Não são poucas as bandas em todo o mundo que possuem influências do movimento musical/cultural que nasceu décadas atrás no Reino Unido. A New Wave of British Heavy Metal continua mais viva do que nunca, gerando, a cada ano, novos representantes nos principais celeiros do underground. E, como o Brasil jamais poderia ficar de fora dessa história, eis que vos apresento o GAIABETA, que acabou de lançar o seu debut “Gate of GaiaBeta”. O quinteto, nascido na Bahia, nos traz o que há de melhor dentro do referido segmento artístico, mas sem se abster de inserir o tempero típico do músico tupiniquim. Fomos conversar com o simpático e sempre solícito vocalista Marcos Diantoni, para juntos destrincharmos toda a trajetória da GAIABETA, tendo como epicentro o citado disco.
The Ghost Writer Magazine: A GAIABETA é uma formação relativamente nova, tendo iniciado as suas atividades em 2017. Como se deu a ideia de tirar do papel esse projeto e como foram os primeiros anos de trabalho?
Marcos Diantoni: Antes de mais nada, quero agradecer pelo espaço e pela oportunidade de falar sobre a banda. Bom, eu sou um cara muito respeitador e, ao invés de deixar o ego sabotar trabalhos anteriores que criei com amigos, resolvi começar do zero um projeto no qual pudesse, sem brigas ou divergências, dar o direcionamento que eu mais gostava e que também permitisse escoar minhas composições. E os primeiros anos do GAIABETA seguiram rigorosamente o roteiro das bandas underground: muitas dificuldades e muita troca de integrantes (risos).
The Ghost Writer Magazine: “Gate of GaiaBeta”, seu primeiro álbum, foi lançado apenas em 2025. Por qual motivo demoraram tantos anos para a sua estreia discográfica? Por qual razão preferiram partir logo para o full-length, ao invés de seguirem o caminho tradicional das demo tapes e EPs?
Marcos Diantoni: Veja bem: a banda foi criada no Nordeste, na Bahia (terra da Axé Music), e no interior do estado! Ou seja, tudo transcorria para dificultar o trabalho. Aliado a isso, tinha a ausência de boa mão de obra (e muitas vezes o cara é bom tecnicamente, mas péssimo de convívio), falta de equipamentos de qualidade, entre outras. Veja que as dificuldades só aumentam (risos). São pontos desgastantes e que, na maioria dos casos, são os principais motivos para a morte prematura de bons projetos, sem falar da falta de visão profissional e de foco também. Tem cara que vem tocar, mas se você não o colocar no Wacken Open Air em 6 meses, ele perde o “tesão” (risos). Esses foram os principais motivos da demora, porém o principal eu tinha: boas composições. Eu sabia que era só questão de tempo para conseguir os parceiros certos.
The Ghost Writer Magazine: Você, Marcos, foi o responsável por assinar a produção do álbum, ao lado de Mr. Kitaro, que conduziu os processos de mixagem e masterização. Como tais etapas foram finalizadas em 2023, mas o disco só veio a ser lançado 2 anos mais tarde, imagino que a experiência de concluí-lo foi bem complexa. O que vocês podem nos relatar sobre o tempo que passaram no KTR and Masai Mara Studios?
Marcos Diantoni: Quando eu conheci Kitaro, já tínhamos gravadas as 3 primeiras canções, que saíram como singles. Como ele se mostrou muito interessado e já estava concluindo um curso com um renomado na área de produção musical, a decisão mais acertada foi deixar isso nas mãos dele, pois estaríamos valorizando o companheiro, economizaríamos dinheiro e, o melhor: teríamos alguém interno que deixaria o som como deveria ficar. Não tivemos pressa, porque ainda faltavam umas 3 ou 4 canções inéditas para compor o álbum. Então, enquanto as músicas iam sendo concluídas, ele ia aprimorando sua técnica. O disco foi lançado em 2025 porque eu tinha algumas exigências para os selos que se apresentavam. Eu queria a inserção das nossas 3 primeiras canções no álbum como faixas bônus (já que são as mais conhecidas do público) e também um selo que nos desse a oportunidade de um giro fora do país. Em ambos os casos, a Pitch Black Records se encaixou perfeitamente.
