EVERGREY: Quando o Progressivo e o Melancólico se Fundem
Postado em 22/04/2026


Artista: Evergrey & Silver Dust
Evento: Bangers Open Air Side Show – Evergrey
Cidade/Estado/País: São Paulo – São Paulo – Brasil
Local: Manifesto Bar
Data: 22 de Abril
Ano: 2026
Produtora: HonorSounds & Bangers Open Air

E lá vamos nós de novo para mais uma maratona de coberturas na capital paulista, dentro de um período que já virou obrigatório na agenda do headbanger brasileiro. O Bangers Open Air vem, a cada ano que passa, se consolidando como uma das principais marcas do país quando o assunto é som pesado. Indo para a sua quarta edição, se contarmos as duas primeiras quando ainda se chamava Summer Breeze Brasil, a empreitada vem em nítida e crescente expansão, com a confirmação do primeiro sold out da sua recente história, quando apresentará nomes como Arch Enemy, Within Temptation, Smith/Kotzen, In Flames, Black Label Society e a tão aguardada reunião do Angra.

Em paralelo, a produção do festival confirmou diversos side shows que demonstraram ser uma excelente estratégia, visando angariar entusiastas específicos de alguns dos seus artistas, além dos xiitas que querem comparecer em tudo que é ofertado. E foi nesta conjuntura que teremos na agenda o Primal Fear, In Flames, Nevermore, a já citada comemoração do álbum “Rebirth” do Angra com a sua formação clássica e, como foco deste texto, os suecos do EVERGREY, ao lado dos suíços do Silver Dust.

O local escolhido foi o tradicional Manifesto Bar, que agora está com novas e melhores instalações. Esta foi a nossa primeira visita ao novo ambiente, e tudo está melhor, agregando-se o próprio espaço físico para a audiência, palco, backstage e camarote. A mudança veio a calhar e já não era sem tempo, já que o Manifesto já abrigou, em sua trajetória, diversos nomes do Hard/Metal mundial, ajudando, assim, a solidificar São Paulo como ponto indispensável para qualquer turnê que se preze.

A nossa equipe já estava a postos para a cobertura dos dois shows desde pouco mais das 19h, mas antes fomos todos visitar a área de merchandising. Com preços para lá de inflacionados, com camisetas nacionais de algodão custando R$ 200,00, resolvemos deixar passar, já que houve uma priorização no material fonográfico da Silver Dust. Eu preferi gastar meu suado dinheiro no novo LP dos caras, “Symphony of Chaos”, lançado em 2025 e não me arrependi. Após um breve papo com a esposa do vocalista Lord Campbell, que nos revelou a felicidade de estarem no Brasil, fomos direto para uma posição bem próxima do palco, para juntos acompanharmos esta verdadeira incógnita representante do Gothic Metal europeu.

Ao cair das luzes e com diversos símbolos místicos sendo exibidos no telão, o quarteto entrou em cena, comandado pelo já mencionado Campbell. Com um visual que remete a um híbrido interessante da era vitoriana, steampunk e gótico clássico, além de muita desenvoltura ao preencher com sabedoria todos os espaços on stage, o time chegou entregando muita garra e carisma, principalmente o baterista Mr. Killjoy, que mais parecia um malabarista na condução do seu instrumento. Divertido e curioso, para dizer o mínimo!

O set foi aberto com “Fire!”, de “Symphony of Chaos”, e, desde aqueles primeiros momentos, algo incômodo nos foi revelado. A Silver Dust nos foi vendida como uma banda de Gothic Metal, mas, na prática, as coisas não são bem assim. Elementos góticos existem, mas o que predomina é o lado teatral dentro de uma sonoridade moderna, oriunda do Industrial e que se escora em nomes recentes como Avatar e Deathstars. Desta forma, a estranheza foi a tônica até nos acostumarmos com o direcionamento real que os suíços nos entregaram.

A sua participação procurou ser democrática, englobando diversas fases da sua discografia, como na ótima “I Am Flying”, de “House 21” (2018), e “No Matter How Far Away”, de “Lullabies” (2022), ainda que, com o curto tempo que detinham, obviamente, “Symphony of Chaos” tenha sido a sua prioridade máxima. Ainda houve tempo para um solo de Mr. Killjoy, que não economizou o número de giros que desferiu com as suas baquetas diante de um público que já tinha entendido a sua proposta cênica.

