ARMORED DAWN: Cultura Nórdica à Favor de Causa Beneficente no Nordeste
Postado em 16/05/2026


Artista: Armored Dawn
Evento: Armored Dawn – Nordeste Tour
Cidade/Estado/País: Teresina – Piauí – Brasil
Local: Bueiro do Rock
Data: 16 de Maio
Ano: 2026
Produtora: EFP Produções Artísticas e Fonográficas LTDA

O mês de maio é sempre muito complicado quando o assunto se refere ao clima da capital piauiense, Teresina. Calor intenso com pancadas de chuva que chegam sem qualquer aviso prévio são situações constantes vividas pelos seus moradores e, quando uma pessoa de outro estado vem nos visitar, ela fica terrivelmente assustada. E esta foi a expectativa também vivida pelas pouco mais de 30 pessoas que compareceram ao Bueiro do Rock para prestigiar a paulista ARMORED DAWN, que estava de passagem pelo Nordeste promovendo o seu novo single “Libres” (2025).

Para quem não conhece o Bueiro do Rock e está se perguntando sobre a minha preocupação em mencionar o provável dilúvio que nos aguardaria, saiba que a casa é parcialmente a céu aberto, tendo apenas um pequeno espaço coberto bem na frente do palco. Entretanto, apesar do meu grande temor, felizmente, o aguaceiro não veio, e pudemos conferir, sem qualquer tipo de transtorno, os shows da já mencionada ARMORED DAWN, além da novata e também paulista Kocytus.

Na véspera deste evento, a cidade recebeu, no mesmo local, o Ratos de Porão em sua mais recente turnê, atraindo um grande público. Talvez por conta disso, o comparecimento dos fãs para acompanhar os Vikings brasileiros tenha sido menor do que o esperado. Ainda assim, a ARMORED DAWN não se intimidou e despejou, com muito profissionalismo, as principais composições da sua carreira, que englobaram desde o clássico “Barbarians in Black” (2018) até o já citado “Libres”. Antes, porém, fomos bater um papo com os caras para obtermos informações sobre os acontecimentos recentes da sua trajetória, sendo muito bem recebidos pelo vocalista Eduardo Parras e, principalmente, pelo tecladista e guitarrista Rafael Agostino (ex-Eterna).

No decorrer da conversa, ficamos sabendo que a totalidade arrecadada com a venda de ingressos iria para a APAE, o que acabou me gerando um imenso sentimento de frustração devido ao reduzido público que compareceu para prestigiar a iniciativa. Além desse ponto, foi aventada a possibilidade do seu último álbum, “Brand New Way” (2023), ser finalmente disponibilizado no formato físico, algo em que a banda está em falta com os seus die-hard fans há pelo menos três anos. E foi durante o referido tema que observamos bem de perto os quatro garotos da Kocytus tomarem as suas posições no aconchegante palco do Bueiro do Rock.

O quarteto está na ativa há quatro anos e tem na sua discografia três singles e o homônimo álbum de 2024, que foi a espinha dorsal do curtíssimo set apresentado para o pequeno número de espectadores que estavam presentes. Das cinco canções, quatro delas eram do full-length: “Slave Knight”, “Heretic”, “Funeral of the Living” e “Titans of Creation”, acrescidas do novo single de 2026 “Visceral Flesh”, que demonstrou menos complexidade do que as suas antecessoras. Mas, afinal de contas, o que podemos falar sobre a Kocytus em cena?!

O grupo apresentou um Death Metal extremamente técnico, complexo e que tem diversas referências do que se convencionou a chamar de Post-Black Metal. Foram tantas informações que, para um marinheiro de primeira viagem, tudo poderia ficar bastante confuso. “Slave Knight”, por exemplo, com seus mais de 11 minutos de duração, é um verdadeiro passeio por atmosferas densas, velocidade induzida pelos riffs do guitarrista João Pedro Oliveira, pela técnica refinada do baterista Rodrigo Moraes e pelas alternâncias de abordagens de canto do vocalista Matheus Javali. Uma verdadeira epopeia, pode acreditar!

Apesar do pouco tempo de estrada, a Kocytus demonstrou muita desenvoltura e personalidade ao encarar uma plateia de uma região tão distante da sua e que estava tendo o primeiro contato com um gênero que não é tão simples de ser compreendido. Passaram o seu recado de maneira convincente, mesmo que a proposta de fato cause muita estranheza. Está aí um tipo de apresentação que vale muito mais a pena ser apreciada assistindo do que se aventurando em rodas no mosh pit. Gostei desta primeira experiência e espero poder ouvir falar mais desses meninos no futuro.

