NERVOSA: Ninguém Nasce para Servir Nesta Máquina de Escravos
Postado em 18/09/2026


Artista: Nervosa (Brasil)
Evento: Slave Machine Tour
Cidade/Estado/País: Teresina – Piauí – Brasil
Local: Bueiro do Rock
Data: 18 de Setembro
Ano: 2026
Produtora: Underground Produções

Já se passaram dois longos anos desde o nosso último contato com as meninas da NERVOSA no antigo Summer Breeze Brasil, atual Bangers Open Air. Na ocasião, elas ainda estavam promovendo o formidável “Jailbreak”, além de introduzir Prika Amaral como a nova voz da banda para o público brasileiro, saindo-se muitíssimo bem em ambas as ações. Agora, em 2026, com a chegada do seu novo álbum, “Slave Machine”, estão novamente se aventurando pelo país, dando a sua cara a tapa com extrema responsabilidade e profissionalismo. Partindo deste ponto, com a confirmação de uma data na capital piauiense, Teresina, não podíamos deixar de conceder o nosso apoio com a nossa presença, visando uma cobertura exclusiva para este humilde portal.

A produção foi taxativa em confirmar o início dos trabalhos para as 20h30 em ponto, diante da logística apertada com relação ao compromisso firmado pelo quarteto para Fortaleza, no dia seguinte. Preferimos não arriscar e, ainda que todos saibam da completa falta de pontualidade dos eventos realizados em terras brasileiras, rumamos com certa gordurinha de tempo extra para o Bueiro do Rock com o objetivo de, também, acompanharmos a integridade do set da atração de abertura: a teresinense Retalhador. E foi com os olhos sempre atentos ao relógio que chegamos ao local e fomos direto para a mesa de merchandising, para alimentarmos o nosso vício por produtos físicos, além de ser uma baita ajuda para que as moças continuem com um bom fluxo de caixa para a jornada que estava apenas se iniciando.

Mal finalizamos as nossas compras, que se resumiram a uma edição importada em vinil formato gatefold de “Slave Machine”, além do CD digipack de “Jailbreak”, e recebemos a informação de que a NERVOSA seria a primeira a subir ao palco, jogando a Retalhador para o encerramento das atividades. A princípio, não nos pareceu estranho, devido ao simples fato de que, anteriormente, os produtores foram muito cuidadosos na ênfase da aplicação radical do horário anunciado, dando pistas muito claras de que o ritmo seria extremamente frenético, o que de fato veio a se confirmar poucos minutos após rumarmos para a área reservada para o palco principal do estabelecimento.

E foi com um cenário simples, contando apenas com um pano de fundo contendo a arte de “Slave Machine”, e pouca iluminação, com a predominância de luzes na cor azul-escura, que Prika Amaral (guitarra e voz), a grega Helena Kotina (guitarra), a holandesa Emmelie Herwegh (baixo) e a excelente baterista búlgara Michaela Naydenova chegaram chutando a porta diante das pouco mais de cem pessoas que estavam por ali. A curtíssima introdução, com as musicistas de costas, revelou, na sequência, a ótima trinca de abertura composta por “Impending Doom”, do título mais recente, “Seed of Death”, de “Jailbreak” (2023), e “Masked Betrayer”, resgatada do seu longínquo EP de 2012 “Time of Death”. Pois é, nada como um pouco de imprevisibilidade para pegar pelo coração o seu fã mais antigo, que as acompanha desde os primórdios.

Naquela altura, era nítido que, para cumprir com todo o setlist programado, a apresentação deveria ser a mais direta quanto possível. Então, foram poucos os trechos reservados para que Prika se comunicasse com a audiência. Não posso dizer que tal circunstância me agradou como espectador, mas não houve qualquer tipo de comprometimento na habilidade apresentada pelas garotas em cena, como ficou evidente em “Ghost Notes” e “Perpetual Chaos”, do homônimo de 2021 e que contava com a presença de Diva Satanica nos vocais. E por falar em vozes, o que ficou bastante claro é que Prika agora está cem por cento à vontade na nova função, desempenhando muito bem o canto em paralelo à execução dos riffs e bases complexos que as suas composições ostentam. E não é apenas isso! A loira consegue chamar a atenção para si como poucas neste ramo, demonstrando desenvoltura e altas doses de carisma. Impecável!

“Behind the Wall” e “Nail the Coffin”, ambas de “Jailbreak”, foram as seguintes e ajudaram a consolidar a formação atual, que está mais enxuta, após a saída da antiga baixista Hel Pyre. A massa sonora despejada nos bangers pela NERVOSA alimentou a fome que a carente plateia nordestina ostenta com a escassez de iniciativas ligadas ao Metal Extremo e que possuam padrão de qualidade internacional. E foi sabendo disso que a democracia imperou no repertório com o anúncio de “Death”, clássica do debut de 2014 “Victim of Yourself” e o melhor registro da fase que contava com Fernanda Lira (Crypta). Inclusive, foi justamente nela que Prika pediu interação dos presentes, sendo prontamente atendida com gritos na chegada do marcado refrão “Death… Death… Death”. Muito legal de ver, com toda certeza.

Outro destaque foi “Kill the Silence”, do subestimado “Downfall of Mankind” (2018), que precedeu um breve discurso de conscientização política contra a idolatria aos agentes públicos do governo, antes do anúncio de “You Are Not a Hero”, novamente de “Slave Machine”. Por sinal, como essa música caiu bem ao vivo. Acredito que, daqui por diante, ela terá lugar cativo nas próximas turnês da NERVOSA pelo mundo. O mesmo posso afirmar com relação a “Endless Ambition”, de “Jailbreak”, e “Guided by Evil”, de “Perpetual Chaos”, levando em conta a reação das pessoas e por terem estruturas que conseguem manter a adrenalina da experiência lá em cima.

