MORKALV: Quando a Cultura Nórdica Encontra o Black Metal Brasileiro
Postado em 03/09/2025


Natural de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, a horda MORKALV chegou à cena underground do país promovendo uma verdadeira viagem pela cultura nórdica, tendo como pano de fundo o Black Metal. Diretamente influenciada por nomes como Mayhem, Darkthrone e Immortal, o grupo lançou no mercado, em 2023, o excelente debut “An Ancient Cult to the Aesir”, através da Eternal Hatred Records, angariando uma verdadeira legião de seguidores. Formada por Marlon Zeferino (vocalista, guitarrista), Miro Nomura (guitarrista), Lucas Artioli (baixista) e Joey Colman (baterista), a banda é uma das atrações confirmadas na edição 2025 do Setembro Negro Festival, ao lado de ícones como Incantation, Triptykon e Overkill; então, nada mais justo do que abrirmos espaço em nosso portal para este novo representante das artes negras em solo nacional.

The Ghost Writer Magazine: A MORKALV deu os seus primeiros passos em 2022, na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Após mais de 3 anos e alguns lançamentos no cenário, como vocês avaliam os primórdios do projeto?

Joey Colman: Foi um início complicado em alguns aspectos, principalmente pelo fato de ter iniciado como um projeto que, a princípio, seria para que eu conseguisse expressar, mesmo que sozinho, as minhas ideias. Então eu vinha gravando alguns materiais e surgiu a vontade de transformar aquilo em um full-length, mesmo eu não sabendo se conseguiria fazê-lo. Na verdade, naquele momento, era muito importante terminar, mas eu via como a última coisa que eu ia fazer! Eu já tinha tocado em muitas bandas que não deram certo; por muito tempo, desprendi muito esforço em coisas que não rolaram por culpa de outras pessoas, então eu só queria fazer algo concreto, mesmo que sozinho. Acabou que virou um disco inteiro, quase todo criado e gravado por mim, na sala de casa, e acabou se desenrolando para um projeto mais sério! Acredito que é o mais importante em que eu já toquei até hoje, chegando, no início de 2023, ao ponto necessário de chamar outros integrantes para transformar essa onda inicial em uma horda.

The Ghost Writer Magazine: Em 2023 a horda soltou o excelente debut “An Ancient Cult to the Aesir”, que traz diversas referências relacionadas à cultura nórdica. O quão embasados nesse tema vocês estavam, para que as composições possuíssem a profundidade necessária para que todas funcionassem?

Joey Colman: Nós tínhamos em mente que queríamos um tema fechado. Eu, particularmente, sempre curti esse formato de arte, com um conceito fechado, em que todas as músicas giram ao redor de um tema específico. Na época, eu já havia pedido para um artista desenhar a capa e o encarte, então acho que foi uma das primeiras coisas que foram feitas por mim naquele período. Até então, havia saído somente um single, a música “Tyr”, então a gente curtiu bastante se aprofundar mais nessa vasta cultura. É legal ressaltar que os próximos materiais serão nesse formato de temas fechados, da mesma forma que foi o “An Ancient Cult to the Aesir”, independentemente de sobre qual cultura ou mitologia nós estivermos falando. Agora, especificamente sobre o primeiro disco, foi bem legal ser interlocutor da mensagem de seres da cultura nórdica. Nas músicas, não sou eu falando; me coloco como interlocutor daquele personagem, mostrando a visão de cada um sobre o meio em que está inserido.

The Ghost Writer Magazine: A arte da capa de “An Ancient Cult to the Aesir” é uma verdadeira obra de arte, nos moldes da antiga escola, com a ilustração feita à mão. Quem foi o artista que a compôs e o que ela representa para o álbum como um todo?

Joey Colman: Sim, eu tinha em mente que a capa teria que ser algo grandioso, bem no estilo da velha escola e desenhado à mão! Eu não sou fã de nenhum tipo de arte digital, então era bem nítido que a nossa capa tinha que ser old school; ela foi criada a partir do tema e a partir de algumas letras pelo artista Rubens Snitram (Azoth), desenhada a lápis primeiramente. Acho que ele conseguiu sintetizar primordialmente a ideia que foi passada e toda a temática em geral. Ela representa grande parte do disco e é o primeiro contato com esse álbum, por isso eu quis a versão física da melhor forma possível, com livreto, com as letras e a arte. Eu entendo que a representação de um ritual pagão foi uma sábia escolha do artista, porque sintetiza toda a mensagem que está sendo passada nas músicas: um culto, um ritual pagão e antigo.