Com a saída da Kocytus, não demorou para que a equipe da ARMORED DAWN deixasse tudo pronto para que o sexteto pudesse apresentar o seu Power Metal com muitas referências do Folk e do Viking Metal aos nordestinos que ali estavam sedentos por um bom entretenimento. E, com a entrada da banda, uma consideração inicial precisa ser explicitada para o caro leitor que nos acompanha. Impossível não afirmar: que timaço o vocalista e líder Eduardo Parras montou para esta nova fase da sua carreira. Além do experiente baterista Ivan Busic (Dr. Sin) e do baixista Heros Trench (ex-Korzus), o elenco conta com a experiência do maestro Rafael Agostino, que aqui assume as funções de tecladista e guitarrista, sendo esta última em determinadas canções.

Completam o plantel os guitarristas Tiago de Moura e o divertido finlandês Timo Kaarkoski, que nesta noite foi intimado por Parras a mandar uma mensagem em suomi para a audiência, divertindo a todos com o seu carisma e bom humor. E foi com o belo telão de LED estampando a logomarca da ARMORED DAWN, intercalada com imagens referenciais à sua veia Viking, que “Animal Uncaged”, de “Viking Zombie” (2019), chegou como um soco no estômago em todos que ali estavam. Bacana foi ver a presença cênica intensa dos músicos, ainda que diante de poucas pessoas.

O cronograma foi desenvolvido com “Tides”, de “Brand New Way” (2023), que antecedeu a faixa-título do seu terceiro registro, “Viking Zombie”. Aliás, o mencionado material é certamente o mais celebrado da sua história, principalmente pela presença da dançante “Ragnarok”, que, lá pelas tantas, foi executada com a participação massiva dos bangers. Outros destaques vão para os singles “Por Cuantas Noches” e “Libres”, compostos em castelhano como agradecimento ao povo argentino que abraçou a proposta da banda desde a sua primeira passagem pelo país vizinho. Belas canções, principalmente “Libres”, que soou mais inspirada e emocional do que a primeira.

A única ausência sentida foi a não inclusão de qualquer faixa do debut “Power of Warrior” (2016). Tá certo que nem sempre dá para executar tudo, mas deixar de fora hinos como “Viking Soul”, “Too Blind to See” e “Prison” não é algo muito inteligente na minha humilde e sincera opinião. A performance continuou com o recente single de 2026 “Yahweh”, que mais recebeu atenção do que interação, e a trinca de “Barbarians in Black” (2018), composta por “Sail Away” (excelente ver as pessoas cantando junto), “Gods of Metal” e “Beware of the Dragon”.

“Beware of the Dragon” contou com uma situação que elevou relativamente a temperatura do lugar, quando Heros e Parras desceram do palco para estarem perto dos seus seguidores. Foi um momento marcante e que serviu para conectar bem mais a ARMORED DAWN com o nordestino raiz, que não está habituado com o seu estilo de escrita. Impossível não se contagiar com tamanha boa vontade dos artistas, que fizeram questão de entregar o seu melhor, mesmo que apenas uma única pessoa estivesse por lá para vê-los. E, neste ínterim, ainda vale menção o curto, porém eficiente, solo de bateria de Busic, que apenas reitera o enorme prestígio que ostenta quando o assunto é o seu instrumento. Simplesmente matador!

Antes do encerramento, Parras perguntou se poderiam tocar uma última canção, como presente para os teresinenses, que até então não havia sido lançada. Com um forte e positivo grito em uníssono, Heros, ao violão, entregou uma bela introdução Folk para, na sequência, o seu vocalista proferir uma intimista letra em português, surpreendendo absolutamente todos. “Fisherman” é o seu título, e me arrisco a dizer que ela pode estar indicando um caminho mais comercial para a ARMORED DAWN e que deverá abrir diversas portas e oportunidades para os seus membros. Linda melodia, belos arranjos e uma participação mais ativa e marcante de Agostino nos teclados.

Apesar de uma plateia modesta e, consequentemente, escassa arrecadação para a campanha da APAE, a ARMORED DAWN cumpriu o seu papel com comprometimento e seriedade. Embora o calor tenha sido um fator que os atrapalhou bastante, os músicos souberam entreter e conduzir os trabalhos de maneira a deixar os seus apoiadores satisfeitos. Agora, um novo álbum se faz necessário para o seu desenvolvimento e para o retorno do crescimento tanto no Brasil quanto no exterior. Por aqui, o jogo está ganho, e desejamos que o Nordeste passe a ser rota obrigatória para Mr. Parras & Cia.

Armored Dawn Setlist:

01. Animal Uncaged
02. Tides
03. Zombie Viking
04. Brand New Way
05. Injustice For All
06. Enough
07. Por Cuantas Noches
08. Libres
09. Ragnarok
10. Yahweh
11. Sail Away
12. Gods of Metal
13. Beware of the Dragon
14. Fisherman

Kocytus Setlist:

01. Slave Knight
02. Heretic
03. Visceral Flesh
04. Funeral of the Living
05. Titans of Creation

 
Categoria/Category: Shows

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