The Ghost Writer Magazine: A sonoridade da banda se escora no que existe de melhor da NWOBHM, de nomes como Iron Maiden (principalmente) e Warlord. Contudo, também temos aqui várias referências ao Power Metal Melódico dos anos 1990. Vocês concordam com as minhas colocações? Seguir por esse caminho foi algo natural?
Marcos Diantoni: Sim, bem observado. Eu sou fã do Maiden. Fiquei impactado com o Maiden na fase da década de 1980. Mas, quando comecei a compor, percebi que gostava de bumbo duplo e que “faltava” essa característica no som deles. “Achei” esses bumbos em bandas como HammerFall e Helloween, então agreguei o som arrastado do Black Sabbath da era Dio, que também sempre foi uma paixão desde garoto, e deu nisso aí: o som do GAIABETA.
The Ghost Writer Magazine: Eu não conhecia o trabalho do designer Renato Ferreira, responsável pela arte da capa do CD. Como vocês avaliam o resultado obtido pelo profissional?
Marcos Diantoni: O Renato é um profissional incrível. Transforma em realidade o que você solicitar. Dei a ele um esboço e a ideia do que eu queria, e ele fez essa capa que, ao meu ver, é uma das mais bonitas do Metal brasileiro. É uma arte que está sendo muito bem elogiada no exterior.
The Ghost Writer Magazine: Ao analisar mais a fundo o álbum, fica evidente que temos em mãos um material conceitual. Percebi muita influência da cultura egípcia nele, estou correto? As relações humanas aqui são outro ponto forte, então do que se trata a narrativa?
Marcos Diantoni: As letras das canções são frutos das minhas leituras desde garoto. Vindo de família religiosa, onde tudo era considerado pecado, só me restava ler e estudar. Então abordo temas de mitologia, como em “Second Flame”; ficção sobrenatural, como em “Hands of Revenge” e “Chains of the Ghosts”; a relação do ser humano com o meio em que vive, como em “Get Your Freedom” e “Back to the Past”; temas históricos, como “Innocent Land”, entre outras.
The Ghost Writer Magazine: Gostei muito da banda ter escolhido uma faixa mais cadenciada e épica para abrir a tracklist de “Gate of GaiaBeta”. “The Pharaoh’s Return” é uma música forte e de fácil conexão com o clássico “Powerslave”, do Iron Maiden. Foi consciente a decisão de seguirem nessa direção?
Marcos Diantoni: Uau. Agradeço o link com uma música tão grandiosa, mas não foi essa a intenção. Na verdade, essa canção eu compus baseada em uma das minhas primeiras leituras na adolescência, o clássico de Frank Herbert, “Duna”. A letra dá pistas disso quando fala que “criaturas estão emergindo da areia para saudar o Muad’Dib”.
The Ghost Writer Magazine: “Hands of Revenge” é um dos meus destaques, principalmente pelas referências estéticas a “Rime of the Ancient Mariner”, do Iron Maiden. O quão importante é a obra da Donzela de Ferro para a concepção das músicas da GAIABETA? Em qual momento da estória “Hands of Revenge” se passa?
Marcos Diantoni: Cara, eu também amo essa canção. A ideia dela surgiu quando eu parei a moto em um semáforo. Em apenas um minuto, tive um rápido insight de melodia. Assim que o semáforo abriu, parei a motocicleta, saquei meu celular e solfejei. Em casa, não deixei ninguém falar comigo, fui para meu home studio e registrei o trecho. Eu imaginei dois amigos companheiros de exército em um momento de guerra. Um leva um tiro e o outro, ao invés de socorrê-lo, o deixa agonizando. É sobre a decepção com quem você considera amigo e é abandonado no momento em que mais precisa.
The Ghost Writer Magazine: Outra que não quero deixar passar batida é a ótima instrumental “Victory is Coming”. Normalmente não dou muita bola para faixas nesse formato, contudo ela foi muito bem construída. Inclusive, ainda deu tempo de inserirem trechos da “Marcha Fúnebre”, de Frédéric Chopin, nela. Qual a ideia por trás de “Victory is Coming”?
Marcos Diantoni: Ela começa explosiva, cheia de vida. O trecho da marcha fúnebre (parabéns) é um alerta para as dificuldades que ocorrem em algum momento da vida de qualquer pessoa, mas, logo em seguida, a canção retoma seu vigor galopante e finaliza de forma épica. É um conselho para nunca desistirmos.
