O ano era 2017, e o que parecia apenas um sonho distante de seguidores saudosistas transformou-se em realidade com os retornos de Michael Kiske e Kai Hansen aos seus antigos postos no HELLOWEEN. Soava quase impossível imaginar que o colosso do Power Metal alemão adotaria uma formação com sete integrantes, mas isso aconteceu e se consolidou com o registro ao vivo “United Alive in Madrid”, disponibilizado naquele mesmo período.
Somente em 2021 veio o primeiro material de inéditas com esse novo time, autointitulado, deixando claro que a sintonia entre os membros resistiu ao passar dos anos. O entrosamento era evidente, como se jamais tivessem se afastado, o que gerou um sentimento genuíno de alívio entre os admiradores mais fiéis. Já em 2025, surge o segundo capítulo dessa nova fase, com a chegada de “Giants & Monsters”, concebido com a missão de repetir — ou até ampliar — o impacto positivo alcançado anteriormente.
“Giants & Monsters” foi registrado no Streetlife Studio, na Alemanha, sob a condução cuidadosa da experiente dupla Charlie Bauerfeind e Dennis Ward (ex-Pink Cream 69, Unisonic). O fato de todos se conhecerem há décadas se reflete diretamente no som apresentado. O resultado evidencia um HELLOWEEN fiel à própria essência, com excelente qualidade sonora e composições que dialogam de forma respeitosa com toda a sua trajetória estética, algo que, pessoalmente, considero fundamental para um retorno tão aguardado.
O aspecto mais interessante de reunir três cantores em atividade é a possibilidade de perceber diferentes fases do grupo coexistindo de maneira orgânica. Isso cria uma vivência rica para qualquer admirador da carreira dos alemães. “Giants on the Run”, que abre o disco, ilustra bem essa ideia ao trazer um dueto envolvente entre Andi Deris e Kai Hansen, sustentado pela velocidade típica das aberturas clássicas, com Dani Löble comandando os bumbos duplos. É Power Metal tradicional, sem pudor ou concessões.
Michael Kiske assume o protagonismo em “Savior of the World”, explorando regiões altíssimas da sua voz com segurança impressionante. Sempre em plena forma, ele se permite arriscar caminhos menos óbvios, reforçando sua relevância técnica. Já “A Little Is a Little Too Much” resgata a atmosfera de “The Time of the Oath” (1996), desta vez, com Deris e Kiske alternando linhas até alcançarem, juntos, um refrão de forte apelo.
A velocidade retorna em “We Can Be Gods”, com os três vocalistas dividindo espaço, antes da chegada de “Into the Sun”, a balada tradicional que não poderia faltar. Curiosamente, esta composição deveria ter integrado o registro de 2021 e carrega a carga dramática típica do HELLOWEEN, remetendo a momentos clássicos como “In the Middle of a Heartbeat”, de “Master of the Rings” (1994), e “Forever and One (Neverland)”. A construção harmônica é elegante e tem tudo para se tornar um dos pontos altos da próxima excursão mundial.
Quando o videoclipe de “This Is Tokyo” surgiu, confesso que a impressão inicial foi morna, quase decepcionante. No entanto, inserida no contexto do álbum completo, a faixa cresceu significativamente e hoje figura entre as minhas preferidas. Quem aprecia composições como “Power”, “I Can” e “If I Could Fly” encontrará aqui a mesma energia contagiante, com ecos da empolgação do antológico “Happy, Happy Helloween”.
O último destaque fica com “Universe (Gravity for Hearts)”, dona de um refrão altamente memorável e riffs sólidos. Não à toa, foi escolhida como uma das músicas de divulgação antes da chegada oficial de “Giants & Monsters”, funcionando como contraponto direto a “This Is Tokyo”. Juntas, ambas evidenciam a versatilidade do novo trabalho dentro da escola do HELLOWEEN. Tudo indica que “Universe (Gravity for Hearts)” será uma das mais celebradas ao vivo, em especial pela interpretação primorosa de Michael Kiske.
Acompanhei de perto a caminhada do HELLOWEEN nos anos 1990 e, por um período considerável, acabei me afastando do que vinha sendo produzido. Contudo, desde o retorno de Kiske e Hansen para somar forças com Deris, Weikath, Gerstner, Grosskopf e Löble, tornou-se impossível permanecer indiferente. “Giants & Monsters” recoloca o HELLOWEEN em posição de destaque, entregando exatamente aquilo que seus admiradores esperavam — e, em vários momentos, até um pouco mais.