Com uma breve pausa na pancadaria, Prika aproveitou para agradecer a presença de todos, pelo suporte, e aproveitou para apresentar a sua nova line-up, com nítida e positiva repercussão para Naydenova, que se mostrou consistente durante toda a sua performance, transmitindo solidez e segurança para a linha de frente do time. Talvez esta seja a mais refinada equipe da NERVOSA em toda a sua trajetória, e isso se reflete diretamente no primor alcançado em “Slave Machine”, que consegue elevar exponencialmente o sarrafo qualitativo demonstrado em “Jailbreak”. E por falar em “Slave Machine”, a faixa-título veio em seguida como forma de endossar todos os meus elogios à referida obra. Uma pancada Death/Thrash que não tem como passar despercebida em qualquer aparição que esse pessoal venha a estabelecer. Obrigatória, para dizer o mínimo!

“Jailbreak” foi a última, após um efusivo pedido de desculpas por parte de Prika Amaral, diante da falta de possibilidade para atendimento aos seus fiéis seguidores. E, de fato, o corre-corre foi intenso nos bastidores, com as garotas literalmente correndo para o camarim e o plantel de roadies se virando para desmontar todo o equipamento em velocidade digna de um pit-stop da atualmente insossa Fórmula 1. Então, como já mencionei anteriormente, foi lamentável tê-las na nossa amada cidade desta maneira, mas dos males o menor e, pelo menos, pudemos conferir de perto o novo e mais maturado estágio em que a NERVOSA se encontra.

Com a NERVOSA já no caminho para a rodoviária a toque de caixa, os guerreiros que permaneceram no Bueiro do Rock para a participação do Retalhador sofreram com uma enorme demora para a preparação do backline. A espera foi tanta que cogitamos abandonar o evento e só não o fizemos por conta da postura ética que priorizamos para fornecer o mais elaborado conteúdo possível para o portal da The Ghost Writer Magazine. E, quando a espera chegou ao fim, fomos agraciados com uma digna compilação de canções balizadas pelo Death/Thrash Metal, atesto.

Ainda promovendo o seu debut álbum de 2024, “Escória”, o quarteto comandado pelo guitarrista Helí Damasceno presenteou a todos com o seu full-length na íntegra, acrescido da demo “Hate and Destruction” (2007) também na sua totalidade. Sim, a preocupação aqui foi a de entregar um pacote completo, que ainda reservou um momento para lá de especial com a execução de “Darkest Forever”, da emblemática demo homônima da Dark Season de 2002. Eu creio que, por não haver outros nomes escalados para as festividades, a Retalhador conseguiu montar uma programação mais abrangente e que pudesse agradar aos gregos e troianos.

Jardel Carvalho se revelou ser um excepcional frontman, principalmente por não se limitar aos urros guturais característicos do gênero. O cara corre, bate cabeça o tempo todo, interage com os bangers e demonstra extrema entrega dentro do que é proposto, o que ficou perceptível em “Lei de Mercado”, “Escória” e “Cemitério”, esta última provavelmente a mais sólida dentre todas. Na mesma toada está o baterista Anderson “Fete” Felipe (Scrok), que se impôs como a escolha perfeita para substituir o veterano Adriano Rotten, como ficou incontestável ao constatarmos os novos arranjos empregados em tracks como “Cyborg”, “Fear is the Order” e a celebrada “Underground”, que foi dedicada aos comparecentes.

“Empire of Hate”, um dos pontos altos de “Escória”, veio antes da já mencionada “Darkest Forever”. E aqui cabe um elogio extra para os caras da Retalhador, pelo respeito e manutenção da história da cena piauiense, ao rememorar uma das principais composições de um dos artistas mais reverenciados do Metal feito no Piauí, no caso aqui o Dark Season. Infelizmente, naquele momento, já não havia um bom número de espectadores no recinto; entretanto, quem conseguiu vencer a barreira do cansaço pôde vivenciar algo realmente significativo.

Aos trancos e barrancos, com muita objetividade por parte da NERVOSA e espaço extra para que a coadjuvante Retalhador pudesse mostrar que também tem relevante poder de fogo, chegamos ao final de mais uma celebração do nosso underground nacional. Enquanto a trupe capitaneada por Prika Amaral ressaltou que está mais do que pronta para ser protagonista da sua própria trajetória, principalmente após o lançamento de “Slave Machine”, tivemos um open act, que se tornou closing act por forças impostas pelas circunstâncias, dignificando o seu papel de ser um representante de peso do cenário regional. Exceto pela correria, a noite se comprovou como uma extraordinária opção de entretenimento para quem se animou a sair de casa. E para quem não foi, apenas fica o meu lamento.

Retalhador Setlist:

01. Poison
02. Lei de Mercado
03. God for Sale
04. Horror Circus
05. Taste of Blood
06. Extermination Program
07. Escória
08. War Crimes
09. Cemitério
10. Cyborg
11. Fear is the Order
12. Executor
13. Underground
14. Empire of Hate
15. Darkest Forever (Dark Season cover)

Nervosa Setlist:

01. Impending Doom
02. Seed of Death
03. Masked Betrayer
04. Ghost Notes
05. Perpetual Chaos
06. Behind the Wall
07. Nail the Coffin
08. Death
09. Kill the Silence
10. You Are Not A hero
11. Endless Ambition
12. Guided By Evil
13. Slave Machine
14. Jailbreak

 
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