As bandas da Suécia têm um jeito muito particular de escrever quando o assunto é Death Metal. Desde as saudosas décadas de oitenta e noventa, com o surgimento de nomes como Entombed, Grave, Dismember, Bloodbath e Nihilist, o país passou a se destacar com personalidade própria no cenário da música pesada mundial. É exatamente dentro dessa tradição que se insere o ENTRAILS, seguindo à risca praticamente todos os clichês consagrados por seus conterrâneos mais ilustres.
“Grip of Ancient Evil” marca o oitavo álbum dos suecos e chega ao Brasil licenciado pela Metal Army Records, mantendo a mesma proposta apresentada desde o debut de 2008, “Tales from the Morgue”. O ouvinte pode esperar a timbragem característica que remete diretamente aos momentos mais emblemáticos de Grave e Entombed, acompanhada de temas recorrentes: a concepção subjetiva da morte, o mal como traço intrínseco do ser humano e, claro, os já exaustivamente explorados zumbis eternizados pelo cineasta americano-canadense George A. Romero. Estamos diante do famoso “mais do mesmo”? Sim, sem rodeios. Entretanto, a qualidade da bolachinha é inquestionável.
A faixa-título abre os trabalhos com uma composição bela e maléfica, conduzida pelo violinista Thomas von Wachenfeldt (Hulkoff, Wombbath), preparando o terreno para “Untreatable Decay”, que aposta em uma abordagem fortemente inspirada no Dismember, ainda que sem alcançar a intensidade de clássicos como “Override of the Overture” ou “Bleed for Me”. As referências a outros artistas aparecem de forma recorrente — e não por acaso. O ENTRAILS soa como um verdadeiro mosaico de atributos extraídos de seus predecessores. Isso pode até ser encarado como um demérito, mas, ao mesmo tempo, é difícil classificar o registro como medíocre ou descartável.
“Skin ’Em All” surge como uma surpresa bem-vinda, trazendo passagens de teor psicodélico e uma atmosfera etérea que foge do padrão mais agressivo. Em meio à violência despejada pelo quinteto, esse aceno a outras linguagens soa não apenas válido, mas necessário. O mesmo vale para “Fed to the Dead”, que flerta fortemente com o Doom Metal, sobretudo graças ao solo inspirado e desolador do guitarrista Jimmy Lundqvist. Não por acaso, trata-se da canção mais diversificada do repertório e, possivelmente, a que mais se destaca. Excelente, sem exagero.
Outro ponto alto é a participação do vocalista Per “Hellbutcher” Gustavsson (Friends of Hell, Nifelheim) em “Inner Demon”. Ao lado do novato Julian Bellenox (Nazghor, Morphetik), ele protagoniza um dueto incrível, facilmente transportável para os palcos na próxima turnê do conjunto. Já os riffs mais eficientes do álbum aparecem em “Insane Death”, novamente com Lundqvist assumindo o protagonismo e reforçando sua condição de principal força criativa do ENTRAILS. A execução é rígida e consistente, remetendo diretamente a Linneryd ou Kronoberg em pleno 1990.
No fim das contas, o ENTRAILS, com “Grip of Ancient Evil”, segue a cartilha sem grandes desvios, arriscando pouco fora do script esperado de uma banda de Death Metal oriunda do norte da Europa. Gosto do álbum, isso é inegável, mas também é justo afirmar que essa formação não alcança o mesmo impacto histórico de nomes como Grave ou Dismember. Ainda assim, para quem aprecia a sonoridade sueca clássica, trata-se de um registro honesto, competente e fiel às suas raízes.