A New Wave of British Heavy Metal sempre foi um movimento apaixonante e altamente influente desde sua consolidação na Grã-Bretanha, no fim dos anos 1970. Hoje, mais de cinco décadas depois, novas bandas continuam surgindo nos quatro cantos do planeta, mantendo viva a chama acesa — e perpetuada — por nomes como Iron Maiden, Saxon, Grim Reaper, Tank, Tygers of Pan Tang, entre tantos outros. Sendo assim, como o Brasil poderia ficar de fora dessa história? Eu respondo sem hesitar, caro leitor: jamais.
A GAIABETA surge diretamente da Bahia, com os dois pés firmes na estética da NWOBHM, mas sem abrir mão de flertes pontuais com o Power Metal. Foi a partir dessa premissa que nasceu o seu primeiro registro, “Gate of GaiaBeta”, disponibilizado em toda a Europa pela gravadora grega Pitch Black Records. Ao todo, são 8 faixas que transitam com naturalidade entre a cadência épica de “The Pharaoh’s Return” e o Heavy Metal mais vigoroso de “Get Your Freedom”. Tudo se encaixa de forma equilibrada ao longo da tracklist, garantindo uma audição dinâmica e com boas variações estruturais.
O vocalista Marcos Diantoni desponta como um dos grandes destaques do quinteto, sem dúvidas. Seu timbre é agradável e, ao mesmo tempo, oferece a sustentação necessária para alcançar tons graves e agudos com segurança. “Second Flame” exemplifica bem essa versatilidade, passeando por diferentes nuances dentro de um corpo estrutural cadenciado e marcado, que remete claramente ao que o Iron Maiden apresentou em “Powerslave” (1984).
As letras seguem caminhos diversos e fogem da ideia de um conceito único e fechado. Mais uma vez, Diantoni assume protagonismo ao abordar temas ligados à história antiga e à mitologia, como se percebe em “Second Flame” e “Innocent Land”. Em paralelo, há espaço para a ficção sobrenatural nas ótimas “Hands of Revenge” e “Chains of the Ghosts”, enquanto reflexões sobre a relação do ser humano com o mundo ao seu redor aparecem na dobradinha formada por “Get Your Freedom” e “Back to the Past”. O resultado é um leque temático amplo, capaz de agradar públicos distintos — dos gregos aos troianos. Ponto positivo.
A produção ocorreu no KTR and Masai Mara Studios, em 2023, assinada por Marcos Diantoni em parceria com o guitarrista Mr. Kitaro. Pessoalmente, gostei bastante da mixagem, que prioriza as linhas vocais, deixando os demais instrumentos bem distribuídos em uma segunda camada. Tudo soa claro e bem definido, com uma abordagem mais digital, ainda que isso vá na contramão das produções orgânicas que marcaram os principais expoentes da NWOBHM. Ainda assim, modernizar sem descaracterizar a proposta estética é algo válido quando feito com critério — e aqui funciona.
A edição física de “Gate of GaiaBeta” ainda traz regravações de composições mais antigas do projeto, funcionando como um bônus interessante para quem optar pelo CD, que, por sinal, conta com um excelente trabalho gráfico. São três releituras no total: “The Last Warrior”, “Ashes from the Stars” e “Back to the Past (Nevermore)”. Dentre elas, fico especialmente com a segunda, mais pesada e enriquecida por uma bem-vinda adição de grooves, que a diferencia das demais. Se houver a possibilidade de importar, a versão física é altamente recomendada.