E foi com quase um ano de diferença em relação ao lançamento oficial que recebemos nossa cópia de “Ritos Necrocannibalísticos”, novo registro da baiana LEPROVORE. Convém, porém, conter a empolgação: este material ainda não corresponde ao tão aguardado full-length, mas a um álbum ao vivo captado em sua cidade natal, Salvador. Desta forma, contrariando expectativas mais imediatas, o projeto capitaneado pelo baixista Zulbert Buery (ex-Headhunter D.C., Inoculation) optou por seguir outro caminho estratégico dentro de sua discografia.
A mexicana Dark Recollections Productions comprou a ideia e colocou no underground uma das raras aparições on stage da LEPROVORE, materializando algo que, a princípio, parecia improvável. A apresentação ocorreu em 16 de setembro de 2023, em Salvador, ao lado da conterrânea Rottenbroth. Vale o parêntese: esta última vem conquistando espaço relevante no mercado asiático, impulsionada pela ótima recepção do debut “Necroceremony Vomitorum” (2021). Caso o leitor ainda não a conheça, fica a recomendação.
Retomando o foco, a intenção do produto foi representar, de maneira crua e direta, o caráter primitivo e orgânico de um show da LEPROVORE, sem maquiagens ou polimentos artificiais. Nesse aspecto, os idealizadores atingiram o objetivo; entretanto, é preciso deixar claro que “Ritos Necrocannibalísticos” está longe de ser um disco lapidado. O título passou por masterização no México, assinada por Miguel Angeles (Mat Studios), profissional indicado pela gravadora. Na prática, havia pouco espaço para intervenções mais profundas, já que o áudio não foi captado em canais separados. Ao que tudo indica, o trabalho se restringiu a uma edição vacilante e a ajustes pontuais de volume.
É justamente aí que reside o principal problema do CD. Miguel optou por preservar excessivamente a ambiência entre as execuções, mantendo trechos que poderiam — e talvez devessem — ter sido descartados. A intenção parece ter sido se aproximar de algo na linha de “Live in Leipzig”, do Mayhem, mas, em 2025, essa escolha soa discutível. O material poderia ter passado por um acabamento mais criterioso sem perder seu caráter rústico e visceral. Uma pena, sinceramente.
O set apresentado mescla surpresas e escolhas previsíveis. A demo “Horrorreahction” (2021) foi executada na íntegra e respeitando a ordem original, seguida por “Pallor Mortis”, retirada do split 7” “Leprodamnation” (2023). Além disso, as inéditas “Devouring the Holy Flesh”, “Pestilential Weeping” e “Altar of Doom” funcionam como prévias do futuro primeiro álbum do quarteto. As três se conectam de forma natural ao repertório já conhecido, permitindo antever uma coerência estética consistente no próximo artefato. Excelente sinal.
Outro ponto que merece destaque é a versão de “Control”, dos ingleses do Napalm Death, originalmente presente no clássico “Scum” (1987). Aqui, a composição ganha contornos ainda mais perturbadores, mórbidos e doentios. Fica a torcida para que ela venha a ser registrada como faixa bônus em algum fonograma futuro. Será? Só o tempo dirá, mas, ao menos por aqui, a expectativa é grande que aconteça.
A LEPROVORE segue escrevendo sua carreira com os dois pés fincados no viés mais ideológico do Death Metal de velha escola. São 4 músicos que vivem o underground e transmitem suas mensagens com convicção e conhecimento de causa. “Ritos Necrocannibalísticos” é um artefato indicado apenas para quem compreende sua proposta. Para quem prefere sonoridades mais “limpas”, a sugestão é simples: passe longe.