The Ghost Writer Magazine: Ao contrário do que se poderia imaginar, a faixa de abertura do disco, “Jormungandr”, começa mais cadenciada, para depois partir para andamentos mais rápidos. Vocês acreditam que fugir do senso comum do gênero, com blast beats em profusão, seja o segredo para se destacar no cenário?

Joey Colman: Então, eu, particularmente, gosto bastante dessa quebra de expectativa, de ter guitarras clean fazendo melodias bonitas em contraste com riffs pesados. Não saberia dizer se esse é o segredo para se obter destaque, mas o que eu consigo enxergar sobre isso é que nós fazemos o que gostamos musicalmente. Eu escrevo um riff que eu gostaria de ouvir como público, o que me agrada musicalmente, então essa variação de guitarras limpas com riffs pesados é algo que eu realmente curto. Além disso, tal estética bebe da fonte de bandas da velha escola que eu cresci ouvindo! O Dissection é um exemplo claro, então as músicas que eu crio e gravo sempre têm essas variações, sendo algo bem característico.

The Ghost Writer Magazine: “Odin” é mais uma composição que começa bem intimista, com dedilhados calmos, que contrastam com o Black Metal. Mais uma faixa que procura a cadência para se sobressair na tracklist. Como se deu o seu processo de composição?

Joey Colman: “Odin” tem um riff inicial de que eu gosto bastante e é um pouco mais pessoal. Na época em que a escrevi, em meados do fim de 2022, eram tempos sombrios para mim. Eu tinha acabado de me mudar sozinho para um apartamento novo e eu passava dias sem conseguir dormir, então eu pensei em deixar tudo montado na sala, para, a qualquer momento que eu quisesse, era só sentar lá e criar algo. A “Odin” surgiu assim: eu acordei de madrugada sem conseguir dormir direito, acendi um cigarro na janela e esse riff que eu nunca tinha criado ficava soando na minha cabeça. Peguei uma guitarra e gravei ali mesmo, na hora; então, em umas duas horas, eu registrei a música inteira, sem composição prévia. Foi algo como válvula de escape naquele momento, então posso afirmar que o riff inicial cadenciado, depressivo e desolado era só o meu sentimento específico naquela noite sombria.

The Ghost Writer Magazine: Já a estrutura de “Surtr” foi a que mais gostei, ainda que se assemelhe um pouco a “Odin”. Nela percebi a banda preocupada com a parte mais violenta e visceral do Black Metal, mas sempre alternando momentos rápidos e cadenciados. Qual a mensagem por trás da letra de “Surtr”?

Joey Colman: Ficamos felizes que tenha curtido! Ela tem bastante variação, e a letra dela fala sobre esse aspecto de devorador de mundos, o qual Surtr trará a aniquilação para os 7 reinos daquela mitologia. A gente gosta bastante dessa variação entre riffs rápidos e coisas mais cadenciadas.

The Ghost Writer Magazine: “Remnants of War” é mais pujante e me remeteu aos principais nomes da cena norueguesa dos anos 1990. Presumo que ela venha obtendo uma enorme aceitação junto aos fãs da banda, estou correto?

Joey Colman: Sim, ela é uma música mais direta, mais reta e, ao vivo, também tem uma atmosfera sombria, tanto pelos riffs um pouco mais rápidos quanto pela bateria, que segura um pouco nos blast beats.

The Ghost Writer Magazine: Tratar de um tema tão complexo como a cultura nórdica requer muito estudo e paciência. Presumo que vocês devam ter pesquisado bastante, para ter um relevante conteúdo historiográfico em mãos. Quais autores e obras literárias vocês se debruçaram para realizar a composição de “An Ancient Cult to the Aesir”?

Joey Colman: Sim, a gente queria trazer o ponto de vista daqueles personagens inseridos naquela mitologia; não era necessariamente um estudo histórico ou falar especificamente sobre o que os povos antigos daquela região acreditavam. A ideia foi focar em como aqueles personagens se veem inseridos naquela cultura. Quanto às obras, a gente usou bastante coisa, mas acredito que um ponto forte foram as “Eddas”.

The Ghost Writer Magazine: A produção de “An Ancient Cult to the Aesir” o deixou sujo, até um pouco rústico, eu diria. Acredito que a MORKALV se aproxime mais de bandas do Raw Black Metal do que das vertentes mais “limpinhas” do gênero. Seguir por esse caminho foi algo pensado ou aconteceu naturalmente?

