A minha história com a MAESTRICK é longa e remonta a 2011, quando o quarteto lançava o excelente material de estreia, o álbum “Unpuzzle!”. Desde então, os caras jamais se furtaram a buscar algo único, apostando em uma proposta que mesclava elementos do Progressivo, Power Metal e da música popular brasileira, tudo muito bem integrado e coeso. Aliás, como esquecer da canção “Pescador”? Se você ainda não conhece, faça esse favor a si mesmo e vá escutar.
Muitos anos se passaram até chegarmos a 2018, quando a banda anunciou um projeto conceitual ambicioso, dividido em duas partes e batizado de “Espresso Della Vita”. O primeiro capítulo dessa obra musical, “Solare”, foi apresentado naquele mesmo ano, enquanto em 2025 tivemos o desfecho com “Lunare”, foco deste texto, que evidencia um direcionamento cada vez mais voltado ao Prog/Metal, naturalmente entrelaçado com referências da música brasileira.
A beleza inserida no projeto “Espresso Della Vita” começa por sua temática, carregada de forte apelo reflexivo. O conceito descreve uma viagem de trem ao longo de um dia, usada como metáfora para a jornada da vida, algo facilmente assimilável por quem se permite mergulhar na experiência. Somando os dois discos, são vinte e quatro músicas que representam as vinte e quatro horas do dia, do nascimento/embarque ao encerramento da existência, no fim da vida adulta. Por isso, acompanhar as letras é fundamental para uma imersão completa.
Como já explicado, “Espresso Della Vita: Lunare” abrange as últimas doze horas da jornada do personagem central e, musicalmente, a MAESTRICK fincou de vez sua bandeira no Prog/Metal, deixando para trás o Power Metal que, em outros momentos, remetia ao Angra. Acredito que essa escolha foi bastante acertada, pois permite ao quarteto trilhar um caminho próprio, sem se apoiar em referências diretas. Atenta a essa nova fase, a Frontiers Music — uma das maiores gravadoras do segmento — apostou no projeto e lançou o disco em território europeu.
Foi cercado por toda essa expectativa que coloquei o CD no player para conferir se o conteúdo sonoro correspondia à estrutura e às informações que o antecediam. A produção ficou a cargo de Adair Daufembach, brasileiro radicado nos Estados Unidos, conhecido por trabalhos com nomes como Tony MacAlpine, Kiko Loureiro e Angra. Desta forma, não causou surpresa quando os primeiros instantes de “Upside Down” revelaram uma sonoridade pesada, cristalina e uma masterização à altura dos grandes nomes do estilo.
Após a breve introdução “A Very Weird Beginning”, “Upside Down” surge como a primeira música propriamente dita. Moderna, ela carrega uma aura que remete ao universo cinematográfico de Tim Burton, conferindo um caráter teatral à obra. A sensação é de que a banda buscou dialogar com a estética de um musical da Broadway, algo que fica ainda mais evidente na pesada “Boo!”, faixa que flerta com o Modern Metal e conta com a participação especial de Tom Englund (Evergrey).
Ainda no início dessa viagem indescritível, deparei-me com a divertida “Ghost Casino”, que acentua o lado circense que o conjunto sempre soube explorar. Há ali uma possível inspiração no grupo paulista O Teatro Mágico, o que adiciona riqueza e novas camadas ao disco. Se “Ghost Casino” soa leve e até dançante, o mesmo não se aplica à dramaticidade de “Mad Witches”, uma bela composição que ainda traz as participações de Giulia Nadruz, Nina Guimarães e do Maracatu Movimento Baque Mulher.
A balada “Sunflower Eyes” desponta como um dos grandes destaques do CD. É nela que Fábio Caldeira exibe todo o seu poder interpretativo, em uma performance capaz de emocionar até o ouvinte mais imerso. Já “Agbara”, um dos singles que antecederam o lançamento do álbum, carrega forte identidade brasileira, especialmente após o peso percussivo de “The Root”. Não por acaso, é uma das composições mais complexas do trabalho e aquela com a qual mais me identifiquei, sobretudo pelas constantes alternâncias de tempo. Uma construção belíssima.
Outras participações marcantes ficam por conta de Jim Grey (Caligula’s Horse) e Roy Khan (Conception, ex-Kamelot), presentes em “Dance of Hadassah” e “Lunar Vortex”, respectivamente. Enquanto a primeira aposta em uma abordagem mais intimista, a segunda soa moderna e experimental, trazendo uma das vozes mais emblemáticas do Power/Prog mundial. “Lunar Vortex” também ganhou um videoclipe extremamente bem produzido, com Roy Khan dividindo o protagonismo com Caldeira.
“Ethereal” surge como um tempero extra por sua veia mais acessível. Acredite se quiser, mas aqui senti uma “vibe” que remete ao Coldplay, com nuances de Rock britânico inseridas de forma inteligente, possivelmente visando ampliar o alcance da proposta. Encerrando o disco, “The Last Station (I A.M. Leaving)” é a canção mais longa e ambiciosa. O lado Progressivo da MAESTRICK atinge seu ápice em uma composição repleta de texturas e melodias marcantes. Um verdadeiro primor, capaz de encher de orgulho qualquer apreciador do estilo diante de tamanha competência.
Ao longo de sua carreira, a MAESTRICK já demonstrou estar preparada para voos mais altos. Agora, com o respaldo de uma grande gravadora, é natural esperar que o grupo se consolide como uma nova força do Metal nacional fora do país. “Espresso Della Vita: Lunare” é uma experiência fonográfica completa, que se revela ainda mais rica para quem se dispõe a ter o disco físico em mãos e acompanhar sua narrativa. Foi exatamente dessa forma que absorvi o material e, não preciso esconder, terminei a audição completamente boquiaberto.