MIASTHENIA: Espíritos Rupestres
Postado em 23/10/2024


Artista: Miasthenia
País: Brasil
Álbum: Espíritos Rupestres
Gravadora: Mutilation Productions
Licenciamento: Mutilation Productions
Versão: Compact Disc
Ano de Lançamento: 2024

Minha principal crítica ao Black Metal contemporâneo é o fato de que muitas bandas inseridas nesse gênero carecem de embasamento ideológico capaz de sustentar artefatos realmente instigantes, daqueles que convidam à reflexão durante a audição. Expressões como “Satan”, “evil” e “hell”, clichês absolutos desse vazio intelectual, são repetidas à exaustão e já não provocam o mesmo impacto observado nas décadas de 1980 e 1990. Arrisco dizer que, hoje, acabam afastando ouvintes mais atentos e criteriosos. Uma realidade, no mínimo, frustrante.

Na contramão desse quadro segue a caminhada da brasiliense MIASTHENIA desde 1994, tendo como grande diferencial a presença da musicista e historiadora Susane Hécate. São seis álbuns de estúdio ao longo de 30 anos de atividades ininterruptas, todos pautados por temáticas densas, funcionando quase como extensões acadêmicas de sua principal compositora. Em “Espíritos Rupestres”, novo full-length de 2024, Hécate supera expectativas ao criar um conto inédito que serve de eixo conceitual para as nove canções apresentadas.

Baseada em sua pesquisa sobre o Santo Ofício no Brasil Colônia, a autora constrói, em “A Bruxa Xamã”, uma narrativa em prosa poética sobre uma xamã guardiã de mistérios rupestres. Esse enredo se conecta de maneira orgânica ao Pagan Black Metal primitivo praticado pelo quarteto, aberto a inserções vindas do Doom Metal e até do Heavy Metal, sobretudo nos solos precisos de Thormianak. Essa miscelânea pode afastar os mais puristas, mas amplia o direcionamento artístico e torna o resultado extremamente rico e variado.

O uso do idioma português permanece como epicentro fundamental em “Espíritos Rupestres”, algo absolutamente coerente com a história da MIASTHENIA. Desde a clássica demo “Para o Encanto do Sabbat…”, de 1995, o grupo adota essa abordagem, o que reforça sua identidade. Qualquer mudança nesse sentido soaria artificial. Felizmente, nada foi alterado, e a conexão com o público brasileiro se fortalece logo nos primeiros instantes de “Evocação” e “Bruxa Xamã”.

Os teclados aparecem de forma mais marcante, deixando a sonoridade cada vez mais orquestral. Particularmente, gostei dessa intensificação, já que Hécate demonstra maturidade suficiente para evitar excessos ou repetições desnecessárias. Tudo é aplicado com equilíbrio, como fica evidente em “Cárcere da Inquisição” e “Saga de Mil Povos”, dois momentos que figuram entre os pontos mais altos da obra.

“Tapuia Marcha” foi a que mais me impactou. A track carrega uma aura ritualística sombria, fortemente conectada aos povos indígenas ancestrais. De certa forma, remete ao filme “Apocalypto” (2007), de Mel Gibson, pela sua textura visceral e pela capacidade de conduzir o ouvinte ao centro da narrativa proposta. Tem tudo para se tornar presença obrigatória nas futuras apresentações dessa nova fase, inclusive.

A composição que mais se aproxima do Black Metal raiz é a faixa-título. Sua velocidade característica, aliada a riffs cortantes e vocais ásperos, estridentes e rasgados, faz dela um prato cheio para os mais radicais. Já em “Transmutação”, um refrão mais melódico causa certo estranhamento inicial, mas não compromete o clima geral. Pelo contrário, reforça a ousadia que permeia todo o disco. Mantive a mente aberta durante a audição e fui recompensado pelas camadas que surgem de forma progressiva — uma decisão mais do que acertada.

Lançado no Brasil pela Mutilation Productions, “Espíritos Rupestres” chega em formato físico luxuoso, em digibook. Capa dura, fotos em alta definição, letras completas, ficha técnica detalhada e o conto “A Bruxa Xamã” na íntegra tornam o produto indispensável para colecionadores de produções nacionais. Vale cada centavo investido. E fica o conselho final: se a MIASTHENIA passar pela sua cidade nesta turnê, não pense duas vezes — compareça.

Formação:

Susane Hécate (vocalista, tecladista)
Thormianak (guitarrista)
Aletea (baixista)
Lith (baterista)

Tracklist:

01. Evocação
02. Bruxa Xamã
03. Cárcere da Inquisição
04. Saga de Mil Povos
05. Guerra dos Bárbaros
06. Tapuia Marcha
07. Guardiã dos Mistérios Rupestres
08. Espíritos Rupestres
09. Transmutação

 
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