MIASTHENIA: Um conto de Bruxaria e Xamanismo inserido no Metal Extremo Nacional
Postado em 22/10/2025


A banda MIASTHENIA é uma das poucas que podem ostentar o status de unanimidade na cena. Você pode até não gostar da sua proposta artística, mas é plenamente impossível não respeitar a trajetória desta, que é um dos nossos grandes medalhões do Black Metal brasileiro. Em 2024, foi lançado o sexto capítulo da sua saga, carregando o título de “Espíritos Rupestres” (Mutilation Productions), que acabou por elevar ainda mais a complexidade e as experimentações dentro da sua sonoridade. A intenção de criar algo realmente marcante fez com que a sua vocalista e tecladista, Susane Hécate, compusesse um conto inédito, intrigante e que serviu para balizar todo o conteúdo lírico da obra em questão. Com esse imenso leque de informações para a formulação de uma pauta enriquecedora, fomos conversar com a musicista e o resultado você pode conferir logo abaixo.

The Ghost Writer Magazine: A MIASTHENIA iniciou as suas atividades na primeira metade da década de 1990, lançando duas demos que são consideradas clássicas no nosso underground. Como se deram estes primeiros passos? Como foi a recepção dos fãs a estes trabalhos iniciais, assim que foram disponibilizados?

Susane Hécate: Em 1995 lançamos uma demo ensaio intitulada “Para o Encanto do Sabbat” e, naquela época, eu tocava guitarra e fazia os backing vocals. Em 1996 gravamos a demo “Faun – Trágica Música Noturna”, na qual gravei os teclados, baixos e um dos vocais. Nessa época, contávamos com Vlad na formação (vocal e guitarra) e as letras estavam começando a tomar um direcionamento para a temática do paganismo sul-americano. Em 1998, essa demo foi lançada pela Evil Horde Records em um split CD com a banda Songe d’Enfer e teve uma ótima repercussão, pela qualidade das gravações e por ser um dos primeiros lançamentos de Black Metal nesse formato (CD), ainda no final dos anos 1990 aqui no Brasil. Essas duas demos foram muito trocadas por meio de correspondências com apreciadores e zines do Brasil e do exterior, o que nos colocou em uma rede underground nacional importante para que nosso trabalho alcançasse um público maior e uma mídia mais especializada.

The Ghost Writer Magazine: “XVI”, debut álbum da banda, foi lançado apenas no ano 2000. Por qual razão demoraram tanto para lançarem algo neste formato? “XVI” possui um tema forte, envolvente, e que nos exige ouvir o material com o encarte em mãos. O que você pode falar sobre os direcionamentos musical e lírico dessa obra?

Susane Hécate: Nós tivemos uma mudança na formação no início de 1999 e, a partir daí, eu decidi prosseguir liderando a banda, e isso também trouxe mudanças estruturais. Eu passei para o vocal e teclados e convidamos Thormianak para o posto de guitarrista. As letras também passaram a ser compostas por mim, com base em muita pesquisa histórica em torno da temática pré-colombiana e dos processos de cristianização/colonização do continente. Sobretudo, meu trabalho foi muito mais aprofundado a partir de uma viagem que fiz a Machu Picchu no final de 1997, quando passei a mergulhar de cabeça na história dos Incas e na mitologia de outras culturas pré-colombianas. Isso era algo que eu vinha idealizando para o MIASTHENIA, e o “XVI” foi o momento de concretizar todo esse trabalho de profundidade na temática lírica da banda. Musicalmente, o “XVI” traz um pouco daquela atmosfera dos anos 1990, especialmente pelo uso de teclados, mas comporta uma dimensão mais épica, mística e melancólica, e para isso usamos um amplo repertório de influências que vão do Heavy Metal a trilhas sonoras épicas, passando pelo Death e Black Metal dos anos 1990.

The Ghost Writer Magazine: Após um hiato de 4 longos anos, o seu segundo álbum foi finalmente disponibilizado. “Batalha Ritual” soa como uma evolução natural do seu antecessor, e figura entre os melhores da discografia da banda, na minha humilde opinião. Quais são as principais diferenças que você enxerga nele, com relação ao “XVI”?

