O GARAGE ROCK FESTIVAL, promovido pela hoje extinta Uivo Produções, pode ser encarado como um dos eventos mais relevantes da cena independente da Bahia. Mesmo após mais de três décadas de sua estreia, ocorrida em julho de 1992, a iniciativa segue viva na memória de quem acompanhou de perto aquele movimento. Em 1994, quando completou três anos de existência, o encontro reuniu o que havia de mais expressivo no underground soteropolitano, colocando no mesmo ambiente nomes como Mystifier, Malefactor, The Cross, Tempestas (SC), Zona Abissal, Mercy Killing, Headhunter D.C., Síncope, entre outros expoentes do período.
Foi justamente naquele ano que, aos dezessete ciclos de vida completos, tive a oportunidade de assistir ao meu primeiro show de vertente extrema. Eu já conhecia algumas das atrações citadas anteriormente, mas a curiosidade falou mais alto ao saber que a Tempestas, de Santa Catarina, estaria presente com seu Death Metal técnico, claramente inspirado na obra de Chuck Schuldiner (ex-Death, Control Denied). Como bônus, ainda seria possível conferir o Doom Metal dos pioneiros da The Cross, que já desfrutavam de considerável representatividade em Salvador.
A terceira edição do GARAGE ROCK FESTIVAL aconteceu na Faculdade de Economia e Ciências Contábeis da UFBA, reunindo entre duzentas e trezentas pessoas por noite. Minha experiência ocorreu em 23 de julho e lembro bem que não era simples socializar ou criar vínculos com os músicos presentes. Era um tempo em que nada estava a poucos cliques de distância: conseguir uma demo tape ou estabelecer contato direto exigia bastante esforço. Havia uma postura reservada generalizada, quase como um código de conduta, fundamental para que o alicerce do Metal Extremo se consolidasse em bases sólidas e coerentes.
Nesse contexto, soube que a Masterbrain havia sido incluída de última hora no cronograma. O power trio misturava Punk Rock com Metal e havia disponibilizado recentemente uma demo homônima, contendo três faixas inéditas. A recepção foi fria, já que o som estava deslocado diante das atrações centrais daquela noite, The Cross e Tempestas. Confesso que, mesmo após tantos anos, ainda não compreendo plenamente a escolha do nome para a abertura, mas algumas músicas, como “Peace” e “Get Out!”, me agradaram bastante.
Com o encerramento da breve participação da Masterbrain, o clima se tornou mais denso com a entrada da The Cross. O conjunto promovia sua segunda demo tape, “Peregrination” (1994), embora o repertório tenha se apoiado fortemente na clássica “The Fall”, registrada um ano antes. Andamentos arrastados, uso intenso de teclados e um vocal que potencializava a atmosfera sombria, com linhas scream bem encaixadas, prenderam a atenção da plateia. Faixas como “Flames of Deceit”, “The Fall” e “Scars of an Illusion” dividiram espaço com as então novas “Shadows of the Past” e “Life in Solitude”.
Após o término da apresentação da The Cross, deixei o salão principal tentando assimilar o impacto do que havia presenciado. Naquele instante, eu ainda não tinha consciência de que passaria a enxergar o Doom Metal como um dos subgêneros mais marcantes da minha trajetória musical. Para um garoto de dezessete anos, em plena primeira metade da década de noventa, vivenciar algo tão intenso é capaz de deixar marcas definitivas, como de fato aconteceu.
Pouco depois, a Tempestas subiu ao pequeno palco montado no local, simples, mas adequado aos padrões da época. Com a demo “Clandestine Ways” (1993), que funcionava como prévia do debut “Euphony of Contradictions”, lançado apenas em 1995, o público foi apresentado a composições complexas e executadas com precisão. O quinteto bebia claramente da ramificação mais elaborada do Death Metal, tornando inevitáveis as comparações com o Death de Chuck Schuldiner, não apenas pelas estruturas, mas também pelo timbre e pela forma de cantar do saudoso Julian Wortmeyer, falecido em 2003, vítima de afogamento.
“Clandestine Ways” e “Euphony of Contradictions” foram os grandes destaques, ao lado de outras peças que integrariam o futuro repertório oficial. O espaço estava completamente lotado, e presenciar, pela primeira vez, tantas pessoas com afinidades musicais semelhantes às minhas, interagindo e compartilhando aquele momento, foi algo impagável. Ver, lado a lado, duas das principais representantes do Doom e do Death Metal em ação tornou-se um marco definitivo, que ainda hoje, em 2025, desperta um forte sentimento de nostalgia.
E qual foi o destino das três atrações citadas neste relato? A The Cross é a única que segue em atividade, mantendo uma discografia em constante expansão, com destaque para o EP “Requiescit in Pace Frater Noster” (2023). A Masterbrain, ainda nos anos noventa, adotou o nome Maria Bacana e passou a trilhar caminhos mais comerciais, mesclando Punk Rock com elementos de MPB. Já a Tempestas optou por encerrar suas atividades após a morte de seu vocalista, possivelmente em respeito à memória do amigo e companheiro de estrada.
Encerrando este texto, reforço a importância incontestável do GARAGE ROCK FESTIVAL para o desenvolvimento do underground baiano. A iniciativa sempre abriu espaço para novas formações se apresentarem em contextos estruturais acima da média da época. Considerando uma realidade de cena ainda em fase embrionária, o modelo proposto pela Uivo Produções representou uma contribuição decisiva para a busca por profissionalismo, estabelecendo um novo parâmetro de qualidade a ser seguido dentro do nicho.
Fotos: Adriana Tourinho
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