The Ghost Writer Magazine: A GAIABETA é outro exemplo de banda brasileira que, primeiramente, recebe reconhecimento no exterior do que no seu próprio país. Como vem sendo a recepção do público europeu ao álbum? Como tem sido o trabalho da gravadora grega Pitch Black Records até aqui?
Marcos Diantoni: Eu nunca quis ser um Dream Theater, até porque não tenho competência musical para isso (risos). O objetivo era fazer um som honesto e dentro da nossa capacidade técnica. Pelo visto, os europeus entenderam a proposta sonora e estamos muito felizes. Eu sempre acreditei que houvesse público para esse tipo de som, mas confesso que estamos surpresos com a recepção gringa. Resenhas vindas de vários países têm valorizado bastante nosso álbum e nos abrindo portas que antes eram só um sonho distante. E, como a direção da Pitch Black é fanática pela NWOTHM, é óbvio que ela tem interesse em nos fazer crescer.
The Ghost Writer Magazine: “Gate of GaiaBeta” flerta em diversos momentos com o Power Metal, mas a banda acaba não deixando a coisa pender muito para esse lado. Essa foi uma preocupação constante no momento de preparar as canções?
Marcos Diantoni: Sim, sem dúvidas! Como eu disse anteriormente, gosto da energia que o bumbo duplo causa, mas amo o groove feito por apenas um. Falo muito em bateria porque comecei minha carreira musical como baterista e, como a rotatividade dos bateristas infelizmente era grande, eu compus todas as linhas do instrumento que você ouviu no CD. Então, sim, em minhas composições eu tenho esse cuidado. O ouvinte pode achar que somos uma banda de Power Metal, com influências de Heavy Tradicional, como também pode nos classificar como uma banda de Tradicional com influências de Power. Está tudo certo (risos).
The Ghost Writer Magazine: O álbum possui 8 faixas inéditas, além de terem sido inseridas 3 faixas bônus: “The Last Warriors”, “Ashes from the Stars” e “Back to the Past (Nevermore)”. Por qual razão elas não entraram como músicas pertencentes à obra/estória? O que vocês podem nos contar sobre elas?
Marcos Diantoni: Essas canções foram as primeiras a serem gravadas e lançadas. Foram elas que soltaram o nome do GAIABETA para o mundo. Foram elas que trouxeram nossa primeira gravadora europeia, a Dymm Records, de Portugal. Sempre foram muito bem recebidas pelo público, a ponto de serem cantadas a plenos pulmões pelas plateias onde nos apresentávamos. Não podiam ficar de fora, porém não podiam sair como canções do álbum, pois já haviam sido lançadas por outro selo. Um novo selo só lança canções inéditas. Então essa foi uma das exigências para assinarmos com qualquer gravadora. Agradecemos muito à Pitch Black pela generosidade e visão comercial, pois foram as canções mais elogiadas na Alemanha.
The Ghost Writer Magazine: A banda vem realizando algumas aparições no Brasil, visando a promoção do disco. Existe alguma possibilidade de vermos a GAIABETA romper as nossas fronteiras para um giro pelo velho continente?
Marcos Diantoni: Sim, sem dúvidas. Procuramos sempre manter os pés no chão, cientes de que não é algo fácil. Porém, esses bons reviews vindos principalmente da Alemanha parecem estar nos abrindo portas lá fora. Estamos trabalhando forte para isso se realizar.
The Ghost Writer Magazine: A redação da The Ghost Writer Magazine agradece o tempo cedido para este bate-papo. Estamos agora finalizando, mas, antes, gostaríamos de saber quais os planos futuros da GAIABETA e o que os fãs podem esperar para o segundo semestre de 2025?
Marcos Diantoni: Eu, Marcos, agradeço imensamente ao competente pessoal da The Ghost Writer Magazine, em nome de toda a banda, pelo espaço. Agradeço ao pessoal da MS Metal Agency Brasil também, pelo cuidado conosco. Já temos 4 shows agendados para o próximo semestre e mais 3 na capital paulista, na expectativa de serem fechados. Ainda temos espaço na agenda. Estamos à disposição de quem queira fazer parte da família GAIABETA. Nessas duas próximas semanas, disponibilizaremos o álbum em nosso canal no YouTube! Então, por favor, deem uma conferida em nosso site. Lá vocês acharão links para as nossas redes sociais. Inscrevam-se. Sigam-nos para que possamos ficar cada dia mais fortes. Forte abraço a todos!
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