Susane Hécate: O “Batalha Ritual” foi produzido fora de Brasília em 2003, e passamos um ano envolvidos na sua produção, fazendo várias viagens para o estúdio Área 13, em São José do Rio Preto. Além disso, a demora também se deveu ao fato de que, em 2002, eu estava concluindo o mestrado em História, e isso impactou um pouco o ritmo da banda. O “XVI” tem uma atmosfera um pouco contemplativa, mística e melancólica na abordagem do mundo pré-colombiano; já no “Batalha Ritual” começamos a ganhar mais agressividade e nos aproximar de temas indígenas brasileiros, porque a temática envolve guerras, canibalismo e selvageria, em uma atmosfera de vingança ancestral contra o colonialismo.

The Ghost Writer Magazine: Seguindo a cronologia de lançamentos, apenas em 2008 fomos apresentados ao “Supremacia Ancestral”. Este trabalho soa mais polido, e a profundidade das letras chama muito a atenção. Quais foram as principais referências estéticas que vocês se atrelaram, para o desenvolvimento das composições desse disco? Quais as principais lembranças que você carrega dessa fase?

Susane Hécate: O “Supremacia Ancestral” foi o nosso primeiro álbum conceitual mais coeso, em torno da temática da resistência dos povos originários ao colonialismo na América, porque cada letra aborda um movimento ou seita ameríndia de resistência à dominação colonial ou à Inquisição nos séculos XVI e XVII. Foi resultado de um processo de pesquisa mais denso, da época do meu mestrado em História, por isso as letras ganharam mais profundidade e embasamento em acontecimentos do passado. Esteticamente, este álbum tem como referência a fusão entre Black Metal e música épica, com elementos mais sinfônicos e orquestrais, resultando em Pagan Black Metal. As composições de teclado e guitarra são bem mais complexas e abrigam muitas bases. Nós trabalhamos muito tempo nas composições, lapidando bastante a sonoridade. Naquela época, contamos com o apoio do Hamon (Mythological Cold Towers) na bateria e fizemos uma pré-produção do disco em São Paulo, e isso também fez com que o processo como um todo fosse mais demorado. As baterias foram registradas em Jundiaí e depois seguimos com a gravação no BroadBand Estúdio, em Brasília. Foi o início de uma grande parceria com o técnico de som Caio Duarte, e isso elevou bastante a qualidade das nossas gravações.

The Ghost Writer Magazine: “Supremacia Ancestral” foi recentemente relançado em um luxuoso digipack, através da Mutilation Productions. Quais os detalhes que você pode nos passar sobre esse produto? A banda ficou satisfeita com o resultado obtido pela gravadora?

Susane Hécate: Sim, ficamos sempre satisfeitos com as produções da Mutilation Productions. O Sérgio Amorim é muito atencioso e profissional no que faz. É uma honra fazer parte desse selo brasileiro que vem apoiando muitas bandas do cenário do Metal Extremo. Esse relançamento traz uma versão remasterizada do disco original e, no encarte, apresenta algumas fotos de shows e da formação do MIASTHENIA na época, tudo em uma reedição gráfica muito cuidadosa feita por nosso irmão @slanderer666.

The Ghost Writer Magazine: “Legados do Inframundo”, na minha ótica, é o trabalho mais diversificado do MIASTHENIA até aqui, ao mesmo tempo em que existiu um respeito absoluto com tudo que foi lançado anteriormente. Em suma, a banda tem uma assinatura própria e parece não abrir mão dela! Como se deram os processos de composição e produção do referido álbum?

Susane Hécate: “Legados do Inframundo” é um álbum conceitual mais pesado, visceral e agressivo. A temática das letras é baseada em uma viagem pós-morte ao Xibalbá, é bastante cosmogônico e poético nessa transição pelo inframundo. Resultado de muita pesquisa sobre a morte e os sacrifícios humanos para os antigos Maias. A presença de V. Digger na bateria colaborou para uma atmosfera mais extrema e brutal nesse disco. A produção foi feita totalmente no BroadBand Estúdio por Caio Duarte, que já tinha experiência conosco no material anterior, e isso foi fundamental, porque ele entendeu muito bem a nossa proposta.

The Ghost Writer Magazine: “Antípodas”, penúltimo título do grupo até aqui, foi originalmente lançado em 2017. Devo admitir que é o meu preferido, dentre todos. Passados oito anos do seu lançamento, olhando para trás, como você o avalia? Como foram os shows em seu suporte?

