Artista: Beyond Creation
Evento: “The Aura” 15th Anniversary Tour
Cidade/Estado/País: São Paulo – São Paulo – Brasil
Local: Burning House
Data: 23 de Abril
Ano: 2026
Produtora: Caveira Velha Produções e Chamuco Produções
São Paulo é uma cidade fascinante. A verdadeira meca do Metal em solo brasileiro! Em uma noite de celebração para a chegada do Bangers Open Air, com um show avassalador do In Flames em 23 de abril na Áudio, tivemos na Burning House, relativamente longe dali, simultaneamente, a nova passagem da canadense BEYOND CREATION, trazendo um pacote interessante que englobou a execução na íntegra do seu clássico de 2011, o debut “The Aura”, para celebrar o seu aniversário de 15 anos. E não foi apenas isso, o que, por si só, já valeria a pena a nossa ida para lá, mas também a confirmação da norte-americana Fallujah, em sua turnê de promoção do excelente “Xenotaph” (2025), foi outro fator que não poderia ser desconsiderado. Ou seja, preciso dizer que, para quem gosta da vertente mais técnica do Death Metal, era imprescindível presenciar tal encontro de titãs?!
Rumamos para a Burning House com bastante tempo de antecedência, já que a realidade da capital paulista, que não para nunca, impõe que estejamos na iminência de correr riscos de pegar engarrafamentos provenientes das mais diversas circunstâncias. Chegando ao local, que mais parecia um galpão antigo transformado em um ambiente para receber atrações musicais, fomos direto para a área de merchandising, que já tinha uma enorme fila se formando, principalmente na mesa reservada para a BEYOND CREATION. Foi ali que conhecemos o simpático guitarrista Kévin Chartré, que nos atendeu com uma cordialidade incrível. Obviamente, não podia sair sem gastar uma boa grana, com as aquisições de um patch para o meu projeto de colete e uma versão física da demo “Promo CD 2010”, que apenas no hotel vim descobrir que era um CD-R de qualidade duvidosa. Frustrações à parte, coloquei o material na mochila para anexar à minha coleção de CDs e vida que segue.
Pouco tempo se passou quando nos despedimos de Chartré e fomos nos posicionar bem próximos do palco para acompanharmos a Fallujah, que, naquela altura, já estava on stage, se preparando para nos entregar o seu Progressive/Technical Death Metal repleto de climáticas etéreas e ambiências com alto grau de experimentalismos. E não demorou para uma introdução nos PAs denunciar o surgimento dos caras, entregando a inicial e uma das mais fortes de “Xenotaph”, “Kaleidoscopic Waves”, com as suas dissonâncias e ambientações atmosféricas. E foi justamente nela que percebemos a ausência de um baixista os acompanhando. Quem registrou o mencionado full-length foi Evan Brewer, mas a Fallujah vem utilizando como músico contratado o experiente Lucas Koughan (Disembodied Tyrant), embora ninguém estivesse no posto. Fica aqui o adendo de caráter meramente informativo, em vista da falta de detalhes sobre o que poderia ter ocorrido para que o desfalque fosse confirmado.
“Radiant Ascension”, de “Empyrean” (2022), veio em seguida e, naquela altura, eu me encontrava muito incomodado com o som. O conjunto inteiro estava alto demais, passando a real sensação de que todos os instrumentos estavam embolados, dificultando, assim, uma conexão efetiva da audiência com os artistas. Senti um desapontamento absurdo, principalmente porque, quando falamos de um estilo tão técnico, repleto de detalhes, nada pode dar errado para que ocorra uma imersão mais significativa do expectador. Infelizmente, este fato derrubou pela metade a minha alegria por estar presente assistindo ao quarteto. Entretanto, como estávamos trabalhando na cobertura do evento, abstraímos e seguimos em frente para a chegada de “Amber Gaze”, de “Dreamless” (2016), e “Eden’s Lament”, esta última novamente de “Empyrean”.
O jovem vocalista Kyle Schaefer se mostrou esforçado, apesar de ser uma pessoa que demonstrou introspecção em demasia. Ele se comunicou pouco com os bangers, talvez por insegurança perante um perfil de fã inédito para ele, mas não chegou a comprometer diante de uma condução coerente com o que conhecemos dos registros em estúdio, como ficou extremamente evidente em músicas como as mais recentes “Labyrinth of Stone” e “The Obsidian Architect”. Algo semelhante pode ser dito do guitarrista Scott Carstairs, que impressionou a todos por executar seu solo sem o uso de palheta em “Sapphire”, do longínquo “The Flesh Prevails” (2014). Uma verdadeira aula, tenho que admitir.
“Cerebral Hybridization” resgatou o primogênito “The Harvest Wombs” (2011), fazendo a alegria dos seus seguidores mais antigos, enquanto que “The Void Alone” precedeu a derradeira “Xenotaph”, para fechar um repertório que preencheu quase que na totalidade a sua rica discografia. Você percebeu que eu mencionei o termo “quase”? Pois é, senti falta de algo do seu registro de 2019, “Undying Light”. Posso estar sendo chato nesta afirmativa? Sim, posso! Entretanto, como a Fallujah estava debutando no país, poderia ter sido mais radical ao democratizar a compilação de canções que traria para a gente. Não aconteceu, mas acredito que, em uma próxima visita, deveria estar mais atenta a este tipo de posicionamento.
