ESCARNIUM: A Termodinâmica Inexorável do Post Death Metal
Postado em 12/08/2025


A ESCARNIUM, como toda e qualquer banda que nasce no underground, sonha um dia com seu devido reconhecimento e a consequente expansão da sua sonoridade ao máximo de lugares possíveis. Nascida em Salvador, capital baiana, em 2008, ganhou o mundo e já percorreu diversos países levando o seu Death Metal moderno, visceral e que hoje acopla elementos do contemporâneo Post Death Metal. Fomos conversar com o nosso amigo, o baterista Nestor Carrera, para sabermos mais novidades sobre o projeto, tendo como foco o seu mais novo lançamento, o excelente álbum “Inexorable Entropy”, recém-disponibilizado no Brasil através da Cianeto Discos.

The Ghost Writer Magazine: Nestor, você não imagina a nossa satisfação de estarmos batendo esse papo com você, ainda mais agora com o lançamento do álbum “Inexorable Entropy”. Como tem sido a repercussão dele até aqui?

Nestor Carrera: A satisfação é recíproca! Obrigado pelo interesse na entrevista e pelo apoio de sempre. A recepção tem sido excelente, tanto no Brasil quanto na Europa. Muitas pessoas destacam o peso e a atmosfera do disco, e isso mostra que todo o esforço — da composição à produção final — valeu a pena. É, sem dúvida, nosso trabalho mais sombrio até aqui, e perceber que o público entendeu essa proposta é muito gratificante.

The Ghost Writer Magazine: Uma parte da banda está radicada na Europa e outra no Brasil, atualmente. Como tem funcionado a logística para que as turnês sejam organizadas?

Nestor Carrera: É um desafio, mas já encontramos um formato que funciona. O Victor, que mora na Alemanha e tem uma agência de booking, normalmente fica responsável por marcar nossas turnês. Pela realidade de cada um — trabalho, família, outras bandas — conseguimos conciliar uma ou duas turnês por ano, no máximo. Desde o fim da pandemia, tem dado certo dessa forma. Eu moro em Bauru/SP atualmente, mas sigo em contato constante com os caras na Europa. A distância, na verdade, nos obriga a ser mais organizados e objetivos.

The Ghost Writer Magazine: “Inexorable Entropy” é uma progressão natural do seu antecessor, “Dysthymia” (2022). O material soa mais moderno e cada vez mais próximo dos últimos títulos do Immolation. Você concorda com tal afirmativa? Como tem sido o processo de composição de vocês?

Nestor Carrera: Primeiramente, obrigado pelo elogio! Concordo em parte. Immolation é uma grande referência, mas nosso processo nunca foi pautado em soar como alguém. A gente compõe de forma livre, sem pensar em tendências ou fórmulas, sempre buscando o equilíbrio entre agressividade e atmosfera. Nesse sentido, é, sim, uma progressão natural de “Dysthymia”. O processo de composição foi bem parecido: reunimos riffs, progressões e ideias, filtramos bastante e vamos lapidando até chegar ao resultado que acreditamos representar o álbum.

The Ghost Writer Magazine: Vocês registraram o full-length em diversos estúdios. Por qual razão optaram por descentralizar o registro da obra? Afinal de contas, quem acabou ficando com a incumbência de produzi-lo?

Nestor Carrera: Foi uma escolha ditada pela nossa realidade. Como estamos divididos entre continentes, seria inviável gravar tudo em um único estúdio. Eu, morando em Bauru, sempre gravo a bateria no RMS Estúdio, em Agudos, por confiar muito no trabalho de lá. O restante dos instrumentos, geralmente, registramos quando conseguimos nos encontrar, normalmente antes de alguma turnê. Dessa vez, optamos por gravar as vozes no Walzwerk Tonstudio, que também ficou responsável por mix, master e produção junto com a banda.

The Ghost Writer Magazine: Particularmente, adorei a pós-produção do disco. A masterização deixou tudo muito encorpado, formando assim uma massa sonora inteligível e bastante funcional para o estilo. Como foi o trabalho de pós-produção no Walzwerk Tonstudio?

Nestor Carrera: Foi um processo intenso e muito cuidadoso. A ideia era criar uma parede sonora densa, mas sem perder a clareza dos detalhes. O Sergej, do Walzwerk Tonstudio, entendeu perfeitamente a nossa visão. Você não sabe como é frustrante tentar explicar para um engenheiro de som a ideia que está na sua cabeça e não conseguir transmitir — seja por vocabulário musical diferente ou impaciência. Com Sergej, isso não foi uma preocupação, e o resultado nos deixou muito satisfeitos.

The Ghost Writer Magazine: Na Europa, o CD saiu através da gravadora Everlasting Spew Records. Como vem sendo o seu trabalho de distribuição? O contrato prevê algum tipo de auxílio na estruturação da agenda de shows da banda?

Nestor Carrera: A distribuição está fluindo muito bem, e a parceria tem sido positiva. Eles oferecem um suporte essencial em logística e divulgação. A agenda de shows, no entanto, ainda é algo que a gente mesmo corre atrás, com apoio de parceiros locais. A gravadora, sediada na Itália, se colocou à disposição para ajudar a fechar datas por lá, mas, até agora, não conseguimos conciliar agendas.

The Ghost Writer Magazine: No Brasil, “Inexorable Entropy” acabou de ser lançado pela Cianeto Discos. Vocês já têm algum retorno deste trabalho? Até o momento do fechamento desta pauta, ainda não vi o álbum figurando nas lojas.

