O que despertou minha curiosidade em relação às quatro integrantes da DOGMA foi, inicialmente, a estratégia adotada por sua equipe de marketing. As musicistas se empenham em manter identidades, nacionalidades e demais informações pessoais em absoluto sigilo. Talvez, também por conta do figurino inspirado na franquia de filmes “A Freira”, tenham sido imediatamente comparadas ao Ghost. Entretanto, os motivos que renderam a elas o rótulo de “Ghost de saias” praticamente se encerram nesses pontos.
Diferentemente do que ocorre atualmente no projeto liderado por Papa V Perpetua, que conduz a fase recente dos suecos, a ideia da DOGMA segue por um caminho bastante particular: um Hard Rock de arena, com poucas referências diretas ao Heavy Metal ou ao Power Metal. “Forbidden Zone” e “Feel the Zeal” são exemplos claros dessa abordagem, com construções ancoradas no Hard Rock, vibrantes e alinhadas a uma intenção mais acessível e comercial. Ou seja, até aqui, nada exatamente inovador, ainda que eficiente dentro da proposta aplicada.
“Made Her Mine” é a track que mais se aproxima do Metal, adotando uma estética próxima ao Power Metal, marcada por velocidade, bumbos duplos, trechos com blast beats e orquestrações muito evidentes. “Carnal Liberation” segue caminho semelhante, porém é mais pesada e menos melódica — até desembocar em um refrão claramente açucarado. Essa, aliás, acaba sendo a tônica do disco como um todo: composições que circulam principalmente pelo Hard Rock, tangenciam o Heavy Metal e apostam em refrães de assimilação imediata.
“Free Yourself” surpreende ao inserir uma passagem de Jazz que, para minha própria surpresa, não soa forçada em nenhum momento. O encaixe com o Hard Rock é bem resolvido, acrescenta tempero ao álbum e traz uma imprevisibilidade bem-vinda ao material. Já em “Pleasure from Pain”, o peso do Metal retorna, acompanhado por um ótimo solo de teclado e por uma atmosfera que mistura referências sacras e profanas no mesmo ambiente. Particularmente, foi a faixa que mais me conquistou, justamente por apresentar um clima mais grandioso e até levemente neoclássico.
Entre as quatro “freiras”, meu principal destaque vai para Lilith. A cantora é versátil, possui um timbre extremamente agradável e entrega um desempenho sólido em estúdio. Faço questão de enfatizar esse ponto, pois tive contato com o quarteto ao vivo e, infelizmente, não posso afirmar o mesmo sobre seu desempenho no palco. Com mais experiência, tudo tende a se ajustar; ainda assim, fica a sensação de que falta maturidade proveniente da estrada. Soma-se a isso o fato de que as comparações constantes com o Ghost parecem mais atrapalhar do que ajudar na consolidação de uma identidade própria.
“Dogma” é um trabalho curto, direto e envolvente. A decisão de lançá-lo de forma independente em formato físico acabou comprometendo sua circulação, tornando a distribuição limitada e desproporcional à visibilidade que as integrantes já conquistaram. Acredite, caro leitor: conseguir uma cópia foi uma verdadeira batalha — e ainda por um valor absurdamente inflacionado. Resta torcer para que, em algum momento, surja uma edição nacional, que facilite o acesso ao título e faça justiça ao alcance que a DOGMA vem alcançando.