Artista: Ad Baculum
País: Brasil
Álbum: Necro Biomechanical Existence
Gravadora: Brazilian Ritual Records
Licenciamento: Brazilian Ritual Records
Versão: Compact Disc
Ano de Lançamento: 2025
Gostaria de iniciar este texto avaliativo de uma maneira bem diferente do convencional, fazendo uma pergunta muito direta para o nosso amigo leitor. Ainda que seja um pseudônimo extremamente fácil de ser replicado, você consegue associar algum músico da cena brasileira que atenda pela alcunha de Lord Hades? Os mais atentos, acredito, sabem a resposta, entretanto, caso eu tivesse mencionado a figura de Meugninousouan logo de cara, no mesmo questionamento, qualquer banger que se preze apontaria imediatamente para o primeiro vocalista do Mystifier, encarregado de registrar integralmente o clássico “Wicca” (1992) e parcialmente o segundo opus “Göetia” (1993). Pois é, o cara continua ativo e atuante com o seu projeto AD BACULUM, que agora chega ao seu oitavo álbum “Necro Biomechanical Existence” em 2025.
Desde 2011, espalhando a praga com a disponibilização do debut “Blackness Doctrine”, Hades nos entrega um Death/Black Metal calcado na antiga escola do gênero, mais precisamente dentro do recorte compreendido na segunda metade dos idos de 1990. Cada vez mais afastado da estética que o projetou no cenário ao lado do Mystifier, ele procura seguir um percurso que até parece similar na essência, mas que se difere bastante nas estruturas atuais encontradas em “Necro Biomechanical Existence”. A velocidade é predominante em diversas passagens, contudo, é incrementada com trechos cadenciados e que elevam o valor diversificado dos arranjos. Desta forma, pode ficar tranquilo, pois este material não nos passa a impressão de que estamos ouvindo a mesma música em looping até o seu desfecho.
Hades é responsável pelas gravações das vozes, baixo e guitarras, enquanto Lunatic (Headhunter D.C., Morbid Perversion) assinou a produção e ainda atuou como baterista e nos registros pontuais nas seis cordas. Ou seja, o resultado que temos em mãos é obra de uma dupla que já está junta e entrosada há alguns bons anos. E o reflexo disso se revela em um conteúdo visceral e que se escora em estéticas claras do Black Metal helênico e referências que me remeteram prontamente ao Impaled Nazarene e sua atitude Hardcore/Punk, como nas ótimas “Dehumanization” (com seus mais de sete minutos de duração) e “Rooted Worm Parasite”, além da anexação de uma temática não tão convencional para artefatos deste nicho.
Sim, acredito que um dos pontos mais altos inseridos em “Necro Biomechanical Existence” está impregnado nas letras de sete das oito tracks disponíveis. Excetuando-se “Dark Instrumental”, que, como o seu próprio nome já sugere, não possui vocais, as demais servem como alicerce para que o seu compositor discorra através de caminhos sombrios que abrangem a transformação da vida em matéria degradada e mecanizada, na qual o ser humano deixa de ser uma criatura essencialmente orgânica e passa a funcionar como uma espécie de engrenagem de um sistema destinado à destruição. A faixa “Biomechanical Existence” se mostra como o ápice desta narrativa ao demonstrar de maneira clara a conexão mais direta entre o aspecto biológico e o mecânico: o organismo vivo transformado em mecanismo, corpo funcionando como máquina, humanidade reduzida a matéria, produção, consumo e sobrevivência.
A produção do disco é condizente com a proposta musical, mas uma das escolhas da mixagem me desconectou um pouco durante a minha experiência. Na sua totalidade, a voz de Hades está mais alta do que todas as demais camadas, ressaltando um protagonismo que não precisava ser ainda mais evidenciado. Eu preferia que tudo soasse dentro de um único bloco de áudio, para que as sensações de peso e impacto fossem ainda mais contundentes. Infelizmente, não foi o que aconteceu, mas não precisa jogar pedras neste humilde redator. Tal aspecto também não é algo que vá desqualificar os pouco mais de 30 minutos de pancadaria expostos com a veracidade costumeira dos títulos encabeçados por ele. Se você já está familiarizado com a sua carreira, pode conferir sem medo de quaisquer frustrações.
“Necro Biomechanical Existence” é direto, orgânico e intrigante na sua mais profunda natureza. Ao se preocupar em fugir de determinados clichês do Death/Black Metal, Hades acabou por alcançar o ponto mais relevante da sua trajetória até o presente momento. Obviamente, comparações com a sua passagem pelo Mystifier ocorrerão e até algumas delas são legítimas, mas é notório que ele não procura viver do passado, apenas requentando o que já havia sido escrito em outras eras. Honestidade é a palavra de ordem aqui, para que a manutenção do seu rico histórico seja preservada e respeitada por todos que amam as artes negras do nosso submundo.
Formação:
Lord Hades (vocalista, guitarrista, baixista)
Lunatic (guitarrista, baterista)
Tracklist:
01. The Sacrificial Tower
02. Dehumanization
03. Biomechanical Existence
04. The Ancient Machine of Doomed Civilization
05. The One Whose Emerge from the Flames
06. Homo Sapiens Annihilation
07. Rooted Worm Parasite
08. Dark Instrumental
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