O intervalo entre a saída da Fallujah e a entrada da BEYOND CREATION não foi cansativo, felizmente. Mal deu tempo de passearmos pelo “galpão” e já víamos a movimentação da equipe dos canadenses para deixar tudo pronto para que Simon Girard (vocalista e guitarrista), o já mencionado e carismático Kévin Chartré (guitarrista), Hugo Doyon-Karout (baixista) e Philippe Boucher (baterista) pudessem nos presentear com o emblemático “The Aura” e toda a sua inerente complexidade. Promessa proferida é promessa cumprida, sendo assim, sem espaços para tergiversações, Girard conduziu o seu time como um verdadeiro líder, passeando pelas dez tracks que compõem a referida obra.
De todas elas, oito eram inéditas para os brasileiros, que já puderam conferir a BEYOND CREATION em outras duas oportunidades. Os já conhecidos singles “Coexistence” e “Omnipresent Perception” foram bem recebidos no ato pelos presentes, principalmente o segundo, enquanto as demais foram encaradas como uma excelente chance para a apreciação da virtuose exacerbada dos quatro que estavam no palco. Ao desferirem uma quantidade altíssima de notas, com uma facilidade irritante, nos deram a falsa impressão de que até o mais leigo dos instrumentistas conseguiria reproduzir com a mesma tranquilidade tudo aquilo. Ledo engano, meus amigos, pois o que estes senhores despejaram em nós, metalheads, foi uma enxurrada de texturas e camadas digna de provocar uma catarse coletiva. E assim ocorreu, atesto.
A instrumental “Chromatic Horizon” foi um dos destaques por preparar o terreno para os trechos mais intensos de “The Aura”, que ainda estavam por vir. “Injustice Revealed” — primeira composição da banda — trouxe o seu groove para uma versão ao vivo mais sólida, que acabou funcionando melhor da que fora gravada em estúdio. A dinâmica que ela ofereceu acabou por aproximar ainda mais as pessoas, gerando, assim, um movimento quase uníssono de headbanging, contagiando, até mesmo, este nobre redator. Enquanto que “Le Détenteur”, “The Aura” e a matadora “Social Disability” se consolidaram como a melhor trinca da lista total, na cronologia ela acabou por anteceder a mais pedida e comemorada “The Deported”. E que poder de fogo imenso “The Deported” possui, meu camarada! Certamente, ela foi o ápice alcançado dentro da inaugural parte desta proposta, com o destrinchamento de “The Aura”.
“The Aura” foi a espinha dorsal do espetáculo, como já foi amplamente mencionado neste texto, então o único espaço dado para composições externas a ele foi no bis, com as execuções do novo single “Reverence”, que estará no vindouro disco, e “In Adversity”, de “Algorythm” (2018). Antes deste show, a nossa equipe teve contato com “Reverence”, que rendeu, inclusive, uma resenha neste portal, então foi grande a satisfação de poder conferi-la in loco. O mais importante nela é que a estética criada pela BEYOND CREATION ainda se faz presente, contudo, a excelência na aplicação de mais elementos complexos, principalmente nas seis cordas, elevou de maneira exponencial a sofisticação, riqueza e profundidade da sua sonoridade como um todo!
Já “In Adversity” resgatou o meu título predileto do seu catálogo: “Algorythm”. Foi nela que vimos o quão entrosados estão Girard e Kévin Chartré. Coladíssima em todos os momentos, a dupla manteve uma coesão impressionante no decorrer do seu desempenho em cena. “In Adversity” foi a última e, mesmo com os possíveis cansaços físico e mental, os dois continuaram caminhando juntos, com nota por nota sendo debulhada com classe e harmonia. O saudoso Chuck Schuldiner (ex-Death, Control Denied) ficaria orgulhoso com a propagação de um gênero que, lá atrás, ele ajudou a criar e disseminar para todo o globo. Impressionante, para dizer o mínimo!
Tanto a Fallujah quanto a BEYOND CREATION atuaram muito bem dentro das suas correspondentes releituras de como compreendem o Technical Death Metal. Enquanto a primeira sofreu com um som demasiadamente embolado, a segunda pôde se valer de uma captação refinada, límpida e que proporcionou a absorção do seu emaranhado de ideias por parte da plateia. Independentemente dos problemas técnicos, e mesmo triste por não poder ter comparecido ao side show do In Flames, saí da Burning House com a sensação de que a minha escolha foi por demais acertada. Ficam aqui os nossos parabéns para os produtores pela coragem de manter a data, embora o colosso sueco estivesse absorvendo parte dos seus prováveis “clientes” para vê-lo.
Beyond Creation Setlist:
01. No Request for the Corrupted
02. Coexistence
03. Chromatic Horizon
04. Omnipresent Perception
05. Injustice Revealed
06. Le détenteur
07. The Aura
08. Social Disability
09. Elevation Path
10. The Deported
11. Reverence
12. In Adversity
Fallujah Setlist:
01. Intro
02. Kaleidoscopic Waves
03. Radiant Ascension
04. Intro/Kaleidoscopic Waves/Radiant Ascension (medley)
05. Amber Gaze
06. Eden’s Lament
07. Labyrinth of Stone
08. The Obsidian Architect
09. Sapphire
10. Cerebral Hybridization
11. The Void Alone
12. Xenotaph
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