LUXÚRIA DE LILLITH: Luxúria em Trevas, Black Metal em Chamas
Postado em 20/09/2026


Artista: Luxúria de Lillith (Brasil)
Evento: Venenum Mortis Tour
Cidade/Estado/País: Teresina – Piauí – Brasil
Local: Bueiro do Rock
Data: 20 de Setembro
Ano: 2026
Produtora: Tamanduá Produções

Mal se passaram 48h da nossa última visita ao Bueiro do Rock, quando estivemos bem próximos das meninas da Nervosa, e lá fomos nós novamente para a cobertura exclusiva de mais uma passagem da horda goianiense LUXÚRIA DE LILLITH na capital piauiense. E, desta feita, não estava sozinha, tendo em vista que o evento confirmou três bandas locais como suporte e que mereciam também a nossa mais profunda atenção. Obviamente, o direcionamento da empreitada teve como foco o Black Metal com as confirmações da Victhorian, Cristo Cadavérico, a própria headliner, além da Furit como única representante do Thrash Metal.

Infelizmente, quando chegamos ao local, a Furit já tinha encerrado o seu set, o que acabou por impossibilitar a sua inclusão neste texto. Fica aqui registrado o nosso mais sincero pedido de desculpas e o compromisso de, em uma outra oportunidade, enfatizar a análise deste promissor quarteto. Considerações feitas com sucesso, quando adentramos as dependências do Bueiro do Rock, fomos direto ao backstage conversar com o sempre solícito líder da LUXÚRIA DE LILLITH, Drakkar. A primeira impressão que tivemos foi a melhor possível dentro de um contraste para lá de inusitado, já que estamos lidando com um dos precursores do Black Metal do Centro-Oeste brasileiro, e o encontramos literalmente lavando suas roupas na pia do banheiro. Mais underground que isso, impossível!

Ainda assim, ele nos recebeu com simpatia e humildade, revelando um pouco sobre o quão válida foi a experiência de consolidar este seu mais recente giro no Nordeste, que teve a sua conclusão exatamente nesta data. Quando nos despedimos do cara, o Cristo Cadavérico já estava em ação com o seu Black Metal melodioso, variado e que se escora na estética dos anos 1990 para fundamentar o seu direcionamento musical. Ainda que tenha sido fundada em 2004, o grupo estranhamente não conta com um único full-length em sua discografia, então, desta maneira, acabou por priorizar como destaques do repertório os seus três últimos lançamentos nos formatos de singles: “Lembranças do Anticristo”, “Cantos da Morte” e “Destronando os Tribunais do Santo Ofício”. Das três, “Cantos da Morte” foi a que mais gostei, principalmente por ter me remetido aos primeiros passos do Rotting Christ com os clássicos “Thy Mighty Contract” (1993) e “Non Serviam” (1994), pendendo mais para o segundo.

Com a despedida do Cristo Cadavérico, veio na sequência a promissora Victhorian com o seu Black Metal com elementos atmosféricos e folclóricos. A proposta desta me agradou mais diante de um maior número de camadas contido nas canções dos seus dois primeiros EPs, “Victhorian” (2016) e “Jesus Lies” (2023). As climáticas etéreas de composições como “King” e “Cursed Poems”, esta última, que estará presente no seu vindouro debut álbum, me mantiveram conectado cem por cento na sua performance que detinha uma certa aura escandinava em diversas texturas.

Como uma bem-vinda curiosidade, vale mencionar a presença do baterista Spiritus Draconis. O músico, que é um dos mais experientes no instrumento do estado, já tendo feito parte de nomes como Scrok, Dark Season, Evilmancer e Desgraça Maldita, se mostrou mais versátil do que nunca por abraçar as baquetas de um gênero não tão óbvio, levando-se em conta a análise restrita do seu portfólio. Grata surpresa!

Ao se despedir do público, a Victhorian passou o bastão para a LUXÚRIA DE LILLITH assumir o seu papel de protagonista com todas as honrarias possíveis. E não demorou para estar pronta para o ataque sonoro que se iniciaria com “Desejos Infames” do primogênito “A Volúpia Infernal” (2005), “Aos Filhos de Asmodeus” de “Gehennom” (2019) e o seu maior hino “Luxúria de Lillith”. Confesso que eu não estava pronto para presenciar tamanha violência, ainda mais quando levamos em consideração que a sua atual formação conta apenas com três membros. A massa sonora que saía dos PAs contrastava com o line-up que continha apenas uma guitarra segurando as pontas. A sensação é que, para se conseguir ter o que foi entregue, precisaríamos no mínimo de um quinteto atuando, mas a guitarrista Larakna, contra todos os prognósticos, provou exatamente o contrário.

Por diversos momentos, eu me senti intimidado por ela, diante de tamanha desenvoltura. Meu amigo leitor, estamos aqui falando de um segmento complexo quando executado da forma que a LUXÚRIA DE LILLITH se predispõe a abraçá-lo. Pois a moça não para um segundo de bater cabeça ao mesmo tempo que desfere palhetadas intrincadas com precisão quase que cirúrgica. Inclusive, assumo que, em algumas passagens das ótimas “A Volúpia Infernal”, “Perpétua Escuridão” do excelente “Mundo de Cadáveres” (2012) e “A Testemunha do Mal” de “Sucumbidos pela Carne” (2009), eu buscava qualquer sinal de deslizes, falhando miseravelmente nas tentativas. O resultado foi um enorme sorriso de orelha a orelha, atrelado a um certo sentimento de frustração por perceber que este time merecia ter muito mais reconhecimento do que ostenta atualmente no seu país.

