Desde “A Matter of Life and Death” (2006), o IRON MAIDEN vem apostando em um caminho criativo ousado e, acima de tudo, arriscado. A faceta mais direta da Donzela de Ferro foi deixada de lado, abrindo espaço para peças longas, frequentemente rotuladas como épicas, que recorrem de forma insistente a repetições de riffs e a estruturas bastante semelhantes. Para mim, isso acaba soando cansativo, embora meu lado fã reconheça que o grupo britânico permanece fundamental para a manutenção do Heavy Metal como movimento cultural e referência para gerações inteiras.
“Senjutsu” é o quarto capítulo dessa fase mais progressiva e reúne características que muitos enxergam de forma negativa. O que realmente me incomoda, porém, é a duração excessiva da maioria dos temas. Basta observar “Hell on Earth”, com mais de onze minutos, para entender o meu ponto. A abertura é interminável, guiada pelo baixo de Steve Harris e por um teclado discreto ao fundo, que não acrescenta nada relevante ao que vem depois. E estamos falando de uma das tracks centrais e mais legais desse direcionamento estético recente.
Reconheço que sou exigente e, em certa medida, intransigente em relação ao rumo adotado pelo Maiden a partir de 2006. As fases dos anos 1980 e 1990 eram objetivas, sem floreios, sem excessos e sem complexidades artificiais. Essa crítica fica ainda mais evidente quando penso no perfil de quem começou a acompanhar a banda na era do streaming. Sinceramente, é difícil imaginar um adolescente de quinze anos disposto a encarar conteúdos tão longos no ritmo acelerado de consumo atual.
É inegável que o IRON MAIDEN já alcançou um patamar em que não precisa provar absolutamente nada para ninguém, podendo criar seus discos com total liberdade. Mesmo assim, é impossível ouvir “Senjutsu” sem sentir falta de trabalhos como “Powerslave” (1984), “Somewhere in Time” (1986) e “Seventh Son of a Seventh Son” (1988). Prefiro revisitar várias vezes um desses registros clássicos do passado a ter de me esforçar para chegar ao fim de uma única audição deste lançamento. Não sou resistente a mudanças, mas, neste caso, estamos falando de uma referência máxima do Metal mundial.
O álbum foi produzido na França, em 2019, no consagrado Guillaume Tell Studio, sob a supervisão constante de Steve Harris, como já se tornou padrão na carreira do sexteto. O trabalho alcançou a terceira colocação na Billboard 200, demonstrando que a marca segue forte entre seu público mais fiel. Ainda assim, encontrar algo que realmente se sobressaia aqui não é tarefa simples, o que considero frustrante, pois sempre esperei experiências mais fluídas com esses caras, mesmo quando se permitem enxertar trechos mais viajantes.
A canção escolhida como primeiro single, “The Writing on the Wall”, abre com um dedilhado de violão que remete facilmente a trilhas de antigos faroestes italianos. Depois de mais de 6 minutos, surgem traços reconhecíveis da identidade de Steve Harris, porém sem a coesão e o brilho de outros tempos. O refrão funciona, muito mais pelo timbre inconfundível de Bruce Dickinson do que pela construção em si. Nem mesmo o videoclipe animado conseguiu, pessoalmente, me envolver por completo.
A música que dá nome ao full-length se apresenta na sequência com andamento arrastado, conduzido pela bateria de Nicko McBrain, que tenta simular tambores de guerra. Logo ali já se percebe o clima que se estenderá pelas 9 composições seguintes. “Stratego” chama atenção justamente por ser mais curta e objetiva. Outra boa menção é “Death of the Celts”, com as tradicionais harmonizações de guitarra de Dave Murray e Adrian Smith. Foi nessa que os 5 integrantes conseguiram arrancar um sorriso meu, despertando uma nostalgia sincera e bem-vinda.
O IRON MAIDEN segue como uma das bandas mais marcantes da minha vida, responsável por moldar este velho headbanger. Se eu transmiti rigor ao longo do texto, é porque fui habituado a apreciá-la LP por LP, com experiências mais simples e diretas. Infelizmente, esses atributos passam longe de “Senjutsu”, que acaba ocupando um espaço apenas mediano dentro de sua própria discografia.