Nestor Carrera: O retorno já começou a aparecer. A distribuição no Brasil costuma ser um pouco mais lenta, mas já estamos recebendo pedidos e feedbacks bem positivos. Em breve, deve estar disponível em mais lojas e distros.

The Ghost Writer Magazine: A arte da capa é bastante minimalista. Qual a mensagem que vocês quiseram transmitir com ela? Quem foi o profissional que assinou a ilustração?

Nestor Carrera: Queríamos traduzir visualmente a sensação de dissolução e perda de identidade que atravessa o álbum. A figura se desfaz em meio às próprias mãos, como se estivesse se consumindo de dentro para fora, refletindo o processo inevitável de degradação e colapso que o título “Inexorable Entropy” carrega. Buscamos algo perturbador e, ao mesmo tempo, contemplativo, sem excesso de elementos. A arte foi feita por Hugo Venâncio (@hugovp_tattoo), que, além de ilustrador, é um excelente tatuador, em parceria comigo. Eu sempre estive envolvido na parte gráfica da banda e, como também trabalho como artista visual, gosto de contribuir ao máximo nesse aspecto.

The Ghost Writer Magazine: Em “Inexorable Entropy” temos várias passagens atmosféricas, algumas até mais progressivas. Com a utilização de tais elementos, convencionou-se a usar o prefixo “post” antes do estilo propriamente dito. Desta forma, podemos considerar que atualmente a ESCARNIUM é uma banda de “Post Death Metal”?

Nestor Carrera: Não vejo dessa forma. Esses elementos aparecem porque fazem sentido no contexto das músicas, não porque queremos nos encaixar em um subgênero. Continuamos sendo uma banda de Death Metal. Simples assim.

The Ghost Writer Magazine: “Pyroscene’s Might” é um excelente exemplo de composição que sai do senso comum do gênero. Acredito que ela seja uma das melhores do disco, justamente pelos enxertos de atmosferas que se aproximam, inclusive, da psicodelia. Vocês precisaram mudar a forma como compõem, para incrementarem tais elementos?

Nestor Carrera: Essa música tem riffs majoritariamente meus, e minhas influências são bem amplas, muitas delas fora do universo do Death Metal. Seria impossível negar que bebo de fontes pouco convencionais. Mas a forma de compor continua espontânea. Hoje nos permitimos mais liberdade, sem medo de experimentar. Se um elemento psicodélico ou progressivo ajuda a transmitir a mensagem, ele entra naturalmente.

The Ghost Writer Magazine: A faixa-título é outro destaque e nela temos algumas passagens progressivas. Você tem tido mais protagonismo nas músicas, acarretando em mais complexidade nas estruturas rítmicas. Como se deu a composição dessa canção em específico?

Nestor Carrera: Foi um processo interessante. Victor já tinha a maioria dos riffs, e eu estava resistente porque achava que tínhamos material melhor para lapidar. Mas, quando nos sentamos juntos para dar mais forma a esses rascunhos, novas ideias surgiram e a música ganhou força. O dedilhado de guitarra que começa por volta dos cinquenta e seis segundos, por exemplo, apareceu depois e deu mais vida ao verso. O trecho progressivo, com solo de baixo antes do solo de guitarra, nasceu de forma natural quando percebemos que o riff de guitarra que entraria ali não era necessário, e resolvemos dar espaço para o baixo e para a bateria brilharem. O solo de guitarra junto com o vocal, que vem logo em seguida, apesar de ter sido muito discutido, hoje é um dos pontos altos da faixa. É, sem dúvida, uma das músicas de que mais me orgulho de ter ajudado a compor.

The Ghost Writer Magazine: Eu gostei bastante do trabalho em cima dos solos, principalmente em “The Heritage”. Victor e Alex costumam trabalhar juntos nesse tipo de estruturação?

Nestor Carrera: Na verdade, não. Os solos são quase todos do Alex. Às vezes, damos algumas direções sobre a “vibe” que imaginamos, mas, no geral, deixamos ele criar livremente, e o resultado nunca decepciona.

The Ghost Writer Magazine: Lá atrás falamos sobre a logística que vocês precisarão adotar para que as turnês sejam realizadas. Partindo daí, existe algum planejamento para que aconteça uma ampla turnê brasileira visando à promoção de “Inexorable Entropy”?

Nestor Carrera: Sim, é uma das nossas prioridades. O Brasil é enorme e ainda temos muitas cidades para alcançar. A ideia é rodar o máximo possível em 2026, levando “Inexorable Entropy” a lugares onde nunca tocamos. Já temos alguns shows confirmados para o primeiro semestre e estamos planejando uma turnê mais extensa no fim do ano.

The Ghost Writer Magazine: Mais uma vez agradecemos a disponibilidade e aproveitamos para parabenizar a banda pelo lançamento de “Inexorable Entropy”. Agora o espaço é seu para as considerações finais…

Nestor Carrera: Agradeço demais pelo espaço e pelo interesse no nosso trabalho. É sempre importante poder compartilhar não só a música, mas também a visão que a sustenta. Convido todos para ouvirem “Inexorable Entropy”, apoiarem as bandas da cena e, principalmente, comparecerem aos shows — é no palco que tudo ganha vida de verdade.

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Categoria/Category: Entrevistas

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