte do mundo enxergava a Noruega; uma estética construída contra a comercialização tornou-se mercadoria; ataques dirigidos contra símbolos religiosos transformaram-se em memória turística e patrimônio narrativo; e uma comunidade que pretendia permanecer invisível tornou-se objeto de livros, filmes, exposições, pesquisas acadêmicas e festivais. “Until the Light Takes Us” é particularmente interessante justamente por registrar essa passagem. Seu maior mérito não está em oferecer a palavra definitiva sobre o Black Metal norueguês, algo praticamente impossível, mas em revelar como música, violência, patrimônio, identidade nacional, mídia e economia cultural se cruzaram em um episódio que ultrapassou definitivamente os limites de uma cena musical.

Uma leitura conjunta de “Lords of Chaos e Black Metal: Evolution of the Cult” também ajuda a relativizar uma das limitações de “Until the Light Takes Us”: a tendência de concentrar a história em um núcleo reduzido de personagens e acontecimentos. “Lords of Chaos”, publicado originalmente em 1998 e posteriormente ampliado, baseia sua reconstrução em entrevistas, documentos judiciais, relatórios policiais e relatos de pessoas ligadas à cena, colocando incêndios, assassinatos, ideologias e conflitos internos no centro da narrativa. Já Dayal Patterson procura ampliar consideravelmente esse horizonte. O autor argumenta que a história do Black Metal não deveria ser reduzida à Noruega entre 1991 e 1993, lembrando que o gênero possui raízes internacionais e que sua trajetória passa por nomes como Venom, Bathory, Hellhammer, Celtic Frost, Sarcófago, Master’s Hammer, Tormentor, Samael e Rotting Christ, entre outros. Essa perspectiva é especialmente importante porque devolve à música uma posição que frequentemente acaba subordinada à violência na narrativa popular sobre o movimento.

O conceito de “blackpacking”, analisado academicamente no campo do turismo sombrio, acrescenta outra camada particularmente reveladora à história. Pesquisadores identificaram que fãs passaram a viajar pela Noruega não apenas para assistir a shows ou festivais, mas para conhecer locais associados à trajetória da cena, como a antiga loja Helvete, em Oslo, e espaços relacionados aos episódios de violência dos anos 1990. Fantoft tornou-se um exemplo extremo dessa transformação: um local marcado pela destruição passou a integrar o imaginário turístico construído em torno do Black Metal, enquanto a fotografia das ruínas utilizada em “Aske”, do Burzum, ajudou a converter o episódio em uma imagem duradoura da cultura do gênero. O estudo sobre esses visitantes demonstra ainda que parte dessa experiência nasce do desejo de confrontar a paisagem real com a imagem criada por fotografias, relatos jornalísticos, capas de discos e documentários. O resultado é uma ironia histórica bastante expressiva: acontecimentos que pretendiam representar rejeição à sociedade e à religião acabaram contribuindo, décadas depois, para uma forma específica de consumo cultural, movimentando viagens, festivais e atividades econômicas relacionadas à memória daquela própria subcultura.

 
Categoria/Category: Matérias

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