O mesmo podemos afirmar sobre o baixista, vocalista e líder Drakkar. Com um estilo de canto extremamente inteligível, e que se mantinha em uma arriscada linha tênue que transita tanto nos screams característicos do Black Metal, entrelaçado com algo mais gritado, talvez falado, acaba convencendo. Aliado ao seu inquestionável carisma, ele soube conduzir a audiência com consistência, se tornando um dos mestres de cerimônia mais eficientes com quem tive contato há décadas. Exemplos não faltaram para fundamentar o meu argumento, mas, em temas como “O Dia da Heresia” e “Templo de Satã”, ambas novamente de “Sucumbidos pela Carne”, tais características foram mais perceptíveis.

Sim, a postura aqui é de uma equipe que esbanja background e experiência, digna dos melhores dentro do seu nicho. Não por acaso, foi a partir de “Caos e Destruição”, “As Trevas um Dia Lhe Chama” e ”Seduzidos Pelas Sombras” que os metalheads passaram a gritar efusivamente o seu nome, naturalmente, sem qualquer tipo de provocação on stage. Foi muito legal presenciar tamanha demonstração de respeito, atesto.

O single stand alone de 2025, “Lascívia”, foi um dos destaques, por ser um ponto que me levou a refletir sobre o evidente amadurecimento da sua escrita. Talvez por ser a track mais recente executada durante o espetáculo, me levou a ligar no máximo o meu senso crítico para entender quais serão os possíveis próximos passos da LUXÚRIA DE LILLITH. O futuro é animador, até porque eleva a sua assinatura para um patamar qualitativo mais contundente, mas sem descaracterizar absolutamente nada do que foi pavimentado desde os seus primeiros passos com a demo “Os Ritos Nocturnos da Luxúria” (1998). Estrutura aprovada e que instiga a termos certa ansiedade para um próximo disco completo.

Depois de uma breve introdução, “Da Morte Para Todo o Fim” voltou a resgatar “A Volúpia Infernal”, enquanto que “O Beijo de Mircalla” foi inserida de última hora diante dos inúmeros pedidos dos fãs para que não encerrassem os trabalhos. O clima de festa e irmandade se prolongou ainda mais quando Drakkar convidou ao palco o seu amigo e vocalista da Arkanus Ad Noctum, Count Saddisticus Haeretticus, para juntos reprisarem “Luxúria de Lillith”. O cansaço imperava, mas boa parte dos presentes se manteve no Bueiro para prestigiar a LUXÚRIA DE LILLITH até a sua última nota, e ela (a banda) soube reconhecer com diversos agradecimentos proferidos a todo instante por Drakkar. Um verdadeiro exemplo de devoção e apreço pelos seus irmãos nordestinos.

Como nem tudo são flores, eu senti a ausência de sons do seu quarto artefato, “Lilitus” (2016). Além de ser um dos meus preferidos do seu catálogo, creio solenemente que títulos como “Nosferatos”, “Desolados na Escura Floresta” e “Seres Noturnos” teriam espaço garantido entre as demais que foram entoadas. “Lilitus” não se difere nem dos seus antecessores, tampouco do seu sucessor “Gehennom”, então tais ausências são completamente injustificáveis. Esta pontuação não foi apenas minha. Ao conversar com algumas pessoas, percebi a mesma queixa e descontentamento com relação a este tópico. Espero que reelaborem o setlist para as posteriores pernas da turnê, e que “Lilitus” tenha o seu devido espaço garantido.

A LUXÚRIA DE LILLITH se despediu de Teresina com a total certeza de dever cumprido. Ao democratizar as tracks apresentadas in loco, deu uma boa reprisada em algumas das melhores passagens da sua carreira discográfica. Exceto pelo equivocado “esquecimento” de “Lilitus”, mencionado no parágrafo anterior, não tem como qualquer indivíduo ter saído insatisfeito com o que nos foi oferecido e isso é um fato incontestável! Espero poder encontrá-los o quanto antes e, de preferência, com um novo material de inéditas disponibilizado.

Luxúria de Lillith Setlist:

01. Intro
02. Desejos Infames
03. Aos Filhos de Asmodeus
04. Luxúria de Lillith
05. A Volúpia Infernal
06. Intro
07. Perpétua Escuridão
08. A Testemunha do Mal
09. O Dia da Heresia
10. Templo de Satã
11. Intro
12. Caos e Destruição
13. As Trevas um Dia Lhe Chama
14. Seduzidos Pelas Sombras
15. Lascívia
16. Intro
17. Da Morte Para Todo o Fim
18. O Beijo de Mircalla
19. Luxúria de Lillith (Reprise feat. Count Saddisticus Haeretticus – Arkanus Ad Noctum)

Victhorian Setlist:

01. A New Day of Hate
02. King
03. Eve of Cold (Part I)
04. Eve of Cold (Part II)
05. Cursed Poems
06. Victhorian

Cristo Cadavérico Setlist:

01. Oração
02. Lembranças do Anticristo
03. Círculo Ritualístico
04. Destronando os Tribunais do Santo Ofício
05. Em Memórias dos Hereges
06. Aos Prazeres de Lillith
07. Cerimonial Destruição
08. Lança do Destino
09. Cantos da Morte
10. Eternal Escuridão

 
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