Joey Colman: Aconteceu naturalmente, até porque todo o trabalho foi feito por nós mesmos! A sonoridade que conseguimos ficou bem bacana, em relação ao tempo e ao trabalho desprendido nesse disco, mas confesso que será mais tranquilo terceirizar essa parte nos próximos discos. É um processo extremamente trabalhoso.

The Ghost Writer Magazine: Em 2024 fomos surpreendidos com o lançamento do EP “Mysanthropic Luciferian Order”, que contém 5 novas faixas, em pouco mais de dezesseis minutos de duração. Por qual razão optaram por lançar algo novo, com tão pouca diferença do seu antecessor?

Joey Colman: Depois do lançamento do primeiro disco, nós permanecemos com sede de criar mais, de ter mais material. Tinha muita coisa gravada que não entrou no primeiro álbum, aí pensamos em um EP. Contudo, absolutamente nada do que tínhamos foi aproveitado e acabamos criando o EP do zero, juntos.

The Ghost Writer Magazine: Ao escutar “Azerate”, consegui identificar a assinatura da MORKALV, contudo, ela soou melhor finalizada do que os hinos do álbum anterior. Você acredita que tal constatação faça parte de uma considerável evolução dos seus compositores?

Joey Colman: Acredito que sim. E isso se dá pelo fato de todos da banda terem participado ativamente em tudo! Literalmente, criamos e gravamos todo esse material juntos, nós quatro.

The Ghost Writer Magazine: “Sovereign Norther Throne” é mais rápida e violenta. Não por acaso, foi a que mais me chamou a atenção em “Mysanthropic Luciferian Order”. Vocês também acreditam que ela é o ponto alto desse material?

Joey Colman: Eu, particularmente, gosto bastante dessa, principalmente ao vivo. Ela tem uma atmosfera rápida, agressiva, que deságua em riffs melódicos, e isso me agrada muito. Ela certamente é um ponto alto nesse material.

The Ghost Writer Magazine: A MORKALV vem realizando diversos shows no Brasil e no exterior, tendo se apresentado ao lado de nomes como Mystifier, Masacre, Nervochaos, Funeratus, Ancestral Malediction e muitos outros. Como têm sido essas aparições ao vivo? Podem nos destacar os pontos altos e baixos dessas experiências?

Joey Colman: Tem sido incrível dividir o palco com tantas bandas gigantescas. Ficamos muito felizes por tudo que tem rolado e pelas oportunidades de mostrar o nosso trabalho. É importante para nós a conexão com tantas bandas importantes, e estar na estrada tem sido absolutamente fantástico. O underground tem muitos altos e baixos, situações que precisam ser contornadas, mas acho que, no fim, tudo que nós passamos tem valido a pena. Subir no palco e ver uma pessoa que mora bem longe da sua cidade com a camiseta da sua banda é algo gratificante demais.

The Ghost Writer Magazine: Ainda falando em shows, a MORKALV foi confirmada na edição 2025 do Setembro Negro Festival, que ocorrerá em São Paulo e que contará com alguns dos principais medalhões da música extrema mundial. Como se deu a negociação para que a banda estivesse no line-up e quais as suas expectativas com relação ao referido evento?

Joey Colman: Sim, estamos ansiosos para estar ao lado de tantas bandas de renome. Vai ser um dia memorável para todos nós. Quanto às negociações, nós já havíamos feito alguns shows com o Nervochaos e o Edu (Tumba Produções) já conhecia o nosso trabalho. Foi um convite que nos deixou muito animados, para que possamos continuar fazendo o que for possível para alcançar cada vez mais pessoas com as nossas músicas.

The Ghost Writer Magazine: Fomos informados que a MORKALV está finalizando o seu novo álbum, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2025. O que vocês podem nos adiantar sobre esse segundo full-length?

Joey Colman: Sim, estamos no processo desse novo disco; na verdade, até estamos atrasados, mas vai rolar. Esperamos conseguir lançar em meados de dezembro ou janeiro de 2026. É um processo bem trabalhoso, mas tem muita coisa foda por vir.

The Ghost Writer Magazine: Estimamos que o futuro da MORKALV seja próspero e repleto de vitórias. Agradecemos também pelo tempo cedido ao nosso veículo de comunicação. Se algum tema ficou de fora da pauta, este é o momento para inseri-lo…

Joey Colman: Agradecemos pelo trabalho em prol do Metal em nosso país. Agradecemos a cada um que nos acompanha e nos dá motivação para alcançar lugares cada vez mais distantes, como temos feito, e espero que a gente possa se ver por aí, na estrada, tocando e celebrando o Metal Negro como sempre.

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Categoria/Category: Entrevistas

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