Em meio à notória mescla de diversos elementos modernos, entre sintetizados, eletrônicos e orquestrações, Campbell se mostrou um excelente mestre de cerimônias. Não foram poucas as vezes em que ele buscou interação dos presentes, seja com gritos, até chegar ao ápice, quando desceu do palco e pediu para que todos se curvassem com ele, para, juntos, em duas ocasiões, se levantarem aos pulos ao som de “Salve Regina” e “Lucifer’s Maze”. Realmente existiu um esforço do cara, que foi prontamente reconhecido pela plateia, e isso, por si só, já valeu cruzar o oceano para nos ver.

A primeira impressão que tivemos com relação ao Silver Dust foi positiva, embora mais pela sua intensa atuação do que pela sonoridade propriamente dita. O Avatar, por exemplo, está anos-luz à frente e meio que já monopolizou o mercado para si dentro desta esfera. Acredito ser sábia a decisão da Silver Dust de procurar o seu caminho, sem se escorar tanto nas suas referências e influências. Vamos aguardar pelo que vem pela frente…

A nossa expectativa era gigantesca para conferir o EVERGREY, já que eu, particularmente, acompanho a banda desde os seus primórdios na década de 1990. Com um Prog/Metal denso, lúgubre e que tem uma assinatura muito própria, os suecos prometiam uma verdadeira viagem pela sua história com essa nova vinda ao Brasil. E não deu outra, pois os seus devotos, que naquele momento superlotavam o Manifesto Bar, já foram agraciados, logo de cara, com “Falling From the Sun” e o seu refrão extremamente pegajoso. Todos cantaram em uníssono, dificultando até a audição da própria voz de Tom S. Englund.

Já era totalmente esperado que existisse uma predileção pelo último álbum, “Theories of Emptiness”, de 2024, mas isso não se confirmou. Além de “Falling From the Sun”, fomos presenteados apenas com “Misfortune” e “Say”. Está certo que estamos falando de um grande disco, mas, como o quinteto não vem muito para a América do Sul, os fãs estavam esperando por um repertório que revisitasse mais o seu vasto catálogo. E, quando houve a confirmação de tal escolha durante a apresentação, dava para sentir uma energia maravilhosa em todo o lugar. Todos muito felizes, podem apostar nisso, inclusive este que vos escreve.

“The World Is on Fire” e “Leaving the Emptiness” serviram como aperitivo do seu próximo full-length, “Architects of a New Weave”, que tem confirmação de lançamento para o próximo mês de junho, através da Napalm Records. Ambas serviram para confirmar que Englund continua em plena forma como compositor, reiterando a sua maneira única de fundir o Progressivo com elementos mais modernos e sombrios. O resultado foi animador, ainda que, nestes momentos, todos preferiram ficar mais contidos, prestando atenção nos seus mais diversos detalhes e camadas.

“A Silent Arc” ganhou destaque pela participação precisa dos novos membros Simen Sandnes e Stephen Platt, evidenciando o entrosamento e funcionalidade da formação atual. Já “A Touch of Blessing”, de “The Inner Circle” (2004), foi outro ponto alto, resgatando um dos melhores períodos vividos pela trupe de Englund no início dos anos 2000. Além dela, em um momento mais intimista, o jovem senhor ainda se projetou a cappella, com uma bela versão de “I’m Sorry”, da cantora e conterrânea Dilba Demirbag, sendo acompanhado pelo tecladista Rikard Zander. Talvez esta tenha sido a parte mais emotiva até aqui, principalmente ao revisitar o clássico “Recreation Day” (2003).

Ao final, se alguém ainda tinha dúvidas sobre o poder de fogo do EVERGREY, este esquenta para o Bangers Open Air tratou de colocar todos os pingos nos “is”. Com um line-up revigorado, excelente escolha das canções e uma estrutura de backline que nos proporcionou nitidez plena, Tom S. Englund prova o porquê de ser uma figura tão fundamental para a manutenção do Prog/Metal em escala global. Foram várias emoções, diversos reencontros e uma noite que viverá em nossas memórias por muitos e muitos anos a fio!

Evergrey Setlist:

01. Falling From the Sun
02. Where August Mourn
03. Weightless
04. Say
05. The World Is on Fire
06. Eternal Nocturnal
07. Call Out the Dark
08. King of Errors
09. A Silent Arc
10. Words Mean Nothing
11. I’m Sorry (Dilba cover)
12. Misfortune
13. Architects of the New Weave
14. A Touch of Blessing
15. Leaving the Emptiness
16. OXYGEN!

Silver Dust Setlist:

01. Fire!
02. I Am Flying
03. Devil’s Dance
04. Guitar Solo
05. Salve Regina
06. Lucifer’s Maze
07. Drum Solo
08. No Matter How Far Away
09. Symphony of Chaos

 
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