Susane Hécate: “Antípodas” também foi produzido no BroadBand por Caio Duarte, que trouxe o aprimoramento de sua técnica para a qualidade desse disco. O lançamento pela Mutilation, em digipack CD e vinil LP, também teve uma excelente repercussão nas mídias especializadas, o que nos rendeu uma tour com o Asphyx no Brasil em 2015 e uma tour na Europa em 2018, com a participação de Nygrom na bateria.

The Ghost Writer Magazine: “Espíritos Rupestres” já tem um ano que foi lançado. Como vem sendo a recepção dele até aqui?

Susane Hécate: Tem sido ótima a recepção do “Espíritos Rupestres”! Figuramos em várias listas de melhores discos de 2024 e isso é muito gratificante, porque foi um álbum produzido em um período muito difícil, desde o início da pandemia, e que marcou também a presença das novas integrantes Lith na bateria e Aletéa no baixo, viola e vocais líricos. É um álbum muito especial em nossa carreira, porque contou com a participação dessas musicistas que tanto admiramos!

The Ghost Writer Magazine: “Bruxa Xamã” ganhou um videoclipe muito bem produzido. Por qual razão a citada faixa foi escolhida como música de trabalho? O que você pode nos contar sobre o processo de produção do vídeo?

Susane Hécate: Essa música foi escolhida porque é bem representativa da trajetória da Bruxa Xamã, principal personagem do conto histórico que inspirou a temática das letras desse disco. A qualidade da produção desse videoclipe ficou a cargo da Aicon Ações Cinematográficas e da Syndicate Studios, aqui em Brasília. O convite veio por meio de Messias Filho, que atuou na iluminação, e as filmagens foram feitas por Marcos Caviccioli. Eles foram muito profissionais e souberam criar imagens fortes, muito bem sintonizadas com a proposta sonora. Somos gratos por nos presentearem com esse videoclipe de grande qualidade!

The Ghost Writer Magazine: O novo álbum traz passagens bem melodiosas, como constatado principalmente em “Transmutação”. Qual a importância que você enxerga em enxertar novos elementos ao seu Black Metal?

Susane Hécate: Esses “novos” elementos surgiram mesmo da necessidade de buscar sonoridades que ajudassem a expressar o que estávamos idealizando, então isso surgiu naturalmente durante o processo, em algumas partes.

The Ghost Writer Magazine: Hécate, é sabido que você é historiadora formada, então, até por isso, as letras compostas por você são tão fascinantes. Inclusive, para esse novo álbum você foi além ao escrever o conto inédito “A Bruxa Xamã”, para embasar todo o conteúdo lírico dele. Como você avalia a importância da sua graduação para o desenvolvimento do seu projeto musical?

Susane Hécate: Inclusive, o MIASTHENIA surge no dia em que passei no vestibular, em 1994. Então, a graduação, o mestrado e o doutorado em História são um processo de formação acadêmica que ocorreu paralelamente à minha trajetória no MIASTHENIA. Tudo está conectado! Os meus estudos no campo da História da América pré-colonial e colonial sempre estiveram relacionados também aos meus interesses temáticos e estéticos nas letras do MIASTHENIA, e isso fez e faz uma grande diferença. A elaboração do conto histórico “A Bruxa Xamã”, que resultou nas letras do disco “Espíritos Rupestres”, é fruto de um projeto literário-musical que, desde o início da banda, eu almejava fazer, mas que só agora amadureceu e foi possível concretizar. A fusão entre música e literatura exige um processo longo de escuta e lapidação, e, como a pandemia nos deixou presos em casa por muito tempo, a dedicação cuidadosa a esse trabalho foi a nossa salvação. Primeiro veio a música (o instrumental) e depois o conto, as letras e os vocais, nesta ordem. Embora a música seja inspirada em um cenário histórico e em uma concepção específica, o conto foi escrito ouvindo o instrumental já composto, ou seja, foi conduzido pelas músicas.

The Ghost Writer Magazine: Agradeço em nome da equipe da The Ghost Writer Magazine pelo seu tempo cedido, para a consolidação desta entrevista. Vida longa ao grande MIASTHENIA! Este espaço é seu para as suas considerações finais…

Susane Hécate: Eu agradeço pela oportunidade desta entrevista e pelo apoio ao MIASTHENIA. Vida longa para a The Ghost Writer Magazine! Sigam-nos no Instagram, YouTube e Facebook para acompanhar o nosso trabalho. Stay Metal!

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Categoria/Category: Entrevistas

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